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17/05/2008

Falta de estudantes de engenharia faz Japão recorrer a estrangeiros

The New York Times
Martin Fackler
Em Tóquio
O Japão está ficando sem engenheiros. Após passar anos preocupado com uma futura carência de engenheiros, o país está de fato se deparando com a realidade de que um número decrescente de jovens ingressa nas áreas de engenharia e tecnologia. As universidades chamam o fenômeno de "rikei banare", ou "fuga da ciência". O declínio está se tornando tão drástico que as indústrias passaram a fazer campanhas de publicidade cujo objetivo é transmitir a impressão de que a engenharia é "sexy e legal", e as companhias estão começando lentamente a importar trabalhadores estrangeiros, ou a enviar empregos para onde os engenheiros estão, no Vietnã e na Índia.

Foi o talento na engenharia que fez com que esta nação superasse a derrota do pós-guerra e se tornasse uma superpotência. Mas, segundo educadores, executivos e os próprios jovens japoneses, a juventude daqui está se comportando mais como os norte-americanos: escolhendo áreas que pagam melhor, como a de medicina e finanças, ou carreiras puramente criativas, como as artes, em vez de seguir o exemplo dos seus pais, que eram assalariados no mundo sem brilho das indústrias.

O problema não pegou o Japão de surpresa. Os primeiros sinais de declínio de interesse entre os jovens pela ciência e a engenharia surgiram quase duas décadas atrás, depois que o Japão atingiu padrões de vida de primeiro mundo, e nos últimos anos houve um forte declínio do número de estudantes de ciências e engenharia. Mas só agora as companhias japonesas estão começando a sentir o impacto real disto.

Ayumi Nakanishi/The New York Times 
Alunos de engenharia da Universidade Utsunomiya estudam o sistema óptico

Segundo uma estimativa do Ministério dos Assuntos Internos, a indústria de tecnologia digital daqui já enfrenta a falta de quase meio milhão de engenheiros.

Caçadores de profissionais passaram a tentar seduzir engenheiros que estão na metade da carreira com bônus polpudos, uma prática predatória anteriormente desconhecida na versão mais gentil de capitalismo praticada no Japão.

Os problemas tendem a piorar porque o Japão tem uma das menores taxas de natalidade do mundo. "O Japão está sentado sobre uma bomba-relógio demográfica", alerta Kazuhiro Asakawa, um professor de negócios da Universidade Keio. "Haverá uma explosão. Todos vêem que ela está se aproximando, mas ninguém toma medidas suficientes para evitar isso".

A falta de engenheiros está provocando ansiedade crescente quanto à competitividade do Japão. A China forma cerca de 400 mil engenheiros por ano, esperando um dia usurpar o lugar do Japão de maior potência econômica asiática.

Temendo um esvaziamento de suas orgulhosas indústrias de tecnologia, o Japão está lutando para estimular mais os seus jovens cidadãos a retornarem às ciências e à engenharia. Mas os especialistas no mercado de trabalho afirmam que estas medidas tardias são limitadas e dificilmente resolverão o problema.

Enquanto isso, o país começou lentamente a aceitar mais engenheiros estrangeiros, mas a quantidade está longe de atender às necessidades das indústrias.

Embora uma xenofobia entranhada seja um dos fatores responsáveis por isso, as companhias dizem que a língua e a cultura corporativa fechada do Japão também criam barreiras tão grandes que muitos engenheiros estrangeiros simplesmente recusam-se a vir para cá, mesmo quando são especificamente recrutados.

Como resultado, algumas companhias estão deslocando a busca de empregos para a Índia e o Vietnã, já que segundo elas isto é mais fácil do que trazer trabalhadores não japoneses para cá.

O maior problema do Japão pode ser o comportamento gerado pela afluência do país. Alguns jovens japoneses, produtos de uma sociedade rica, e que não estão familiarizados com as dificuldades do pós-guerra que os seus pais e avós conheceram, não enxergam nenhum valor em se escravizarem a planos e números quando podem ganhar dinheiro, ter mais contatos com outras pessoas ou se divertir mais.

