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21/05/2008

Friedman: desequilíbrios do poder - o legado de Bush ao próximo presidente americano

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Há muito debate nesta campanha sobre com qual de nossos inimigos o próximo presidente americano se dignará a conversar. A verdadeira história, o próximo presidente americano poderá descobrir, é quão poucos países estão esperando por um telefonema nosso. É difícil lembrar de algum outro período em que tantas mudanças no equilíbrio global de poder estavam acontecendo ao mesmo tempo -com tão poucas a favor dos Estados Unidos.

Vamos começar pela mais profunda: mais e mais, eu estou convencido de que o grande fracasso em política externa que será atribuído a este governo não será a falta de sucesso em fazer o Iraque funcionar, por mais devastadora que tenha sido. Será um com implicações mais amplas para o equilíbrio do poder -o fracasso pós-11 de Setembro em implantar uma política de energia eficaz.

Me desconcerta o fato do presidente Bush ir duas vezes à Arábia Saudita em quatro meses e implorar ao rei saudita por um freio no preço do petróleo em vez de pedir aos americanos que dirijam a 90 km/h, comprem carros mais eficientes no consumo de combustível ou aceitem um imposto sobre o carbono ou a gasolina que poderia ajudar a nos libertar do nosso "vício em petróleo", como ele o chamou.

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O fracasso de Bush em mobilizar plenamente o motor mais poderoso de inovação do mundo -a economia americana- para produzir uma alternativa escalonável ao petróleo ajudou a alimentar a ascensão de uma coleção de Estados petro-autoritários -da Rússia à Venezuela e Irã- que estão mudando a política global à sua imagem.

Se esta imensa transferência de riqueza para os petro-autoritários continuar, o poder a seguirá. Segundo um depoimento no Congresso do especialista em energia, Gal Luft, na quarta-feira, com o petróleo a US$ 200 o barril (leia aqui a íntegra do texto "'Oráculo do petróleo' prevê barril a US$ 200"), a Opep poderia "potencialmente comprar o Bank of America com um mês de produção, a Apple em uma semana e a General Motors em apenas três dias".

Mas isso não é tudo. Dois novos livros convincentes recém-lançados descrevem duas outras grandes mudanças de poder: "The Post-American World", de Fareed Zakaria, editor da "Newsweek International", e "Superclass", de David Rothkopf, um acadêmico visitante do Fundo Carnegie.

A tese central de Zakaria é de que apesar dos Estados Unidos ainda contarem com ativos únicos, "a ascensão dos demais" -as Chinas, Índias, Brasis e até mesmo protagonistas menores não ligados a Estados- está criando um mundo onde muitos outros países estão lentamente crescendo ao nível de poder econômico e auto-afirmação dos Estados Unidos, em todos os campos.

"Atualmente, a Índia conta com 18 novos canais próprios", nota Zakaria. "E os pontos de vista que fornecem são muito diferentes daqueles que você receberia na mídia ocidental. Os demais agora têm a confiança para apresentarem sua própria narrativa, onde estão no centro."

Por tempo demais, argumenta Zakaria, os Estados Unidos pegaram seus muitos ativos naturais -suas universidades de pesquisa, mercados livres e diversidade de talento humano- e presumiram que eles sempre compensariam nossa baixa taxa de poupança ou a ausência de um sistema de saúde ou qualquer plano estratégico para melhorar nossa competitividade.

"Isto funcionava em um mundo onde muitos outros países não estavam funcionando", argumenta Zakaria, mas agora os melhores dos demais estão correndo rapidamente, trabalhado arduamente, poupando bem e pensando a longo prazo. "Eles adotaram nossas lições e estão jogando o nosso jogo", ele disse. Se não consertarmos nosso sistema político e começar a pensar estrategicamente sobre como melhorar nossa competitividade, ele acrescentou, "os Estados Unidos correm o risco de ver sua posição singular e vantajosa no mundo ruir à medida que outros países ascendem".

O livro de Rothkopf argumenta que em muitas das questões mais críticas de nosso tempo, a influência de todos as nações-Estado está diminuindo, o sistema para tratar das questões globais entre as nações-Estado está mais ineficiente do que nunca, e portanto um vácuo de poder está sendo criado. Este vácuo de poder freqüentemente é preenchido por um pequeno grupo de protagonistas -a "superclasse"- uma nova elite global, que está muito melhor adequada a operar no cenário global e influenciar os resultados globais do que a grande maioria dos líderes políticos nacionais.

Parte desta nova elite vem dos setores de "negócios e finanças", diz Rothkopf. "Alguns são membros de uma espécie de elite das sombras -criminosos e terroristas. Alguns são mestres da mídia nova ou de uma tradicional; alguns são líderes religiosos, e alguns poucos são autoridades de governos que têm a capacidade de projetar sua influência globalmente."

O próximo presidente terá que administrar estes novos Estados em ascensão e estes novos indivíduos e redes em ascensão, ao mesmo tempo em que vestirá a camisa de força deixada no Salão Oval por Bush.

"Chame de triplo déficit", disse Rothkopf. "Um déficit fiscal que em breve nos fará escolher entre atendimento de saúde racionado, ensino suficiente, infra-estrutura adequada e níveis tradicionais de gastos em defesa; um déficit comercial que nos faz tomar empréstimos junto a nossos rivais a ponto de se tornar uma vulnerabilidade real; e um déficit geopolítico que é um legado do Iraque, que pode resultar em uma hesitação em assumir fortes posições onde deveríamos."

A primeira regra dos buracos é que quando você se encontra em um, pare de cavar. Mas quando você está em três, traga muitas pás. George El Khouri Andolfato

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