UOL Notícias Internacional
 

20/05/2008

Hospital psiquiátrico de Bagdá reúne os traumas de uma violência sem fim

The New York Times
Erica Goode

Em Bagdá
Em uma época diferente, em outro país, onde a violência e terror não espreitavam nas ruas, o dr. Amir Hussain podia praticar psiquiatria da forma como esperava.

Ele pode ver em sua mente: as alas limpas e bem decoradas do hospital, as farmácias bem estocadas, o equipamento reluzente do laboratório, as salas de consulta com tapetes espessos, os centros de reabilitação e as equipes que ajudam os pacientes com problemas crônicos a retomarem suas vidas fora do hospital.

Ele já viu estas coisas pessoalmente. Em 2005, quando deixou o Iraque para passar cinco meses na Inglaterra, aprendendo atendimento especializado para idosos e observando psiquiatras no trabalho.

João Silva/The New York Times 
Pacientes aguardam serem atendidos por médico do hospital psiquiátrico Ibn Rushid

Mas Hussain, que entrou em sua profissão em um momento em que os médicos iraquianos estavam entre os mais sofisticados e mais capacitados no Oriente Médio, está preso em uma dobra de tempo em uma terra devastada pela guerra. Conhecimento e sofisticação já foram sobrepujados pela deterioração de Terceiro Mundo e equipamentos antigos lançaram alguns tratamentos no barbarismo de [o filme] "Um Estranho no Ninho", apesar das melhores intenções.

Hussain cuida de pacientes cujos males freqüentemente são disparados ou agravados pela desordem à sua volta. Eles lotam seu minúsculo consultório no hospital psiquiátrico Ibn Rushid, no centro de Bagdá, acompanhados por suas mães ou tias, esposas e irmãos.

A ladainha de morte e miséria que recitam não mais os choca.

"Nós estamos acostumados a ouvi-la, de forma que acho que nossas emoções estão congeladas", ele disse.

Além disso, suas próprias experiências não são diferentes. Como muitos outros iraquianos, ele sofre de alguns sintomas de estresse traumático: insônia, ansiedade, uma tendência a se sobressaltar com barulhos altos.

"Os congestionamentos, isto é um estresse, então de repente algo explode", ele disse.

Ele tende, quando pode, a ouvir música relaxante. As viagens para o interior que antes apreciava não são mais uma opção. As estradas são perigosas demais.

Todavia, Hussain faz o melhor para ajudar seus pacientes. Alguns ele trata com o número limitado de drogas psiquiátricas disponíveis. Para outros, pacientes que são suicidas ou estão catatônicos ou não respondem aos medicamentos, ele prescreve terapia eletroconvulsiva, ministrada por uma máquina com 25 anos que, ele disse, tem "problemas técnicos".

Os pacientes às vezes recebem Valium antes dos tratamentos. Mas como não há anestesista na equipe, os choques dolorosos são ministrados sem anestesia, como eram décadas atrás nos Estados Unidos, antes do advento das máquinas mais novas que usam níveis mais baixos de eletricidade.

Hussain está bastante ciente de que o que tem a oferecer está longe de ser o ideal -que a forma como o hospital realiza terapia de choque elétrico é "inumana e perigosa", que os pacientes não recebem a variedade de programas especiais e terapias rotineiramente disponíveis em outros países.

"Eu me sinto frustrado", disse Hussain. "Eu me sinto triste. Eu vejo as coisas corretas mas não posso fazê-las porque há barreiras e limitações. Nós não temos equipamento, não temos os medicamentos."

Apesar disso, ele disse, os pacientes freqüentemente melhoram.

Apenas quatro de 11 psiquiatras permanecem em Ibn Rushid; os demais se mudaram para o norte, para o Curdistão, onde o risco de seqüestro ou assassinato é menor, ou fugiram do país. O hospital psiquiátrico, um dos dois no Iraque, fornece tratamento de curto prazo e já foi considerado uma jóia do sistema médico do país, renomado por seu atendimento moderno. Pacientes de lugares distantes como Síria e Jordânia vinham à procura de tratamento, e os 75 leitos do hospital estavam sempre cheios. Especialistas de países ocidentais faziam visitas para ensinar as formas de tratamento mais recentes.

Mas a sorte de Ibn Rushid desapareceu juntamente com a da cidade arruinada ao seu redor, um declínio que teve início sob Saddam Hussein e que tem se tornado mais acentuado a cada ano desde 2003. A pintura nas paredes está descascando. Cortinas puídas estão cobrindo as janelas nos corredores.

Pela manhã, o dr. Hussain visita pacientes no ambulatório do hospital: uma mulher que se tornou psicótica logo após a entrada dos americanos em Bagdá, em 2003, convencida de que seria atingida por uma bala disparada do aparelho de TV; um rapaz de 18 anos que assistiu a um vídeo pelo celular de um amigo sendo torturado e morto e que posteriormente se tornou tão violento que a família o amarrou com uma corda.

O psiquiatra escutou e levantou seus óculos para ler a ficha médica, à procura de mais informações. Seu celular -equipado com uma foto de Oprah Winfrey- tocava constantemente. Membros da equipe atravessavam o emaranhado de pacientes, lhe pedindo para assinar formulários e autorizar tratamentos. Ele avaliava cada caso em poucos minutos, escrevia uma receita ou pedia um exame e seguia em frente.

Khalida Ibrahim, uma assistente social no hospital, disse que tratar os pacientes com ferimentos físicos pode ser difícil, mas tentar ajudar pacientes deprimidos que perderam filhos, maridos, às vezes famílias inteiras, é emocionalmente exaustivo.

