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21/05/2008

"Oráculo do petróleo" prevê barril a US$ 200

The New York Times
Louise Story
Arjun N. Murti recorda-se do sofrimento representado pelos choques do petróleo na década de 1970. Mas agora ele se prepara para algo muito
pior: Murti prevê uma "super alta" - um aumento que em breve jogará o preço do barril de petróleo para US$ 200.

Murti, que tem uma certa queda pelo verde, não se perturba muito com a possibilidade de que os preços do petróleo subam ainda mais, por acreditar que isso possa finalmente fazer com que os Estados Unidos passem a usar energia de forma mais eficiente.

Analista do Goldman Sachs, Murti tornou-se o assunto do mercado do petróleo ao fazer uma previsão sensacional atrás da outra. Há alguns anos, os rivais zombaram quando ele previu que o preço do barril do petróleo ultrapassaria a barreira dos US$ 100. Agora poucos riem. O petróleo bateu um outro recorde na terça-feira (20/05), chegando a US$ 129,60 na Bolsa de Valores de Nova York. A gasolina a quatro dólares o galão (US$ 1.06 o litro) está chegando no momento em que os motoristas norte-americanos preparam-se para as longas viagens de verão.

Murti, 39, argumenta que a sede de petróleo aparentemente insaciável do planeta significa que os preços continuarão subindo, e que ficarão acima dos US$ 100 até 2011. Outros discordam, afirmando que os preços poderão despencar abruptamente caso os especuladores resolvam pular fora deste mercado. Mas o cálculo sombrio na previsão de Murti, publicada em março e confirmada duas semanas atrás, é suficiente para fazer com que qualquer um reflita: se o petróleo chegar a US$ 200, o galão da gasolina custará mais de US$ 6 nos Estados Unidos (US$ 1,58 o litro).

Para Murti, que é dono de dois carros híbridos, não há problema nenhum nisso. "Eu na verdade sou bastante antipetróleo", afirma Murti, que cresceu em Nova Jersey. "Um dos maiores desafios enfrentados pelo nosso país é o vício em petróleo".

Murti está longe de ser o único que prevê preços ainda mais elevados. T. Boone Pickens, o magnata do petróleo que virou comprador de corporações, disse na terça-feira que o barril de petróleo chegará a US$ 150 neste ano. Mas muitos analistas já não demonstram mais uma certeza quanto ao patamar que será atingido pelo petróleo, pelo menos no curto prazo.

Alguns dizem que os preços cairão para até US$ 70 o barril até o final do ano, segundo a Thomson Financial.

Os especialistas discordam em relação às reservas de petróleo, à demanda pelo produto e à possibilidade de a recente especulação nos mercados de commodities ter elevado artificialmente os preços. Conforme diz Tim Evans, um analista de energia do Citigroup, negociar com commodities atualmente é como "enfiar a mão em um liquidificador".

O que quer que aconteça, analistas do setor petrolífero como Murti adquiriram subitamente aquela aura que envolvia os analistas da área de tecnologia na década passada.

"Tornou-se moda escrever sobre esta área", diz Kevin Norrish, analista de commodities do Barclays Capital, que começou a prever o aumento dos preços do petróleo à mesma época que o Goldman. "E, a fim de atrair a atenção das pessoas, tem gente que está apresentando todos os tipos de números".

A situação nem sempre foi esta. Na década de 1990, a pesquisa do setor petrolífero era uma área sonolenta nos bancos. Muitos analistas acreditavam que os preços do petróleo permaneceriam para sempre em torno de US$ 15 e US$ 20 o barril. Eles achavam que se o petróleo aumentasse muito, os consumidores começariam a conservar, os produtores aumentariam a produção, ou as duas coisas, o que causaria uma queda dos preços.

Mas por volta da virada do século, uma companhia petrolífera após a outra passou a não alcançar os índices de produção previstos. Murti, que analisa companhias petrolíferas como a ConocoPhillips e a Valero Energy, decidiu estudar as disparadas do petróleo da década de 1970.

