UOL Notícias Internacional
 

20/05/2008

Krugman: preço da gasolina deixou americanos encalhados no subúrbio

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Em Berlim
Eu vi o futuro. E ele funciona.

Ok, eu sei que atualmente você supostamente deveria ver o futuro na China ou na Índia, não no coração da "Velha Europa".

Mas estamos vivendo em um mundo em que os preços do petróleo continuam estabelecendo recordes, no qual a idéia de que a produção global de petróleo em breve atingirá seu pico está rapidamente passando de uma crença periférica para a suposição predominante. E os europeus que atingiram um alto padrão de vida apesar de preços de energia muito altos -a gasolina na Alemanha custa mais de US$ 8 o galão (R$ 3,45 o litro)- têm muito a nos ensinar sobre como lidar com esse mundo.

Se o exemplo da Europa serve como guia, aqui estão dois segredos para lidar com o petróleo caro: ser dono de carros eficientes no consumo de combustível e não dirigi-los demais.

Note que eu disse que os carros devem ser eficientes no consumo de combustível -não que as pessoas devem se virar sem carros. Na Alemanha, como nos Estados Unidos, a grande maioria das famílias possui carros (apesar dos lares alemães terem uma probabilidade menor do que os lares americanos de terem múltiplos carros).

Mas o carro médio alemão consome cerca de um quarto a menos de combustível por quilômetro do que o carro médio americano. Em geral, os alemães não dirigem carros minúsculos de brinquedo, mas dirigem carros de passageiros de tamanho modesto em vez de utilitários esportivos e picapes.

No futuro próximo, eu espero ver os americanos seguindo pelo mesmo caminho. Nós já fizemos isso uma vez: ao longo dos anos 70 e 80, a distância percorrida com um litro por um carro de passageiros americano aumentou cerca de 50%, à medida que os americanos optavam por carros menores e mais leves.

Esta melhoria estagnou com a ascensão dos utilitários esportivos durante a gasolina barata dos anos 90. Mas agora que a gasolina custa mais do que nunca, mesmo após ser corrigida pela inflação, nós podemos esperar um novo aumento do desempenho.

Reconhecidamente, os próximos anos serão difíceis para as famílias que compraram veículos grandes quando a gasolina era barata, e agora se vêem proprietárias de elefantes brancos com pouco valor de mercado. Mas melhorar a eficiência do consumo de combustível é algo que podemos e faremos.

Nós também podemos dirigir menos? Sim -mas chegar aí será bem mais difícil.

Há muitos relatos nas últimas semanas de americanos que estão mudando seu comportamento em resposta à gasolina cara -eles estão tentando fazer compras localmente, cancelando férias que envolvem muita distância percorrida de carro e optando por transporte público.

Mas nada disso representa muito. Por exemplo, alguns grandes sistemas de transporte público estão empolgados com ganhos de passageiros de 5% a 10%. Mas menos de 5% dos americanos usam transporte público para trabalhar, de forma que este aumento do número de passageiros tira apenas um relativo punhado de motoristas das ruas.

Qualquer redução séria de americanos ao volante exigirá mais do que isso -significará mudar como e onde muitos de nós vivem.

Para entender do que estou falando, considere onde estou no momento: em um bairro agradável de classe média que consiste principalmente de prédios de apartamentos de quatro ou cinco andares, mas com fácil acesso ao transporte público e abundante comércio local.

É o tipo de bairro no qual as pessoas não precisam dirigir muito, mas também é um tipo de bairro que mal existe nos Estados Unidos, mesmo em grandes áreas metropolitanas. A Grande Atlanta possui aproximadamente a mesma população da Grande Berlim -mas Berlim é uma cidade de trens, ônibus e bicicletas, enquanto Atlanta é uma cidade de carros, carros e carros.

E diante do aumento dos preços da gasolina, que deixaram muitos americanos encalhados nos subúrbios -completamente dependentes de seus carros, mas tendo dificuldade para comprar gasolina- está começando a parecer que Berlim teve uma idéia melhor.

Mudar a geografia das áreas metropolitanas americanas será difícil. Um aspecto é o de casas durarem muito mais do que carros. Muito depois dos utilitários esportivos atuais terem se tornado peças de colecionador, milhões de pessoas ainda estarão vivendo em subúrbios construídos quando a gasolina custava US$ 1,50 o galão (R$ 0,65 o litro) ou menos.

A infra-estrutura é outro problema. O transporte público, em particular, enfrenta um problema de ovo e a galinha: é difícil justificar sistemas de transporte a menos que haja densidade populacional suficiente, mas é difícil persuadir as pessoas a viverem em bairros mais densos a menos que tenham a vantagem de dispor de fácil acesso ao transporte público.

E há, como sempre nos Estados Unidos, questões de raça e classe. Apesar da valorização que tem ocorrido em alguns áreas centrais e da queda nos índices nacionais de criminalidade para níveis não vistos em décadas, será difícil vencer a antiga associação americana de viver em áreas de maior densidade com pobreza e risco pessoal.

Ainda assim, se estivermos caminhando para uma era prolongada de petróleo escasso e caro, os americanos enfrentarão incentivos cada vez mais fortes para começarem a viver como os europeus -talvez não hoje, talvez não amanhã, mas em breve, e pelo resto de nossas vidas. George El Khouri Andolfato

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