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15/05/2008

Mulheres ainda encontram obstáculos para ingressar em trabalho no campo técnico

The New York Times
Lisa Belkin
Koren Shadmi/The New York Times 

Nos velhos e maus tempos, o local de trabalho era um campo de batalha, onde piadas machistas e preconceitos eram a norma.

As mulheres eram boicotadas em promoções por redes antigas de meninos que se favoreciam. Em reuniões, freqüentemente eram as únicas mulheres da sala.

Tudo isso mudou nas últimas três décadas, com algumas exceções. Nos campos de ciência, engenharia e tecnologia, aparentemente, o passado ainda está muito presente.

"É quase uma volta no tempo", disse Sylvia Ann Hewlett, fundadora do Centro de Política para Trabalho-Vida, uma organização sem fins lucrativos que estuda as mulheres e o trabalho. "Todas aquelas coisas discriminatórias e humilhantes que aconteciam há 20, 30 anos estão vivas nessas profissões."

Essa é a conclusão do mais recente estudo do centro, que será publicado pela "Harvard Business Review" em junho.

Com base em entrevistas com 2.493 trabalhadores (1.493 mulheres e 1.000 homens) entre março de 2006 e outubro de 2007 e centenas de outras em grupos de estudo, o relatório pinta um retrato de uma cultura machista na qual as mulheres ficam de fora, e as que conseguem entrar eventualmente partem.

O estudo foi concebido em resposta à afirmativa altamente criticada de três anos atrás pelo então reitor de Harvard, que as mulheres não eram bem representadas na ciência porque não tinham as qualidades necessárias para se saírem bem.

O propósito da pesquisa do centro era medir o tamanho do vão entre os sexos e decifrar por que as mulheres deixam as profissões em ciência, engenharia e tecnologia em números desproporcionais.

O problema não é que as mulheres não estejam fazendo avanços nas ciências puras. De acordo com um artigo da Fundação de Ciência Nacional, 46% dos graus de doutorado em ciências biológicas são para mulheres (comparados com 31% há duas décadas) e 31% dos de química, comparados com 18% há 20 anos.

E as mulheres entram em números consideráveis para engenharia, ciência e tecnologia (ECT). De fato, 41% dos trabalhadores em início de carreira nessas profissões são mulheres, segundo o estudo, com a mais alta representação em pesquisa científica e médica (66%) e a mais baixa em engenharia (21%).

Elas também se saem bem no início da carreira, com 75% das mulheres de 25 a 29 anos sendo descritas como "incríveis", "excelentes" ou "extraordinárias" em seus relatórios de desempenho, palavras usadas para 61% dos homens na mesma faixa etária.

No entanto, ocorre um êxodo entre 35 e 40 anos. O relatório alertou que 52% deixam suas carreiras, algumas procurando empregos mais "suaves" em ciências de recursos humanos em vez de trabalho da bancada de laboratório, por exemplo, e outras para profissões inteiramente diferentes. Esse número é o dobro do índice dos homens e mais alto que o índice de atrito de mulheres em direito ou em bancos de investimento.

As razões encontradas pelo estudo são variadas, mas todas têm suas raízes no que os autores descrevem como uma ampla cultura machista.

Os engenheiros têm sua "cultura de capacete de obra", enquanto biólogos e químicos vêem-se na cultura do "jaleco" e especialistas em computação vivem a cultura "geek". Em comum, são "na melhor das hipóteses, pouco companheiros e, na pior, hostis às mulheres", disse o estudo.

O relatório de 147 páginas (patrocinado pela Alcoa, Johnson & Johnson, Microsoft, Pfizer e Cisco) está cheio de histórias de assédio sexual (63% das mulheres dizem ter sido assediadas no trabalho); de atitudes de desprezo por colegas homens (53% disseram que, para terem sucesso na carreira, tinham que "agir como homens"); falta de mentores (51% dos engenheiros não tinham); e de problemas com um horário adequado para homens com esposas em casa, mas não para mães que trabalham fora (41% dos trabalhadores em tecnologia disseram que precisavam estar disponíveis 24 horas por dias 7 dias por semana).

Josephine, programadora de computação cujo chefe a apelidou de Finn há uma década, tem uma história interessante. "Realmente foi útil permitir que alguns colegas imaginassem que eu era homem", teria dito ela. As mensagens de e-mail que Finn recebia eram impressionantemente diferentes das recebidas por Josephine.

Não apenas continham "fofocas de vestiário brutais, difíceis de ouvir", mas também importantes informações compartilhadas por colegas que queriam manter os outros informados. Josephine não recebia nada disso, em clara demonstração da vantagem de ser homem em um mundo masculino.

Seu conselho? "Invente um Finn", disse Josephine. "Ele é tão necessário hoje quanto era em 1997. Na época, eu achava que Finn ia superar sua utilidade, que chegaria um dia em que Josephine estaria na roda. É triste, mas isso não aconteceu."

Esse retrato de uma cultura dominada por homens não surpreende Carol B. Muller, diretora executiva e fundadora de MentorNet, rede on-line para mulheres e minorias em engenharia e ciência.

As "ciências puras" são "tão piores que outros campos" por razões de várias facetas, enraizadas na percepção da sociedade que as mulheres simplesmente não são tão boas em matemática e ciências quanto os homens, disse ela.

Essa noção persiste apesar de dezenas de estudos que mostram que meninos e meninas têm as mesmas capacidades no ensino médio.

"A maior parte das pessoas não olha para uma mulher e vê uma engenheira", disse Muller.

O resultado é um ambiente de trabalho que menospreza as mulheres. Funcionárias enfrentam "o tipo de cultura que se desenvolve quando as mulheres estão em extrema minoria", disse ela. (Pense em "Lord of the Flies"). O funcionário ideal nesse âmbito é "o hacker que entra em seu cubículo e não sai por uma semana, não toma banho nem nada além de pizza. Esses sujeitos existem e são considerados heróis".

Ultimamente, porém, uma nova atenção tem sido voltada para esses cantos cheios de testosterona, um resultado do fato que, mesmo em uma economia debilitada, as indústrias de tecnologia e ciências precisam de funcionários.

O Escritório de Estatísticas Trabalhistas prevê que as oportunidades de emprego nesses campos crescerão cinco vezes mais rápido que em outras indústrias. A demanda por trabalhadores na área de tecnologia da informação, por exemplo, deve aumentar em 25% nos próximos 30 anos, enquanto o número de trabalhadores disponíveis deve encolher no mesmo período.

Não faria sentido financeiro, conclui o estudo, esses patrões encontrarem uma forma de deter o êxodo? E esse incentivo seria suficiente para transformar uma cultura que vem resistindo a pedidos de mudança?

Meia dúzia de companhias estão tentando. O relatório cita 14 programas piloto, muitos deles implementados pelos patrocinadores do relatório e desenhados para reter e promover mulheres.

Na Cisco, por exemplo, onde apenas 16% dos funcionários são mulheres, o Programa de Inserção de Talento Executivo tem como alvo acrescentar uma dúzia de mulheres a suas fileiras de gerência em um período de 18 meses terminando neste ano.

Isso criaria modelos e alteraria o cenário sexual. O programa da Johnson & Johnson, chamado "Cruzando a Linha de Chegada", treina mulheres para posições de liderança.

Reduzir o índice atual de atrito em 25% acrescentaria 220.000 trabalhadores nas profissões ECT, disse Hewlett.

E esse pode ser um número respeitado até pelo sujeito que não toma banho em seu cubículo. "As culturas mudam apenas porque são obrigadas", disse ela. "Talvez finalmente seja a hora." Deborah Weinberg

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