"Às vezes nós conversamos com eles e tentamos confortá-los, mas em nossos corações nós sentimos dor, porque também enfrentamos os mesmos problemas", ela disse. "Nós também perdemos pessoas, mas temos que fingir ser outra pessoa, esconder nossos verdadeiros sentimentos e nosso verdadeiro sofrimento."

Dado o que os pacientes enfrentam em seu cotidiano -carros-bomba, assassinatos, lutas entre milicianos e forças iraquianas e americanas- recaídas são freqüentes. Não há tempo para as pessoas se recuperarem, disse Hussain, e assim que conseguem, "há um novo estresse, um pesar atrás do outro, perdas após perdas, violência após violência".

Em uma manhã recente, uma menina de 15 anos trouxe sua mãe, que ela disse estar "viciada em uísque", para a ala feminina do hospital, uma área de salas com poucos móveis no segundo andar. Mãe e filha se sentaram em cadeiras de plástico na pequena sala da enfermeira.

"Eu estou aqui à procura de tratamento porque quero morrer o tempo todo", disse a mãe. "Eu quero cometer suicídio."

Al-Dolaimi disse que ela tem um longo histórico de problemas psiquiátricos e que seu quadro tinha melhorado, mas "devido à violência e desdobramentos políticos, eu tive um colapso".

O marido dela partiu certo dia para visitar a irmã em outra cidade e nunca voltou. Ela ouviu dizerem que ele foi morto, mas não conseguiu ir ao necrotério para identificar o corpo.

"Eu tenho pressão alta e a idéia de ir me apavorou", ela disse.

Dez dias depois, três homens armados foram até a casa dela em Bagdá, exigindo dinheiro e perguntando se ela era xiita ou sunita.

"Eu disse: 'O que fiz para vocês? Eu sou como a mãe de vocês'", disse Al-Dolaimi.

Agora, ela acrescentou, "tudo me deixa triste. Minhas casas se foram. Meu marido se foi. Tudo o que era doce na vida se foi".

Qualquer paciente internado no hospital deve ser acompanhado por um parente, que permanece por perto o tempo todo e ajuda a acalmar o paciente.

Males psiquiátricos têm um alto estigma no Iraque, disse Ibrahim, a assistente social, e muitos pacientes que procuram Ibn Rushid apanham de maridos ou pais que acham que eles estão simplesmente se comportando mal. No passado, disse Hussain, psiquiatras costumavam visitar os pacientes a domicílio, "mas atualmente nós temos medo de ir".

Há poucas semanas, um morteiro atingiu um local a poucos metros do hospital. Certo dia, Hussein se viu como o único psiquiatra em serviço no hospital. Combates na cidade impediram outros médicos de virem trabalhar. Outra manhã, ele chegou e encontrou as alas desertas -os pacientes, com medo dos combates, foram para casa.

O hospital Al Rashad, uma instalação de 1.000 pacientes para casos psiquiátricos crônicos nos arredores de Sadr City, foi pego recentemente no meio de um combate entre milicianos do Exército Mahdi e forças americanas e iraquianas. Até o momento, nenhum homem armado invadiu Ibn Rushid, apesar de "esperarmos isso a qualquer momento", disse Hussain.

Após mulheres-bomba terem detonado a si mesmas em mercados no centro de Bagdá em fevereiro, matando pelo menos 90 pessoas, e as autoridades americanas terem dito que as mulheres tinham problemas mentais, soldados americanos e iraquianos vieram ao hospital, disse Hussain. Eles mostraram para ele uma foto da mulher e lhe disseram o nome dela.

Hussain disse que reconhecia a mulher -ele a tratou- e lhes deu uma cópia do prontuário da mulher para os soldados. Duas semanas depois, ele disse, a paciente, que sofria de esquizofrenia, entrou andando no hospital, viva e aparentemente inocente.

Agora, o Ministério da Saúde, que supervisiona o sistema de saúde pública, determinou que nenhum paciente pode ser visto sem uma foto atual e carteira de identidade, para que não sejam suspeitos de trabalhar com os rebeldes, disse Hussain.

Ele está sempre tentando seguir em frente. À noite, ele revira a Internet no computador de sua casa -o hospital não conta com conexão de Internet- em busca das mais recentes teorias psiquiátricas, os mais recentes tratamentos. Ele dirige um clube de revistas para os residentes em psiquiatria poderem discutir as mais recentes pesquisas, e espera iniciar um programa para pacientes idosos.

Hussain disse que o hospital pediu ao Ministério da Saúde para ajudar com a escassez de medicamentos, equipamentos e pessoal, mas até agora nada mudou.

Mais de 70 psiquiatras e outros funcionários de saúde mental participaram de uma conferência de treinamento no Curdistão na semana passada, onde ouviram médicos da Inglaterra, Iraque e Estados Unidos falarem sobre tratamentos psiquiátricos atuais, mas Hussain não pôde ir.

Um plano do governo americano de enviar equipes de psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais iraquianos, incluindo Hussain, para os Estados Unidos para treinamento provocou grande empolgação. Mas o programa, originalmente previsto para o ano passado, tem sido adiado repetidamente, e os participantes foram notificados recentemente de outro adiamento.

Hussain imaginava as coisas de forma diferente quando optou por se tornar psiquiatra nos anos 80, fascinado pelos sintomas psiquiátricos dos soldados que retornavam de campos de batalha distantes da guerra Irã-Iraque.

Mas agora uma guerra diferente tomou conta de seu país, e seus pacientes, apesar de não serem soldados, são todos, de certa forma, vítimas.

Ele poderia deixar o Iraque, mas não tem a intenção de fazê-lo, ele disse. Ele ama seu trabalho.

"Ninguém me forçou a ser psiquiatra", disse Hussain. George El Khouri Andolfato

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