UOL Notícias Internacional
 

16/05/2008

Polícia do Zimbábue libera a sua fúria contra os anglicanos

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Johannesburgo, na África do Sul
Os membros da congregação estavam alinhados para a eucaristia, no domingo, quando a tropa de choque da polícia irrompeu na grandiosa igreja anglicana Saint Francis, em Harare, a capital do Zimbábue. Soldados de capacete e botas pretas bateram com os cassetetes nos bancos da igreja, enquanto os fiéis fugiam em pânico pelas portas.

Um policial manejou ferozmente o cassetete, golpeando matronas, uma mulher e uma avó que se inclinaram para pegar uma Bíblia que caiu no chão durante o tumulto. Uma dona de casa solitária começou a entoar um hino na língua shona: "Continuaremos adorando a Deus, não importa quais sejam as provações!" Centenas de mulheres, muitas usando o uniforme da União das Mães Anglicanas, que consiste de saia preta, camisa branca e toucado azul, ergueram as suas vozes para acompanhar o cântico da fiel solitária.

No entanto, por trás do desafio delas havia um medo enorme, neste momento em que o país é tomado por uma campanha brutal de intimidação, patrocinada pelo governo, antes do segundo turno da eleição presidencial. Em um conflito radical do tipo "nós contra eles", que se entranhou ainda mais profundamente no tecido social, o partido governista passou a visar uma quantidade cada vez maior de grupos que não se sujeitam ao seu controle direto - uma lista que agora inclui a diocese anglicana de Harare, organizações filantrópicas e cívicas, sindicatos comerciais, professores, monitores independentes das eleições e a oposição política.

Os líderes e fiéis anglicanos disseram em entrevistas que a igreja não está preocupada com a política, e que a congregação é composta tanto de membros do partido do governo quanto de oposicionistas. Mas o partido governista parece ter decidido que somente os seguidores de Nolbert Kunonga, um bispo renegado de Harare que é um aliado convicto do presidente autocrático do país, Robert Mugabe, têm permissão para realizar as cerimônias religiosas.

Nos três últimos domingos os policiais interrogaram sacerdotes e líderes laicos anglicanos, prenderam e espancaram membros da congregação e encarceraram milhares de fiéis pertencentes a dezenas de igrejas. "Como teólogo que leu bastante a respeito dos primeiros cristãos, sinto-me realmente vinculado àquela história", afirma o bispo Sebastian Bakare, 66, que desistiu da aposentadoria para substituir Kunonga. "Estamos sendo perseguidos".

Líderes da igreja afirmam que a luta na diocese anglicana de Harare não diz respeito apenas a propriedades grandes e valiosas, mas também a uma batalha pelo controle da própria igreja em uma sociedade repleta de divisões políticas, especialmente depois das disputadas eleições de 29 de março.

Kunonga, que rompeu com a hierarquia da igreja no final do ano passado e recentemente chamou Mugabe de "um profeta de Deus", é conhecido em Zimbábue por ser um apoiador ávido do partido governista e um defensor do confisco das terras dos fazendeiros brancos, muitas vezes por meio da violência. Na verdade, ele próprio parece ter se beneficiado bastante com esta política.

Embora tais lealdades intensas tenham desempenhado nitidamente um papel importante nos ataques contra os membros da congregação, os anglicanos de outros países também tomaram medidas que provavelmente enfureceram Mugabe e o partido governista, conhecido como ZANU-PF. A Comunhão Anglicana Mundial emitiu uma declaração em janeiro último manifestando "profunda preocupação" quanto aos vínculos entre Kunonga e Mugabe. Depois, em 21 de abril, enquanto recrudescia a campanha de intimidação contra os que simpatizam com a oposição, a igreja pediu a todos os cristãos que rezassem para resgatar o Zimbábue "da violência, da ocultação de resultados das eleições, das trapaças do processo eleitoral, da opressão e da corrupção".

E, há apenas três semanas, um bispo anglicano da África do Sul persuadiu um juiz do Supremo Tribunal da África do Sul a proibir o envio de milhões de munições de fabricação chinesa para as forças armadas do Zimbábue um material que, segundo o bispo, poderia ser usado para reprimir o povo zimbabuano.

Esta não foi a primeira vez que a igreja sentiu a fúria do partido do governo. No ano passado, a televisão estatal transmitiu fotos de um dos mais ferozes críticos de Mugabe, o arcebispo católico Pius Ncube, na cama com uma mulher casada, o que efetivamente neutralizou o líder da oposição clerical ao regime de Mugabe. Neste mês, o jornal estatal "The Herald" revelou que a mulher com a qual o arcebispo teve um caso, Rosemary Sibanda, morreu "sozinha e na miséria após ter sido abandonada por Ncube e pelos membros da sua congregação".

