UOL Notícias Internacional
 

20/05/2008

Friedman: Obama e os judeus

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Psiu. Você ouviu? Eu ouvi. Ouvi falar que Barack Obama disse que precisa haver "um fim" para a "ocupação" israelense na Cisjordânia, "que começou em 1967". Puxa!

Psiu. Você ouviu? Eu ouvi. Ouvi falar que Barack Obama disse que Israel não apenas deve ser seguro, mas que qualquer acordo de paz "deve estabelecer a Palestina como pátria do povo palestino". Puxa!

Psiu. Você ouviu? Eu ouvi. Ouvi falar que Barack Obama disse que "o estabelecimento do Estado da Palestina está muito atrasado. A população palestina o merece". Puxa!

Esses são o tipo de rumores que se podem ouvir circulando entre os judeus americanos hoje em dia, sobre se Barack Obama abriga secretas inclinações pró-palestinas. Eu confesso: todas as frases acima são verdadeiras. Eu não as inventei.

Há apenas uma coisa: nenhuma delas foi pronunciada por Barack Obama. São todas citações diretas do presidente George W. Bush nos últimos dois anos. Bush, há muito considerado um verdadeiro amigo de Israel, disse todas essas coisas.

O que isso significa? Para mim, várias coisas. A primeira é que os EUA hoje têm -acertadamente- uma abordagem bipartidária da paz árabe-israelense que não vai mudar, seja quem for nosso próximo presidente. Seja sob um governo republicano ou democrata, os EUA hoje estão comprometidos com uma solução de dois Estados, em que os palestinos recuperariam a Cisjordânia, Gaza e as partes árabes de Jerusalém oriental, e Israel devolveria a maioria dos assentamentos na Cisjordânia, compensando os que não evacuar com terra de Israel.

A idéia de que um presidente Barack Obama teria o desejo ou a capacidade de se afastar dessa posição consensual americana é ridícula. Mas, diante da fervilhante polêmica sobre se Obama é "bom para Israel", vale a pena explorar esta pergunta: o que realmente faz um presidente pró-Israel?

Pessoalmente, como judeu americano, eu não voto para presidente com base em quem dará maior apoio a Israel. Eu voto naquele que tornará os EUA mais forte. Não é apenas porque este é o meu país, em primeiro lugar e sempre, mas porque a maior fonte isolada de apoio e proteção a Israel são os EUA, financeira e militarmente fortes e globalmente respeitados. Nada colocaria Israel em maior perigo do que os EUA enfraquecidos e isolados.

Eu não duvido nem por um segundo do apoio de Bush a Israel, e acho que ele vem de suas vísceras. Ele vê Israel como um país que compartilha os valores democráticos e de livre mercado, fundamentais para os EUA. Isto não é desimportante.

Mas o que importa muito mais é que hoje, com Bush, os EUA não são temidos nem respeitados nem apreciados no Oriente Médio, e que sua falta de uma política energética em sete anos deixou os inimigos de Israel e os inimigos dos EUA -os petroditadores e os terroristas que eles apóiam- mais fortes que nunca. A ascensão do Irã como ameaça a Israel hoje está diretamente relacionada ao fracasso de Bush no Iraque e em desenvolver alternativas ao petróleo.

Isso significa que Obama seria automaticamente melhor? Não sei. Para mim, os presidentes americanos têm sucesso ou fracassam em relação à diplomacia árabe-israelense dependendo de dois critérios que têm pouco a ver com o que passa em seus corações.

O primeiro, e mais importante, é a situação em campo e a disposição das próprias partes a assumir a liderança, não importa o que os EUA estejam fazendo. A heróica abertura de Anuar Sadat para Israel, e a reação de Menachem Begin, possibilitou o tratado de paz de Camp David, engendrado por Jimmy Carter. O doloroso impasse após a guerra de 1973 entre Israel e o Egito e a Síria tornou possível os acordos de Henry Kissinger. O colapso da URSS e a derrota do Iraque pelos EUA na primeira Guerra do Golfo possibilitaram o sucesso de James Baker em montar o processo de paz de Madri.

O que esses três estadistas americanos tinham em comum, porém -e este é o segundo critério-, foi que quando a história lhes deu uma abertura eles a aproveitaram sendo duros, inteligentes e justos com os dois lados.

Eu não quero um presidente que apenas se incline para Israel e não enfrente os árabes também, ou que, como diz o ex-negociador do Oriente Médio Aaron D. Miller, "ame Israel até a morte" -não impondo limites quando Israel faz coisas desconsideradas que também não são do interesse dos EUA, como construir assentamentos por toda a Cisjordânia.

É um negócio delicado. Mas se Israel for sua prioridade eleitoral pelo menos faça as perguntas certas sobre Obama. Rejeite a campanha de fofocas sobre o que passa pelo coração dele em relação a Israel (o que estava no coração de Richard Nixon?) e se concentre primeiro em que tipo de EUA você acha que ele construiria e, depois, se você acredita que como presidente ele teria a inteligência, a força e a habilidade para aproveitar uma oportunidade histórica, caso ela surja. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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