UOL Notícias Internacional
 

14/05/2008

Costuras da colcha belga ameaçam romper

The New York Times
De Steven Erlanger

Em Liedekerke, Bélgica
Se algum dia a Bélgica desaparecer, será por causa de pequenas cidades como esta, onde políticos flamengos estão explorando uma nova onda de nacionalismo e pressionando por um Estado independente.

Liedekerke tem apenas 12 mil habitantes, mas seu conselho eleito causou alvoroço ao insistir na "natureza flamenga" da cidade. Não apenas todas as empresas e escolas da cidade devem adotar a língua flamenca, o que vale por toda Flandres, mas as crianças que não conseguirem falar a língua poderão ser proibidas de participar de excursões em feriados, caminhadas e aulas de natação.

"Belgie Barst!" diz uma pichação em uma ponte próxima da estação de trem -"Bélgica Arrebenta!", o grito dos nacionalistas que querem a independência de Flandres. Mas aqui eles também querem impedir os ricos francófonos de Bruxelas -a apenas 21 quilômetros de distância e 15 minutos de trem- de comprarem esta bela paisagem e mudarem a natureza da cidade.

Marc Mertens, 53 anos, é o secretário em tempo integral da cidade, um administrador profissional que trabalha para o conselho eleito, mas que atua apenas meio período. Sentado em um café próximo de uma velha igreja -acredita-se que Liedekerke signifique "igreja na pequena colina"- ele descreve a luta de seu avô na 1ª Guerra Mundial sob oficiais que davam comandos apenas em francês.

"E então diziam em francês: 'Para os flamengos, o mesmo!'" A frase ainda causa irritação, e o avô de Mertens, um professor bilíngüe, recusou um posto de oficial por princípios.

Mertens, um homem bem-apessoado e afável, está preocupado com sua cidade. "Bruxelas está vindo nesta direção", ele disse, explicando que as pessoas daqui, após terem conquistado certa autonomia, não querem ser sobrepujadas de novo por outro domínio dos francófonos. Mais estudantes do que antes, ensinados em flamenco, possuem pais de língua francesa. "Quando eu era jovem, eu nunca ouvi uma língua estrangeira aqui", ele disse. "Agora, todo dia eu encontro pessoas falando francês."

Marleen Geerts, 48 anos, uma professora de ciência da computação para crianças de 13 anos, disse que ensinar francófonos exige tempo. "Você não consegue dar andamento com o material se eles não entendem", ela disse. "É uma dificuldade." A escola dela fornece tutor de línguas.

Alguns nacionalistas flamengos, como Johan Daelman, o líder daqui do partido de direita Vlaams Belang, anti-imigrantes, e um vereador da cidade, deseja impedir a entrada de imigrantes da África que falem francês, tudo em nome de manter Liedekerke "intacta" -livre da criminalidade e das tensões raciais de Bruxelas.

"Nós não queremos que Liedekerke se torne como um subúrbio de Paris", disse Daelman, descrevendo os tumultos, carros incendiados e ataque contra a polícia cometidos pelos imigrantes, a maioria africanos, na França.

"Problemas de cidade grande estão chegando aqui e queremos impedir." Esta combinação de orgulho nacional, política direitista, pureza de língua e oposição com um toque racial à imigração é uma fórmula clássica atualmente na Europa, o que os críticos chamam de uma espécie de fascismo não violento.

Os nacionalistas flamengos também têm outra queixa. Os flamengos representam 60% da população da Bélgica e habitam a parte mais rica, com desemprego muito menor do que a Valônia de língua francesa.

"Os francófonos costumavam nos governar", disse Daelman. Agora, no governo nacional, ele acrescentou, "não é o princípio de um homem, um voto, e todo problema na Bélgica agora se torna um problema das comunidades. É um espetáculo surrealista, e a melhor resposta é dividir o país".

O esforço de Liedekerke para restringir as excursões escolares por língua embaraçou tanto as autoridades federais quanto o governo de Flandres, ambos situados em Bruxelas. Marino Keulen, o ministro do Interior flamengo, o vetou, apesar da cidade pretender seguir em frente assim mesmo.

"São método e visão errados", disse Keulen em uma entrevista em Bruxelas. "Eles não podem fazê-lo com uma prova de língua." Ele disse que o problema foi a popularidade do programa de Liedekerke junto aos moradores de Bruxelas, "que querem usar as instalações de Flandres, que são de alta qualidade".