Desde 1999, o número de estudantes de curso superior formados em ciências e engenharia caiu 10%, para 503.026, de acordo com o Ministério da Educação (apenas 1,1% desses estudantes eram estrangeiros). A quantidade de estudantes que se formam em artes criativas e na área de saúde aumentou neste período.

As inscrições para o programa de engenharia da Universidade Utsunomiya, que fica uma hora ao norte de Tóquio, diminuíram em um terço desde 1999.

Desde o ano passado a universidade vem tentando atrair estudantes com a inclusão de aulas práticas no seu currículo altamente teórico. Uma dessas novidades é uma disciplina que ensina os alunos a fabricar lentes de câmeras, oferecida em parceria com a Canon, e que atraiu 70 alunos, o dobro do esperado, afirma Toyohiko Yatagai, diretor do centro de pesquisas óticas da universidade.

Mas os alunos de engenharia vêem a si próprios como uma espécie em extinção.

Masafumi Hikita, 24, aluno do último ano de engenharia elétrica, diz que a maioria dos seus ex-colegas do segundo grau escolheu a área de economia com o objetivo de obter "dinheiro mais fácil" nos setores bancário e financeiro. De fato, amigos e vizinhos ficaram surpresos com o fato de ele ter escolhido uma área como a engenharia, que tem a reputação de exigir longas horas de estudo.

Hikita e outros estudantes de engenharia dizem que a redução de alunos na sua área traz um benefício: eles tornaram-se um produto cobiçado pelos recrutadores das corporações. Uma pesquisa feita no ano passado pelo Ministério do Trabalho revelou que havia 4,5 vagas no mercado de trabalho para cada formando especializado em áreas como máquinas eletrônicas.

"Não precisamos encontrar empregos", afirma Kenta Yaegashi, um outro aluno do último ano de engenharia elétrica. "Eles nos encontram".

Ele diz que o seu pai, também engenheiro, tem inveja do atual mercado, que é muito diferente do campo saturado que ele enfrentou há 30 anos.
Até mesmo as principais empresas, que costumavam ser procuradas pelas universidades de elite, agora precisam cortejar o talento. Isso significa que as companhias precisam adaptar as suas campanhas de recrutamento devido à mudança das atitudes sociais.

Assim, a Nissan diz aos estudantes que nela eles podem subir na carreira mais rapidamente do que nas companhias japonesas mais tradicionais. A fabricante de automóveis enfatiza que oferece promoções mais rápidas, maiores aumentos salariais e até mesmo "técnicos de carreira" para ajudar os jovens talentos a ascenderem na estrutura corporativa.

"Os estudantes de hoje são mais exigentes e individualistas, como os ocidentais", diz Hitoshi Kawaguchi, vice-presidente de recursos humanos da Nissan.

Recorrendo a práticas mais informais, uma campanha de publicidade da indústria siderúrgica mostra um guitarrista cabeludo de calças de spandex gritando, "Metal rocks!".

Uma fonte que o Japão ainda não explorou integralmente são os trabalhadores estrangeiros - ao contrário do Vale do Silício, que está repleto de especialistas em tecnologia da informação de nações em desenvolvimento como Índia e China.

Segundo estatísticas governamentais, em 2006 o Japão contava com 157.719 estrangeiros trabalhando em profissões altamente qualificadas, o dobro da quantidade de uma década atrás, mas ainda muito longe dos 7,8 milhões de profissionais de alta qualificação que trabalham nos Estados Unidos. O Reino Unido também tem recrutado agressivamente engenheiros estrangeiros, assim como Cingapura e a Coréia do Sul.

"O Japão está perdendo no mercado global no que se refere à quantidade de engenheiros talentosos na área de tecnologia de informação", afirma Anthony D'Costa, professor da Escola de Negócios de Copenhague, que estudou a migração de engenheiros indianos.