Desde que começou a sua carreira na Petrie Parkman & Co., uma firma de investimentos com sede em Denver que foi adquirida pelo Merrill Lynch em 2006, ele vinha sendo um conservador quando se tratava de analisar o mercado de petróleo. Mas, em 2004, ele concluiu que o mundo estava rumando para um grande choque de oferta que lançaria os preços à estratosfera. No verão daquele ano, quando o barril do petróleo era comercializado a US$ 40, Murti cunhou um termo que se tornou a sua assinatura pessoal: super spike (algo como super alta).

Em março seguinte, ele atraiu atenções ao prever que o barril chegaria a US$ 105, enviando ondas de choque pelo mercado. Investidores furiosos questionaram se os comerciantes de petróleo do próprio Goldman teriam se beneficiado com a previsão. Na reunião anual do Goldman, Henry M.
Paulson Jr., à época o diretor-executivo do banco, e atualmente secretário do Tesouro dos Estados Unidos, viu-se defendendo Murti.

"Os nossos negociadores ficaram tão surpresos como todo mundo", afirmou Paulson. "O nosso departamento de pesquisas é totalmente independente.
Os nossos departamentos de negócios não dão nenhum palpite nessa área".

O tempo mostrou que Murti tinha razão. O petróleo ultrapassou a barreira dos US$ 100 em fevereiro. Atualmente as análises de Murti integram várias previsões oficiais econômicas e corporativas do Goldman, afetando as pesquisas sobre companhias como a Ford e a Procter & Gamble. As suas pesquisas são amplamente distribuídas entre os investidores.

"Ainda que você discorde da visão deles, o problema é que o Goldman conta de fato com muita credibilidade", diz Nauman Barakat, vice-presidente de mercados futuros de energia global do Macquarie Futures USA. "Muitos negociadores comprarão baseados nos relatórios do Goldman".

A fama repentina incomoda Murti. Ele dificilmente concede entrevistas, citando preocupações relativas à sua privacidade. Ele recusou-se a se deixar fotografar para esta matéria. Murti não é o único fazedor de prognósticos do banco. Jeffrey R. Currie prevê os preços do petróleo em Londres.

Murti rejeita as alegações de que os seus relatórios afetam os preços do mercado. "Quando um analista valoriza ou desvaloriza uma ação, às vezes temos uma reação naquele dia, mas depois o que prevalece são os fundamentos da economia", afirma ele.

Murti faz parte do campo de analistas do setor petrolífero que acreditam que a oferta provavelmente continuará restrita devido a fatores geopolíticos. Esses analistas prevêem preços mais elevados porque a produção está diminuindo em países que não fazem parte da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), como Reino Unido, Noruega e México.

Os analistas que prevêem preços mais reduzidos dizem que existem reservas de petróleo que não estão sendo levadas em consideração por analistas como Murti. "Neste ano haverá um aumento furtivo da oferta, provocado tanto pelos membros da Opep quanto por aqueles que chamamos de 'países buracos negros'", afirma Edward L. Morse, economista especializado no setor de energia do Lehman Brothers. "A China é um exemplo desse tipo de país".

Mas embora os preços do petróleo e da gasolina estejam em alta já há algum tempo, só agora os norte-americanos começaram a reduzir o consumo, de forma que esses esforços ainda não pressionaram os preços para baixo.

"O fato de a demanda dos Estados Unidos poder cair e de o consumidor norte-americano de gasolina não estar mais ditando os preços mundiais do petróleo é um acontecimento monumental", diz Murti. Ele passa a maior parte do tempo conversando com gerentes e analistas financeiros, muitos dos quais não param de lhe perguntar se os preços do petróleo permanecerão elevados caso os especuladores abandonem o mercado, e dizem que ele "aplaude" os investidores por elevarem os preços, já que isso implicará em mais investimentos em fontes alternativas de energia.

"Os preços elevados enviam aos consumidores a mensagem de que eles devem se empenhar para adquirir carros mais eficientes, ou então conservar energia", diz Murti. "Washington deveria criar incentivos fiscais para encorajar as pessoas a comprarem carros híbridos, além de desenvolver mais energia nuclear".

É claro que, caso os legisladores prestem atenção nos seus conselhos, analistas de petróleo como ele poderão ser figuras do passado. Mas isso não perturba Murti.

"Para o mundo, a melhor coisa seria que dentro de 15 anos não precisássemos mais de analistas de petróleo", afirma. UOL

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