Outras formas de restringir o programa, usando taxas e comprovantes de residência, parecem boas e menos embaraçosas. Mas Keulen também está incomodado com os subsídios à Valônia, já que Flandres tem menos de 6% de desemprego (em comparação a 16%) e produz 81% das exportações da Bélgica. Ele disse que apóia um Estado federal, mas até mesmo seu chefe de gabinete, Steven Vansteenkiste, se queixa do veto de língua francesa.

"Nós somos uma maioria e freqüentemente não podemos fazer o que queremos, mesmo em nossa região, porque a minoria francófona nos bloqueia", disse Vansteenkiste. "Nós vemos muito dinheiro indo do norte para o sul, mas ainda assim eles estão ficando cada vez mais para trás. Eles realmente temem que nós os abandonemos."

A pequena Liedekerke também é importante nacionalmente, porque faz parte do distrito eleitoral e jurídico de Bruxelas-Halle-Vilvoorde, conhecido como BHV, no coração da incapacidade de formar um governo federal belga estável.

Legisladores flamengos querem dividir o distrito, separando Bruxelas, de maioria de língua francesa e que conta com um status especial bilíngüe em Flandres na condição de capital federal, das outras áreas flamengas. Isto impediria os políticos francófonos de buscarem votos nas áreas flamengas e basicamente colocaria um fim aos direitos especiais bilíngües de cerca de 70 mil francófonos que vivem em Flandres, mas fora de Bruxelas.

Mas os legisladores valões estão bloqueando as mudanças, por temerem que seu poder esteja ruindo, que os flamengos estejam realizando uma espécie de limpeza étnica legal e que a Bélgica dividida acabe com os subsídios que fluem da mais rica Flandres para o sul.

Yves Leterme, o democrata cristão flamengo que é primeiro-ministro federal, prometeu mudanças constitucionais que aumentariam a autonomia regional. Ele precisou de quase 150 dias para formar um governo, mas seu destino ainda é incerto, salvo apenas por um acordo na manhã da última sexta-feira para adiar novamente o imbróglio BHV, até pelo menos meados de julho.

Um dos principais motivos para a disputa, disse Caroline Sagesser, um analista da Crisp, um grupo de pesquisa de Bruxelas, é a futura fronteira de Flandres. "Se trata de impedir que a bilíngüe Bruxelas se expanda ainda mais em Flandres, porque se algum dia ocorrer a separação, Flandres não poderia manter Bruxelas", ela disse, dada sua maioria de língua francesa.

Em Liedekerke, Mertens encontra hipocrisias na briga em torno das excursões das crianças. A associação de esportes de Flandres, a Bloso, controlada pelo governo de Flandres, promove atividades esportivas e acampamentos. Mas a Bloso também diz que as crianças que não falam e nem entendem flamengo podem ser enviadas de volta para casa sem reembolso, disse Mertens. "Keulen diz que somos contrários à lei, mas esta instituição flamenga pode fazê-lo", ele disse, "e escrevemos para ela a respeito".

Logo, Liedekerke pretende manter seu programa de restrição às excursões, mas dentro da lei. Ela logo votará uma emenda que diz que seu programa de excursões "tem um caráter holandês", disse Mertens. "E em vez de dizer que o monitor pode recusar crianças que não entendam flamengo, nós escreveremos que o monitor pode recusar crianças que 'perturbem' as excursões." É claro, disse Mertens, sorrindo, "é possível interpretar 'perturbação' de diferentes modos". Para ajudar a manter afastados os "parentes" e "amigos" que vivem em Bruxelas, Liedekerke cobrará deles três vezes mais do que dos moradores.

Mertens espera que suas duas filhas, 12 e 13 anos, vivam em uma Flandres independente, e acha que ele também poderá. "Eu estou convencido de que a Bélgica não pode durar", ele disse. A disputa em torno de BHV "será vista como o início da guerra entre os flamengos e francófonos", ele acrescentou.

"Os flamengos estão se tornando mais cientes e mais decisivos. Nós fomos governados por tempo demais por francófonos e nossa hora chegou. Pode levar 10, 20 ou 30 anos. Mas esta Bélgica se tornará supérflua." George El Khouri Andolfato

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