Os seguidores de Bakare, entre os quais estão muitos dos anglicanos da cidade, afirmam que Kunonga mentiu ao dizer ao governo que eles são aliados políticos da oposição - uma acusação que o partido governista parece estar levando a sério. Apesar da ordem da Suprema Corte exigindo que as igrejas anglicanas sejam deixadas em paz, as autoridades eclesiásticas afirmam que somente as pessoas que participam dos cultos liderados por sacerdotes aliados a Kunonga têm permissão para rezar com tranqüilidade.

Nesta semana a Suprema Corte negou o recurso de Kunonga contra a ordem judicial, mas os líderes da igreja afirmam que a lei está longe de ser respeitada.

Uma viúva, mãe de cinco filhos, que cantava com o coral evangélico na igreja Saint Francis em Waterfalls - e que está muito amedrontada para revelar o seu nome - indagou nesta semana, com desespero na voz, onde é que conseguiria consolo espiritual, agora que a igreja não é mais sacrossanta.

"Vou à igreja para conversar com o Senhor e me sentir melhor", disse a viúva. "Agora, não sei mais para onde ir".

Nem Kunonga nem o seu porta-voz, o reverendo Morris Brown Gwedegwe, responderam aos diversos telefonemas solicitando que tecessem um comentário.

Quando o superintendente Oliver Mandikapa, porta-voz da polícia, foi indagado a respeito dos ataques policiais contra os membros da congregação anglicana, ele declarou que não estava a par de tais acidentes, e perguntou os nomes das pessoas que reclamaram. Ao ser informado de que as vítimas estavam com muito medo para reclamarem na polícia dos espancamentos promovidos por policiais, ele retrucou: "Me forneça os nomes, porque sem eles não farei comentários. Obrigado e adeus". E desligou o telefone.

No centro desse conflito com Kunonga não está apenas a questão da terra e do poder, mas também parte dos valores fundamentais da igreja. Ele disse a autoridades anglicanas no ano passado que estava se afastando da hierarquia superior da igreja devido ao fato de esta simpatizar com os homossexuais. Em outubro, a Província Anglicana da África Central afirmou que Kunonga havia "rompido" a sua relação com a igreja, e que ele não era mais um bispo da província.

Bakare afirma que Kunonga prega o ódio contra gays e lésbicas, contrariando a posição da diocese de Harare em relação à homossexualidade. "Acreditamos que a igreja é inclusiva, uma igreja que aceita todas as pessoas, uma igreja que está aqui para proteger e amar as pessoas", diz Bakare.

Mas até mesmo o porta-voz de uma aliança de bispos conservadores, alguns da África, que se opõem "à ordenação sacerdotal de homossexuais praticantes", distanciou-se de Kunonga. Arne H. Fjeldstad, diretor de comunicação da Conferência Global Futura Anglicana, disse em um e-mail que Kunonga não faz parte da organização, e que ele "é um dos membros do grupo de Mugabe".

Kunonga parece ter lucrado bastante com essa lealdade. Em 2003, o governo deu a ele uma fazenda de 660 hectares a apenas 20 quilômetros de Harare, dotada de uma casa de férias de sete quartos, segundo Marcus Hale, que afirmou que a propriedade, comprada pela sua família em 1990 por US$ 2 milhões, foi confiscada sem indenização.

A influência de Kunonga também se fez sentir nas últimas semanas em uma igreja após outra. Membros da congregação anglicana dizem que foram expulsos ou impedido de entrar nas igrejas por policias que alegaram estar obedecendo ordens dos seus superiores no sentido de só permitir que os sacerdotes controlados por Kunonga conduzam as cerimônias religiosas.

Na igreja Saint Paul, no subúrbio de Highfield, em Harare, a congregação recusou-se a ceder e continuou entoando o hino "Gloria in Excelsis deo" quando uma dúzia de policiais invadiu o templo no domingo, 4 de maio. Mas o comandante pegou o rádio e pediu reforços, e logo chegaram dois caminhões e um ônibus com mais 50 integrantes da tropa de choque. Centenas de fiéis foram então arrastados para fora da igreja, em meio ao barulho ensurdecedor dos golpes de cassetetes desfechados nos bancos. A confusão começou depois que eles foram colocados na rua e o portão da igreja foi trancado. As pessoas passaram a usar os seus telefones celulares para fotografar os policiais que os expulsaram da igreja.

Foi então que a tropa investiu contra a multidão, distribuindo golpes de cassetete.

"Até eu fui atingida na mão", conta uma atônita costureira. "Eles nos disseram: 'Voltem para suas casas. Vocês não podem ficar aqui'". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host