UOL Notícias Internacional
 

22/05/2008

Combates vaivém com o Taleban tornam estabilidade afegã uma meta distante

The New York Times
Carlotta Gall

Em Khakrez, Afeganistão
No final do ano passado, grupos de combatentes do Taleban tomaram cada aldeia deste distrito no sul do Afeganistão. As forças americanas chegaram para varrê-los em janeiro, disseram as pessoas daqui. Em abril, o Taleban estava de volta, cercando o centro do distrito em uma demonstração de força que assustou os aldeões. Então os rebeldes se dispersaram de novo.

As forças armadas americanas freqüentemente descrevem a insurreição como um balão que quando é apertado em um local, desponta em outro. Com a chegada da primavera e uma nova estação de combates, algumas autoridades locais dizem que a Otan deve agir mais rapidamente para atacar o Taleban enquanto os rebeldes estão fracos, para impedir outra ofensiva no verão e conquistar a confiança das pessoas. Pessoas assustadas não apoiarão o governo enquanto ele permanecer tão fraco, elas dizem.

"Esta é a hora de fazer algo, de agir contra eles", disse Hajji Agha Lalai, que dirige a divisão de Kandahar da Comissão Afegã para Paz e Reconciliação, que busca persuadir os membros do Taleban a desistirem da luta. "Mas eu não sei o que eles estão fazendo", ele disse sobre as forças da Otan.

Khakrez, há duas horas ao norte da cidade de Kandahar, é um cenário de uma guerra complexa no Afeganistão. Mas a natureza vaivém do combate aqui revela os problemas maiores diante da Otan e das forças americanas, quase sete anos após o início de um conflito que exibe poucos sinais de diminuir.

Cada vez mais, a questão diante dos aliados é quanto tempo levará para consolidar os ganhos em províncias cruciais, como Kandahar, e promover segurança real e um governo forte. Igualmente importante é se isso pode ser feito antes que a guerra desgaste as relações dentro da aliança liderada pelos Estados Unidos, e entre ela e o povo afegão. O progresso é tão lento que os afegãos freqüentemente se perguntam se os Estados Unidos na verdade querem que o Taleban vença.

"Ninguém alega que este será um ano de estabilização plena ou mesmo de redução da violência, muito menos de um fim do conflito", disse Christopher Alexander, vice-representante especial da ONU no Afeganistão.

Mas ele acrescentou: "Há quadros diferentes em lugares diferentes", o que torna extremamente difícil avaliar o progresso, e o que ajuda a gerar pontos de vista divergentes sobre conflito entre as autoridades afegãs e seus aliados americanos e da Otan.

Autoridades da Otan e ocidentais no Afeganistão dizem que o Taleban está enfraquecido, e que as forças afegãs e o governo estão lentamente se fortalecendo. Mas algumas autoridades americanas também falam de uma insurreição e criminalidade ligada às drogas que estão crescendo. A percepção da população é de que as coisas estão piorando.

Não ajuda o fato dos membros da Otan estarem individualmente trabalhando em ritmos diferentes nas várias partes do país. Cada aliado estabelece seu próprio equilíbrio entre combate e manutenção da paz.

Observando das capitais ocidentais, as autoridades americanas e da Otan se queixam de que, dois anos após um avanço do Taleban, os membros da Otan estão tendo dificuldade em manter seus compromissos e elaborar uma abordagem unificada para a guerra.

As forças armadas americanas, já no limite ao manter cerca de 140 mil soldados no Iraque, acabaram de enviar 3 mil marines ao Afeganistão, a maioria deles para reforçar as forças da Otan no sul.

Cada vez mais, os aliados da Otan, que estão sob crescente pressão para trazerem seus soldados de volta para casa, estão hesitando em enviar soldados para reforçar os mais de 60 mil soldados estrangeiros -34 mil deles americanos- que já estão no país. Altos funcionários do governo Bush dizem que podem enviar 7 mil soldados americanos adicionais no próximo ano para preencher a lacuna.

As pressões começaram após 2007, o ano mais sangrento no Afeganistão. Os combates mataram mais de 8 mil pessoas em 2007, entre elas 1.500 civis, segundo a ONU. A maioria dos mortos, cerca de 5 mil, era de rebeldes, ela diz.

Algumas autoridades americanas, da Otan e afegãs dizem que as perdas esgotaram as forças do Taleban, que agora estão lutando em grupos menores em ataques lançados do outro lado da fronteira, das províncias do leste vizinhas das regiões tribais sem lei do Paquistão.

Mas apesar do Taleban poder estar mais fraco, o governo ainda continua mais fraco do que ele, disse o chefe de inteligência do Afeganistão, Amrullah Saleh, assim como o ministro da Defesa, Abdul Rahim Wardak, e altos oficiais da Otan.

Nenhuma autoridade afegã está pedindo por mais tropas estrangeiras, mas estão pedindo por mais ajuda para desenvolverem suas próprias forças de segurança, que são melhor aceitas pelo povo e mais hábeis nas aldeias do que as forças estrangeiras.

Grandes partes do norte e centro do país estão pacíficas, apontam as autoridades afegãs. Especialmente nas províncias do leste, onde as forças americanas dobraram a sua força há dois anos, mais distritos estão estáveis e os combates diminuíram.

