UOL Notícias Internacional
 

15/05/2008

Pequenos corpos em um necrotério: uma tristeza indescritível na China

The New York Times
Jim Yardley
Em Zhuyan, China
Os corpos estão por toda parte. Alguns se encontram no interior de sacos de vinil branco fechados com zíper e espalhados pelo chão. Outros foram cobertos com uma colcha favorita ou vestidos com roupas novas. Os corpos são tantos que os agentes funerários querem cremá-los em grupos. Todos são de crianças.

"Nada pode se comparar à nossa tristeza", diz Li Ping, 39, com os olhos avermelhados, enquanto ele e a mulher colocam vagarosamente e com cuidado um pijama rosa no corpo nu e cheio de hematomas de Ke, a filha de oito anos. "Nós nos casamos tarde, e tivemos um neném também tarde. Ela foi o nosso único bebê".

Até o momento o número de mortos pelo terremoto que atingiu a província de Sichuan na última segunda-feira é de 15 mil, e milhares de pessoas continuam desaparecidas ou presas sob os destroços. Mas a cena terrível neste necrotério local é um lembrete triste de que um número excessivo de mortos consiste de crianças, em um país no qual a maioria das famílias pode ter apenas um filho.

Shiho Fukada/The New York Times 
Parentes velam corpo de uma das vítimas do terremoto que atingiu a China

Essas crianças simbolizaram a aparente crueldade indiscriminada do terremoto. Mas a crueldade, aos olhos dos pais, foi também provocada pelo ser humano.

Várias escolas na vizinha Dujiangyan desmoronaram durante as aulas. Na terça-feira, o primeiro-ministro Wen Jiabao fez visitas carregadas de emoção a duas delas, incluindo a Escola Primária Xinjian, na qual, segundo as autoridades, morreram 20 crianças.

"Sou o vovô Wen Jiabao", disse o primeiro-ministro na sua visita, enquanto via duas crianças serem retiradas dos escombros. "Agüentem firme, crianças! Não há dúvida alguma de que vocês serão resgatadas".

Mas pais enfurecidos entrevistados no necrotério na tarde da quarta-feira (14/05) e na manhã da quinta-feira disseram que as autoridades locais mentiram para o primeiro-ministro a fim de ocultar o verdadeiro número de mortos em Xinjian, que segundo eles chega a mais de 400 crianças. Vários pais culparam as autoridades locais pela lentidão enorme para dar início à operação de resgate e questionaram a segurança estrutural do prédio onde funcionava a escola. Eles também estão furiosos com o fato de as autoridades os terem proibido durante dois dias de procurar os filhos e só permitirem o acesso aos corpos após a criação de um comitê de reclamação improvisado.

"Antes da chegada de Wen Jiabao, a escola inteira estava cheia de corpos de crianças", disse uma mãe que estava sentada em frente ao necrotério com o marido na escuridão da madrugada, ao lado do corpo da filha de oito anos de idade. "O pai dela e eu ficamos em frente à escolas desde o terremoto. Suplicamos ao governo: 'Se ela estiver morta, queremos ver o corpo. Se estiver viva, queremos vê-la".

O marido dela, um homem magro, inclinou-se para frente, na direção de duas velas. "Estamos falando a verdade", disse ele. "Divulgue a verdade".

O necrotério fica a uma hora de Dujiangyan, em uma estrada rural isolada, mas o pátio de estacionamento estava lotado à uma hora da madrugada da quinta-feira. Pais e parentes aglomeravam-se em volta dos corpos das crianças. Alguns queimavam dinheiro falso para dar boa sorte no além aos filhos mortos. Em um aposento, 25 corpos pequenos estavam espalhados pelo chão. Algumas crianças já haviam sido retiradas; um saco vazio para transporte de corpos estava jogado perto de um par de tênis e das calças enlameadas de um menino. Algumas famílias colocaram flores ou incenso em garrafas vazias, em uma espécie de ritual fúnebre improvisado.

"Lá dentro há mais crianças", disse um homem de camisa azul, apontando para a porta dos fundos. Ele caminhou para fora até uma calçada coberta e parou. Diversos corpos cobertos com lençóis encontravam-se alinhados em duas longas filas no piso de concreto. Outros jaziam no chão em uma sala adjacente. Os pais soluçavam ou ficavam sentados em silêncio ao lado dos cadáveres.

"Todos eram estudantes", disse o homem de camisa azul. "Veja", disse ele, apontando para uma jaqueta vermelha e branca dobrada ao lado de um corpo. "Este é o uniforme escolar". Ele apontou para uma mochila com o desenho do Mickey. "Ali está uma mochila com livros".

As duas fileiras de corpos terminavam em uma porta aberta que conduzia a grandes fornalhas de aço usadas para cremação. Na China, os mortos são quase sempre cremados, geralmente logo após a morte. Normalmente há tempo suficiente para os funerais e rituais, mas os pais disseram que as autoridades no necrotério estavam preocupadas porque tinham que cremar tantos corpos antes que eles começassem a se decompor. Assim, elas pediram a alguns pais que deixassem que os seus filhos fossem cremados com amigos mortos para ganhar tempo.

