UOL Notícias Internacional
 

17/05/2008

Crise dos alimentos encontra o caos no Chifre da África

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Dagaari, Somália
A crise global de alimentos chegou à cabana de Safia Ali.

Ela não mais consegue comprar arroz, trigo ou leite em pó. Uma seca dizimou o rebanho de cabras de sua família, transformando o único meio de vida da família em uma pilha de ossos secos e pele que lembra papel.

Safia, 25 anos e mãe de cinco, não come há uma semana. Seu filho de um ano -um menino adorável mas apático que não responde nem a um beliscão- também está passando fome.

A Somália -e grande parte do volátil Chifre da África- era o último lugar na Terra que precisava de uma crise de alimentos. Mesmo antes dos preços dos commodities começarem a subir por todo o mundo, guerra civil, deslocamento e operações de ajuda ameaçadas já deixavam muitas pessoas daqui à beira da fome.

Jehad Nga/The New York Times 
Somalis passam ao lado de ossos de gado em Daagari

Mas com o preço dos alimentos subindo fora de alcance e os rebanhos caindo mortos na areia, aldeões por toda esta paisagem castigada pelo sol dizem que centenas de pessoas estão morrendo de fome e sede.

Isto é o que acontece, dizem os economistas, quando a crise global de alimentos se encontra com o caos local. Há uma colisão de problemas por toda a região: falta de chuvas, colheitas desastrosas, alta dos preços dos alimentos, morte dos rebanhos, escalada da violência, inflação desenfreada e redução da ajuda alimentar.

Do outro lado da fronteira na Etiópia, na região de Ogaden assolada pela guerra, a situação soa igualmente sombria. Em Darfur, Sudão, a ONU foi obrigada a suspender as rações de alimentos por causa do aumento do banditismo, que ameaça as entregas de ajuda.

O Quênia também parece vulnerável. Uma recente manchete em um dos principais jornais do Quênia declarou: "25 mil aldeões correm risco de fome", se referindo à combinação de seca, preços mais altos de fertilizantes e combustível e violência pós-eleitoral, que deslocou milhares de agricultores.

"Este lugares não estão à beira do precipício", disse Jeffrey D. Sachs, um economista da Universidade de Colúmbia e consultor da ONU, que recentemente visitou o vizinho Quênia. "Eles já caíram no penhasco."

Muitos somalis estão tentando protelar a fome com um mingau ralo feito de galhos amassados de um espinheiro chamado jerrin. Alguns anciãos disseram que seus filhos estavam mascando seus próprios lábios e línguas por não terem comida. O clima tem sido impiedoso com dias intensamente quentes.

Saida Mohamed Afrah, outra mãe emagrecida, deixou recentemente seus dois filhos sob uma árvore e saiu à procura de alimento e água. Quando ela voltou duas horas depois, as crianças estavam mortas.

Ela tinha pouco a dizer sobre a seca. "Eu só queria que meus filhos tivessem morrido no meu colo", ela disse.

A ONU declarou uma grande área central da Somália como de emergência humanitária, o estágio final antes de uma de fome. Mas Christian Balslev-Olesen, o chefe das operações do Unicef na Somália, disse que a situação provavelmente se tornará de fome nas próximas semanas.

A fome é definida por vários critérios, incluindo desnutrição, mortalidade, escassez de água e alimento e a destruição do meio de vida. Alguns destes fatores, como a taxa aguda de desnutrição de 24% em algumas áreas da Somália, já ultrapassaram os limiares de emergência anteriores e estão próximas da faixa da fome.

Balslev-Olesen disse que a Unicef recebeu recentemente relatos de pessoas morrendo de fome e sede. É difícil saber exatamente quantas, ele disse, apesar dos anciãos locais terem colocado o número em centenas.

"Nós temos todos os indicadores posicionados para uma catástrofe", disse Balslev-Olesen. "Nós não podemos ainda declarar isso. Mas estou muito preocupado que seja apenas questão de semanas até podermos."

Muitas pessoas já consideram a Somália uma catástrofe. Ela possui uma das taxas mais altas de desnutrição do mundo -em um bom ano. O colapso do governo central em 1991 lançou a Somália em disputa sangrenta de clãs da qual ainda não saiu. A era começou com uma fome que matou centenas de milhares de pessoas.

O consenso agora é de que todos os mesmos elementos do início dos anos 90 -conflito em alta intensidade, amplo deslocamento e seca- estão se alinhando de novo, e em um momento da maior alta global nos preços dos alimentos em mais de 30 anos.