O comandante das forças americanas no Afeganistão, o general Jeffrey J. Schloesser, disse que apesar de esperar um aumento nos ataques em 2008, a vantagem passou a ser das forças afegãs, que ele disse estarem se desenvolvendo bem. "O tempo não está mais ao lado dos rebeldes", ele disse em uma recente coletiva de imprensa.

Um número crescente de combatentes do Taleban está sinalizando que deseja baixar suas armas, disseram autoridades afegãs. A missão da ONU no Afeganistão diz que também conta com mais talebans batendo à sua porta, perguntando sobre que garantias poderiam esperar caso procurassem o governo.

Entre os que contataram o governo estão altos membros do antigo governo do Taleban e até mesmo o comandante mujahedeen renegado Gulbuddin Hekmatyar, que também controla vários comandantes que enfrentam as tropas americanas, disse um alto funcionário afegão.

Os contatos refletem um cansaço da guerra entre os rebeldes, disse o funcionário, assim como as mudanças políticas no Paquistão, onde os combates entre o governo e o Taleban paquistanês no ano passado deixaram o Taleban afegão inseguro em relação ao seu antigo santuário no país vizinho.

Aqui nas províncias do sul do Afeganistão, onde o Taleban exibiu um ressurgimento espetacular em 2006 contra as tropas da Otan -a maioria canadenses, britânicos e holandeses- os moradores também dizem estar esgotados com os combates.

O general Harm de Jonge, um vice-comandante holandês da força da Otan no sul do Afeganistão, disse que muitos dos líderes locais do Taleban foram mortos ao longo do último ano -algo confirmado pelos aldeões e anciãos afegãos- e que o efeito é aparente.

"Você vê um tipo de fragmentação, uma dessincronização do Taleban", ele disse. "Há uma falta de logística em algumas áreas."

Os afegãos agora possuem quatro de suas próprias brigadas no sul, uma em cada uma das províncias mais problemáticas -Kandahar, Helmand, Oruzgan e Zabul- e estão liderando suas próprias operações em duas delas, disse De Jonge. "Nós estamos conseguindo progressos, mas ainda levará um longo tempo", ele disse.

Enquanto isso, a insurreição permanece perigosa e intratável, alimentada pelo comércio de ópio e pelo tráfico de drogas. Na cidade de Kandahar e em distritos problemáticos como Khakrez, há medo, incerteza e deslocamento entre as pessoas.

Em Khakrez, a polícia instalada no distrito do centro não deixa sua sede, disseram os aldeões. "As pessoas cuidam de sua própria segurança", disse Hajji Shah Wali, um ancião local.

À medida que o Taleban perde homens, ele se torna mais maldoso, disseram as autoridades afegãs. Comandantes mais jovens e mais radicais substituíram os líderes mujahedeen mais velhos, que freqüentemente têm laços mais fortes com as comunidades e até certo grau dão ouvidos aos anciãos tribais.

Este não é o caso agora. Há alguns desaparecimentos sinistros e assassinatos noturnos, disse Hajji Lalai, o chefe da comissão de paz e reconciliação em Kandahar. "Por sua postura e aparência, as pessoas parecem preocupadas", ele disse. "Elas se perguntam: 'O que vai acontecer?'" Anciãos em Khakrez disseram que as escolas da aldeia estão fechando porque os professores têm medo de comparecer. Os pais também mantêm as crianças em casa, por temerem pela segurança delas.

"O ano passado foi um ano muito ruim", disse um aldeão, Ghulam Farouq. "Um policial foi morto do lado de fora do centro do distrito e ficou estendido na estrada por três dias, sem que ninguém ousasse recolhê-lo."

O governador da província de Kandahar, Asadullah Khaled, que visitou o distrito de Khakrez no final de abril, disse que ele agora pode dirigir para cada distrito da província, o que não era possível no ano passado. "A província de Kandahar está muito melhor", ele disse, "mas não significa que estamos livres do Taleban".

A violência e intimidação forçaram mais de 10 mil famílias a abandonarem seus lares desde março de 2007, segundo a Sociedade Crescente Vermelho afegã. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha ajudou cerca de 60 mil pessoas deslocadas pelo conflito no sul do Afeganistão naquele período.

O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Jakob Kellenberger, alertou após uma recente visita a Kandahar que certamente há mais pessoas em situação terrível nas áreas remotas.

De Jonge disse que o plano das forças armadas para o sul era "uma abordagem passo a passo", primeiro se concentrando nas áreas mais populosas, instalando governos locais e dando apoio e ajuda aos governadores dos distritos com a segurança.

Projetos de desenvolvimento são um elemento importante para mostrar às pessoas que algo concreto está sendo feito para elas, ele disse. "Nós devemos mostrar às pessoas nos campos que o governo está melhorando suas necessidades básicas", ele disse.

Mas as pessoas pedem, acima de tudo, por uma mão forte. "Se o governo for forte o bastante, o Taleban não poderá vir aqui", disse um agricultor, Ismatullah, que tem apenas um nome. "Se o governo for fraco, as pessoas não o apoiarão." George El Khouri Andolfato

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