UOL Notícias Internacional
 

16/05/2008

'Estagnação' fez ministra do Meio Ambiente do Brasil renunciar

The New York Times
De Alexei Barrionuevo

No Rio
Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente que renunciou nesta semana, culpou a "estagnação" no governo por sua decisão, em uma coletiva de imprensa na quinta-feira (15), onde reconheceu que os governadores dos Estados da Amazônia estavam pressionando o presidente a cancelar as medidas que visam conter o desmatamento.

"Há questionamentos de alguns governos sobre essas medidas e elas não podem ser flexibilizadas", disse Silva. "É fundamental que possamos preservar os avanços, é fundamental que não tenhamos retrocessos", disse.

Sua renúncia na terça-feira chocou a comunidade ambiental internacional, que via em Marina Silva, uma ex-seringueira, como um importante baluarte contra o desmatamento da Amazônia.

Ela também surpreendeu o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tomou posse em 2003 sendo saudado como o primeiro presidente "verde" do país.

Marina Silva disse que voltará ao Senado brasileiro, uma decisão que provavelmente complicará as coisas para o presidente Lula, que luta para reagir às conseqüências políticas em torno do recente aumento do desmatamento na Amazônia, o primeiro aumento em três anos. Em resposta, o governo restringiu o crédito às empresas envolvidas em desmatamento ilegal e iniciou uma operação policial para reprimir o corte ilegal de madeira.

Organizações não-governamentais ficaram claramente alarmadas com a renúncia. O Greenpeace Brasil a chamou de um "desastre", que claramente demonstrava uma "mudança de postura" no governo.

Mas apesar do momento, a saída de Marina Silva não foi totalmente inesperada. Ela estava cada vez mais isolada no governo e tinha perdido muitas batalhas políticas para Lula. Mais notadamente, ela era contrária à aprovação de novas hidrelétricas na Amazônia e criticou o programa de biocombustíveis do presidente. Ela também perdeu a batalha contra a produção de transgênicos.

Na sua saída, ela ressaltou a tensão entre as preocupações com o meio ambiente e o poderoso setor do agronegócio, que tem sido o principal motor do crescimento da economia do Brasil, que é puxada por commodities. Na quinta-feira, Marina Silva reconheceu para a imprensa que os governadores dos Estados do Mato Grosso e de Rondônia resistiam às direções de seu ministério.

NOVOS HOMENS DO 'GOVERNO VERDE'
Alan Marques 15.mai.2008/ Folha Imagem
O novo ministro Carlos Minc adverte: "uma política ambiental carente de estratégia econômica está fadada ao fracasso"
Alan Marques - 18.abr.2008/ Folha Imagem
Possível pivô da demissão de Marina Silva, Mangabeira Unger, o ministro de Assuntos Estratégicos, foi chamado por Lula para coordenar o plano para o desenvolvimento sustentável da Amazônia
A gota d'água para ela pode ter ocorrido na semana passada, quando Lula nomeou Roberto Mangabeira Unger, o ministro de Assuntos Estratégicos, para coordenar o plano para o desenvolvimento sustentável da Amazônia em vez da ministra, que foi criada na floresta tropical que busca preservar.

Marina Silva disse que o presidente nunca a consultou sobre a escolha de Unger, um ex-professor de Direito de Harvard que visitou a Amazônia pela primeira vez no ano passado em uma missão de "levantamento".

Alguns ambientalistas expressaram preocupação de que sem Marina Silva no ministério, o governo Lula colocaria a economia à frente da proteção da Amazônia. "Se Lula está cedendo ou considerando ceder à pressão do agronegócio para desistir do combate ao desmatamento, isto terá um alto custo para a reputação internacional do Brasil", disse Stephan Schwartzman, co-diretor do programa internacional do Fundo de Defesa Ambiental, em Washington.

O retrospecto que Marina Silva estabeleceu para o Brasil deu ao país credibilidade internacional e permitiu a Lula se tornar um novo participante nas negociações globais sobre a mudança climática. "Todas as iniciativas duronas de controle do desmatamento vieram do Ministério do Meio Ambiente e prosperaram sob a liderança dela", disse Schwartzman.

Elas incluíram a designação nos últimos cinco anos de mais de 20 milhões de hectares de terras na Amazônia como áreas protegidas. E em parte graças a uma suspensão da plantação de soja na Amazônia, o desmatamento caiu por dois anos consecutivos, apenas aumentando no final do ano passado, quando os preços globais para os grãos também subiram.

Os avanços e estratégias de defesa deram ao Brasil a credibilidade para propor que outros países e empresas doassem dinheiro para combater o desmatamento. A Noruega disse que doaria perto de US$ 2,8 bilhões ao longo de cinco anos como pagamento para os países em desenvolvimento que preservassem suas florestas.

Apesar de Lula apoiar publicamente os esforços de Marina Silva, ela tinha se tornado um espinho para ele. Ele ficou frustrado com o fato dos técnicos do Ibama, o órgão federal fiscalizador do meio ambiente liderado por Marina Silva, se recusarem a emitir licenças ambientais para grandes projetos de desenvolvimento, incluindo projetos de hidrelétricas muito necessários, disse David Fleischer, um analista político em Brasília.

No meio do ano passado, Lula dividiu o Ibama em dois órgãos, separando as funções de proteção ambiental da emissão dessas licenças. Os funcionários do Ibama entraram em greve, o forçando a chamar especialistas do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento para maiores estudos de projetos no Rio Madeira, em Rondônia, disse Fleischer.

Àquela altura muitos analistas disseram que Marina Silva deveria renunciar, mas ela permaneceu. Ela disse na quinta-feira que o presidente nunca quis passar por cima do licenciamento.

A tarefa delicada de traçar o futuro da Amazônia caberá ao seu sucessor, Carlos Minc, o secretário estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro. Minc, 57 anos, é um economista e professor de geografia que foi fundador do Partido Verde do Brasil e recebeu o Prêmio Global 500 da ONU, em 1989, por ter se destacado na luta pelo meio ambiente. Unger, que também terá um papel, prometeu em uma entrevista se afastar de posições "extremistas". "Uma política ambiental carente de uma estratégia econômica está fadada ao fracasso", ele disse. "Nós precisamos estabelecer um elo estreito entre preservação e crescimento." George El Khouri Andolfato

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