A ONU diz que 2,6 milhões de somalis precisam de assistência e que o número poderá inchar em breve para 3,5 milhões, quase metade da população estimada. Se houver uma chuva excelente ou uma paz repentina, a crise poderá abrandar. Mas as projeções meteorológicas e até mesmo as previsões políticas mais otimistas não prevêem isso.

O mergulho ou não dos somalis na fome poderá depender da ajuda, mas no momento ela não parece muito boa.

Onze trabalhadores humanitários foram mortos neste ano, e as autoridades da ONU disseram que a Somália está mais complicada e perigosa do que nunca.

Além das disputas entre clãs e senhores da guerra, há um conflito em formação com os trabalhadores humanitários ocidentais. O governo Bush disse que terroristas da Al Qaeda estão escondidos na Somália, protegidos pelos radicais islâmicos locais, e os tem caçado com ataques aéreos. Mas um recente ataque americano contra um líder islâmico em Dhusamareb, uma cidade no centro da zona da seca, provocou ameaças de vingança contra os trabalhadores humanitários ocidentais. A ONU e organizações de ajuda humanitária privadas disseram que agora está perigoso demais para expandir seu trabalho em Dhusamareb.

"Nós estamos em um ambiente diferente agora", disse Chris Smoot, o diretor de projetos de ajuda da World Vision na Somália. Ele disse que há elementos inamistosos anti-Ocidente "que podem matar você de muitas formas e a qualquer momento".

A ajuda também enfrenta sérios problemas na disputada região de Ogaden da Etiópia, do outro lado da fronteira. Um recente relatório escrito por um funcionário de ajuda humanitária americano disse que a seca está "claramente piorando" e que a resposta do governo etíope, um dos principais aliados dos americanos na África, tem sido "absolutamente abissal".

Isto pode não ser por acaso. O governo etíope está lutando com uma insurreição em Ogaden, e o relatório disse que "os alimentos estão claramente sendo usados como arma", com o governo deixando as áreas rebeldes passarem fome, enquanto um misterioso depósito de alimentos doados pelos americanos foi descoberto em frente a uma base do exército etíope.

O governo americano "não pode em boa consciência permitir que a operação de alimentos continue da forma atual", disse o relatório. "Esta situação seria absolutamente vergonhosa em qualquer outro país."

O relatório não se tornou público, mas uma cópia foi fornecida ao "New York Times". Quando perguntado a respeito, um alto funcionário americano de ajuda humanitária o caracterizou como "apenas um retrato e as observações e impressões de uma pessoa".

Mas o alto funcionário, que falou sob a condição de anonimato, também disse: "Nós não estamos dizendo que não há uma crise em Ogaden. Nós não estamos dizendo que a resposta etíope é satisfatória. Mas algum progresso foi obtido. E precisamos de mais".

As autoridades etíopes se recusaram a comentar e há muito negam violações de direitos humanos em Ogaden.

Por toda a região, uma das mais pobres entre as mais pobres, as pessoas ficam à mercê do deserto. Na região central da Somália, por exemplo, menos de 127 milímetros de chuva caíram no último ano e meio, disseram autoridades de ajuda. Os ventos são duros, as gargantas são secas. Esta área, como grande parte do Chifre da África, é árida demais para a agricultura. As pessoas daqui, em postos avançados solitários como Dagaari, sobrevivem pastando cabras, ovelhas, gado e camelos, vendendo os animais pelo dinheiro que usam para comprar comida.

"Mas ninguém quer uma cabra esquelética", explicou Abdul Kadir Nur, um pastor em Dagaari. Isto é tudo o que lhe restou após a seca ter matado 400 de seus 450 animais.

Não longe de uma pilha de ossos de cabra se encontra um círculo de pedras. É a sepultura de seu filho bebê. Abdul Kadir disse que o menino morreu de fome e que foi disposto em sua sepultura em um ângulo "para que pudesse dormir".

Ele caminhou mais alguns passos, suas sandálias cavando na terra seca. Ele chegou na cabana de Safia, onde várias pessoas espiavam na porta, observando ela suar no chão de terra. O hospital mais próximo fica a apenas meia hora de distância, mas ninguém tinha dinheiro para pagar pela viagem. "Ela provavelmente morrerá", disse um ancião e então se afastou.

O filho de Safia parecia sentir isso. Ele se aconchegou ao lado de sua mãe enquanto ainda podia, seu rosto pressionado contra o pano úmido que a cobria. Suas costelas se moviam para cima e para baixo, para cima e para baixo, em rápidas respirações superficiais. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host