As companhias estão se empenhando para modificar as suas táticas.

Por exemplo, Kizou Tagomori, diretor de recrutamento da Fujitsu, diz que a fabricante de computadores e as suas afiliadas ficam rotineiramente 10% aquém das suas metas anuais de contratação de 2.000 novos funcionários. Temendo uma carência crônica de trabalhadores, a companhia começou a recrutar estrangeiros para trabalhar no Japão.

Desde 2003, a Fujitsu passou a contratar cerca de 30 estrangeiros por ano. A maioria consiste de outros asiáticos formados em universidades japonesas. Inicialmente, vários gerentes relutaram em aceitar os estrangeiros. Mas Tagomori diz que eles estão ganhando aceitação.

Segundo Tagomori, os dez funcionários indianos da Fujitsu no Japão conquistaram alguns dos seus colegas de trabalho ao organizarem um time de cricket.

Mas a Fujitsu ainda é uma exceção. De acordo com uma pesquisa feita no ano passado pelo Ministério da Economia, 79% das companhias japonesas afirmam que ou não pretendem contratar engenheiros estrangeiros ou estão indecisas quanto a isso. O ministério disse que a maioria dos gerentes japoneses ainda teme que os estrangeiros não consigam adaptar-se à língua e à cultura corporativa japonesas.

Para combater essas atitudes, o ministério lançou o Fundo Asiático de Talentos, uma iniciativa de US$ 30 milhões para oferecer aos estudantes asiáticos treinamento em língua japonesa e estágios a fim de ajudá-los a encontrar trabalho aqui.

"Caso esses estudantes saiam-se bem, eles poderão modificar drasticamente a atitude japonesa", afirma Go Takizawa, vice-diretor da divisão de políticas de recursos humanos do ministério.

Porém, os especialistas no mercado de trabalho advertem que o Japão pode estar fazendo muito pouco e muito tarde. Eles dizem que o país já ganhou uma reputação negativa de discriminar funcionários estrangeiros, por causa das poucas garantias empregatícias e critérios tendenciosos para a ascensão funcional. Os especialistas afirmam que os indianos e outros engenheiros optam com freqüência por mercados mais abertos como os Estados Unidos.

Uma quantidade cada vez maior de companhias japonesas está tendo mais sucesso com a construção de novos centros de pesquisa e desenvolvimento em países que têm excesso de engenheiros. A Toyo Engineering, que projeta fábricas de produtos químicos, diz que ela e a suas associadas atualmente empregam mais engenheiros no exterior - 3.000, a maioria na Índia, na Tailândia e na Malásia - do que no Japão, onde a empresa conta com 2.500 trabalhadores.

Com o Japão corporativo ainda relutando em aceitar estrangeiros, meia-dúzia de companhias passaram a contratar engenheiros chineses e sul-coreanos para trabalharem temporariamente em companhias japonesas.
Uma das maiores é a Altech, que criou centros de treinamento em duas universidades chinesas para recrutar estudantes de engenharia e treiná-los no idioma e nos costumes empresariais japoneses. Dos cerca de 2.400 engenheiros da Altech, 138 são chineses, e a companhia pretende contratar mais cerca de 200 por ano.

Uma das primeiras contratadas foi He Xifen, uma engenheira mecânica de
27 anos da Universidade de Ciência e Tecnologia Qingdao, que ingressou na Altec há dois anos e meio. Ela diz que as amigas na China a invejam porque ela trabalha com tecnologia japonesa avançada, e ganha três ou quatro vezes mais do que ganharia no seu país. Xifen conta que, embora os clientes japoneses no princípio tivessem demonstrado incerteza sobre como lidar com os estrangeiros, eles logo se adaptaram e ela geralmente sente que é bem-vinda.

"Os engenheiros estrangeiros estão passando a ser aceitos", diz Shigetaka Wako, porta-voz da Altech. "Lentamente, o Japão está percebendo que a sua economia não poderá continuar sem esses engenheiros". UOL

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