Os pais contam que só tiveram permissão para começar a identificar os filhos na quarta-feira. Os corpos permaneceram nas instalações muradas da Escola Primária Xinjian durante dois dias, até que as autoridades começassem a transportá-los para o necrotério na quarta-feira.

O terremoto atingiu a região na segunda-feira às 14h28, e muitos pais correram imediatamente para a escola. A Xinjian tinha cerca de 600 alunos, de sete a 12 anos de idade, mas quando os pais chegaram a maior parte do prédio tinha desabado. Eles começaram a remover freneticamente tijolos e pedaços de concreto com as mãos.

"Suplicamos aos administradores que nos ajudassem", contou Chen Li, uma mãe de 39 anos, que foi até o necrotério na tarde da quarta-feira para identificar o filho que cursava a sexta série. "Nós gritamos: 'onde estão os soldados?' Tragam eles para cá para nos ajudar!".

Os pais disseram que vizinhos e alunos de uma faculdade próxima chegaram às 16h para ajudar na escavação. Autoridades locais e administradores de escolas também vieram, mas saíram após inspecionarem o local. Passaram-se mais duas horas até que um grande grupo de policiais paramilitares chegasse e ordenasse que os pais saíssem dali porque a área era muito perigosa. Os pais foram para a frente do portão da escola, incapazes de ver o que se passava enquanto os policiais começavam a escavar.

Chen contou que o seu filho, Zhang Yuanxin, foi descoberto no mesmo dia em que ocorreu o terremoto, mas que ele foi deixado descoberto na chuva com outros corpos no playground da escola. Ela disse que dois caminhões grandes estacionaram no local no início da manhã da quarta-feira e levaram os corpos pouco antes de Wen chegar para a sua inspeção.

"Acho que havia 50 corpos nos dois caminhões", disse Chen. "Eu perguntei se eles estavam levando os corpos".

Mas ela afirmou que as autoridades mentiram, ao responderem que só estavam levando tendas.

Os pais disseram que ficaram tão furiosos com a situação na escola que na terça-feira criaram o comitê e reclamaram junto às autoridades locais. Autoridades de Dujiangyan não puderam ser encontradas para tecer comentários, mas os pais disseram que elas cederam na quarta-feira, levando os corpos das crianças para o necrotério e fornecendo ônibus às pessoas que aguardavam em frente à escola.

Na tarde da quarta-feira, dentro do necrotério, os pais perambulavam por salas cheias de corpos colocados no chão, erguendo lençóis na tentativa terrível de identificar um filho perdido. Cai Changrong, 37, levava uma urna contendo as cinzas da sua filha de nove anos. A sua mulher, Hu Xiu, não conseguia parar de chorar.

"Não encontramos nenhuma contusão ou ferimento no corpo dela", disse Hu. "Mas ela perdeu todas as unhas. Ela tentou sair dos destroços arranhando o concreto. Acho que a minha filha morreu sufocada".

Vários pais desejam que seja feita uma investigação sobre a qualidade da construção dos prédios escolares em Dujiangyan. Eles afirmam que seis escolas desmoronaram na cidade, enquanto os prédios do governo ficaram de pé. Um homem disse que as autoridades construíram mais dois andares na Escola Xinjian, apesar da estrutura não ter sido aprovada em uma inspeção de segurança feita dois anos atrás. Tais alegações não puderam ser confirmadas.

Li, o pai que vestia a filha morta, também disse acreditar que a escola foi mal construída. Ele chegou na escola alguns minutos depois do terremoto, e passou quase quatro horas procurando a filha. Os seus antebraços estavam contundidos e as unhas rachadas e sangrentas, de tanto escavar aquilo que segundo ele era um concreto mole.

Ele mostrou com orgulho o seu telefone celular com uma foto da filha, Ke, sorrindo. A foto foi tirada na semana passada. Mas no início da manhã da quinta-feira, ele e a mulher preparavam-se vagarosamente para a cremação. Eles esforçaram-se para colocar o pijama cor-de-rosa na filha, e depois a vestiram com calças e um casaco cinzas. A mãe colocou um pano de seda branco de luto sob os cabelos negros endurecidos da menina.

Li disse que perdeu o seu emprego em 1997, e que desde então leva uma vida apertada, sobrevivendo graças a uma pensão exígua do governo. Ele contou que a Escola Xinjian era cheia de crianças de famílias pobres. "A minha filha era uma aluna excelente", afirmou, alinhando a calça da menina morta. "Ela era uma garota quieta e gostava de pintar. Estamos colocando essa roupa nela porque a amávamos".

Ele disse que está com raiva e triste. O corpo da filha ainda estava quente quando ele a encontrou na quarta-feira no necrotério. Li fica pensando em quanto tempo ela permaneceu sob os escombros. Depois, ele se vira, inclina-se ligeiramente e sussurra ao ouvido da garota.

"Minha filhinha", disse ele baixinho. "Você se vestia sozinha. E agora eu tenho que fazer isso para você". UOL

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