UOL Notícias Internacional
 

20/05/2008

Sul-africanos pobres descarregam sua raiva nos imigrantes

The New York Times
Barry Bearak e Celia W. Dugger

Em Johannesburgo, África do Sul
O homem certamente parecia morto, estendido imóvel no chão de terra do campo de assentamento. Seu corpo parecia quase como uma garrafa tombada, derramando sangue. Suas calças estavam encharcadas de vermelho.

Nas proximidades havia evidência do que ele tinha sofrido. Uma grande pedra foi usada para abrir seu tronco. Restavam brasas de uma fogueira que fez parte de alguma forma de tortura. Pedaços de uma jaqueta queimada ainda estavam presos ao antebraço esquerdo da vítima.

Então, à medida que as pessoas se aproximavam, ainda havia uma leve respiração em seu peito. "Este sujeito pode estar vivo", alguém disse. Como se para confirmar, o homem moveu os dedos de sua mão direita.

A multidão esgotada nem se alegrou e nem lamentou. Afinal, os ataques horríveis contra imigrantes por toda Johannesburgo já estão ocorrendo há uma semana, e aos olhos dela a vítima era apenas algum malauiano ou zimbabuano, outro alvo no expurgo em andamento.

João Silva/The New York Times 
Contêiner em chamas durante os distúrbios no Assentamento de Ramaphosa

Este país está passando por uma onda de xenofobia, com os pobres sul-africanos descarregando sua raiva nos estrangeiros pobres que vivem em seu meio. Pelo menos 22 pessoas já foram mortas até a segunda-feira na desordem implacável, disse a polícia.

Mas o número de mortos apenas dá uma pista das conseqüências. Milhares de imigrantes foram expulsos de suas casas caindo aos pedaços. Eles lotaram as delegacias de polícia e centros comunitários de Johannesburgo, alguns com os poucos bens que puderam carregar antes que as turbas saqueassem seus barracos, a maioria com nada além das roupas que vestiam no momento em que escapavam.

"Eles vieram à noite, tentando nos matar, com pessoas apontando: 'Este é estrangeiro, este não'", disse Charles Mannyike, 28 anos, um imigrante de Moçambique. "Era um ódio muito cruel e feio."

A violência xenofóbica, antes um mal ocasional nos arredores de Johannesburgo, se tornou um contágio, passando de uma área para outra. Na cidade não há falta de bairros onde os pobres montam barracos de placas de madeira e metal corrugado.

Desde o fim do apartheid, um pequeno percentual da população negra do país -os mais capacitados e com contatos políticos- prosperou. Mas a desigualdade entre ricos e pobres cresceu. A taxa oficial de desemprego é de 23%. Habitação continua sendo um problema deplorável.

"Isto alimenta a revolta nas classes mais baixas", disse Mariu Root, um pesquisador do Instituto Sul-Africano de Relações Raciais. "Há a percepção de que não estão desfrutando dos frutos da libertação."

Aqui no Assentamento de Ramaphosa, uma colônia de invasores a sudeste da cidade, seis imigrantes foram mortos nos últimos dois dias -ou talvez sete, se o homem encontrado na manhã de segunda-feira não sobreviver.

"Nós queremos que todos estes estrangeiros voltem para suas próprias terras", disse Thapelo Mgoqi, que se considera um líder em Ramaphosa. "Nós esperávamos que nosso governo fosse fazer algo a respeito destas pessoas. Mas ele não fez nada e agora estamos fazendo por conta própria, e ninguém nos impedirá."

João Silva/The New York Times 
Manifestante é visto próximo a estrutura em chamas no Assentamento de Ramaphosa

Uma ladainha familiar de queixas contra os estrangeiros é declarada de forma passional, apesar de nem sempre racional. Eles cometem crimes. Eles provocam redução dos salários. Eles ocupam empregos que seriam de outros.

George Booysen disse que como convertido ao cristianismo ele não acredita em homicídios. Ainda assim, algo precisa ser feito sobre estes imigrantes indesejados.

Eles são pessoas ruins, ele disse: "Um sul-africano pode roubar seu celular mas não matará você. O estrangeiro rouba seu celular e te mata".

Além disso, ele disse, é fácil demais explorar os imigrantes.

"Os brancos contratam os estrangeiros porque eles trabalham duro e o fazem por menos dinheiro", disse Booysen. "Um sul-africano exige seus direitos e entrará em greve. Os estrangeiros têm medo."

A África do Sul tem 48 milhões de habitantes. É difícil encontrar uma estimativa confiável do número de estrangeiros em seu meio. Certamente, nem todos os imigrantes estão economicamente à frente dos sul-africanos. Mas os somalis e etíopes provaram ser bem-sucedidos como lojistas nas cidades.

Os zimbabuanos, que compõem o maior grupo imigrante no país, se beneficiaram de um forte sistema educacional antes que sua terra natal entrasse em colapso, enviando cerca de três milhões para além da fronteira para buscar refúgio aqui. Professores e outros profissionais -com seus salários sem valer nada devido à hiperinflação do Zimbábue- vieram trabalhar como empregados domésticos e trabalhadores braçais.

Atualmente, as noites e o amanhecer pertencem aos saqueadores de Ramaphosa. Na segunda-feira, logo após o amanhecer, eles celebraram ousadamente suas vitórias. Lojas pertencentes a imigrantes já tinham sido saqueadas, mas ainda havia muito fogo para ser ateado e paredes para serem derrubadas. Eles dançavam e cantavam.

Então a polícia chegou, disparando balas de borracha. Pedras foram atiradas pela multidão no contra-ataque, mas para triunfar ela só precisou ser paciente. A polícia não permaneceu por muito tempo. Ela não é capaz de conter o frenesi disseminado.

Aqueles que ficaram para trás na economia pós-apartheid do país geralmente culpam aqueles que ficaram ainda mais para trás, os impotentes transformando os indefesos em bodes expiatórios.

Muitos sul-africanos se consideram em desvantagem junto aos empregadores de seu país. "Se você tiver um sobrenome como o meu, você não conseguirá um emprego", disse Samantha DuPlessis, 23 anos, uma mulher mestiça. "Eu estou procurando emprego há quatro anos. Os empregadores só querem contratar estrangeiros."

Logo, há um senso nacionalista de júbilo nos bairros em que os imigrantes foram expulsos. "Os maputos, nós não os queremos por aqui e nunca mais teremos que nos preocupar com eles", disse Benjamin Matlala, 27 anos, usando um termo comum para os moçambicanos.

Matlala, que está desempregado, vive na comunidade de Primrose, agora esvaziada de seus estrangeiros. As áreas em que eles viviam estão sendo desmontadas. Primeiro, os pertences dos imigrantes em fuga -seus colchões, cobertores, roupas e utensílios de cozinha- foram saqueados.

Na segunda-feira, as moradias foram despedaçadas por dezenas de homens furiosos. Não foi difícil. As paredes de metal fino foram derrubadas com poucas marteladas. Os postes de madeira foram facilmente arrancados do chão. Molduras de fotos foram atiradas em uma pilha de entulho.

Matlala conseguiu arrumar um carrinho de supermercado, que ele encheu de ferro-velho. Cada carga, ele disse, renderia cerca de 40 rands no mercado, ou cerca de US$ 5.

Ele tinha esperança de conseguir três cargas, mais dinheiro do que via em muito tempo. George El Khouri Andolfato

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