UOL Notícias Internacional
 

23/05/2008

História milenar da China é outra vítima do terremoto

The New York Times
Andrew Jacobs

Em Dujiangyan, China
O som das águas do Rio Min, correndo pelo vale abaixo, ascende pela montanha. Uma brisa agita as folhas de antigos ginkgos. Aqui e acolá, o som de uma sirene distante perturba a tranqüilidade.

O único outro som era o ruído de telhas quebradas sob os pés enquanto Wang Zhongcheng revirava os escombros do Templo Dois Reis, um santuário taoísta de 1.500 anos empoleirado acima desta cidade. Por toda a volta dele havia um cenário impressionante de destruição: queimadores de incenso de bronze gigantes despedaçados pelas ruínas do prédio; um pagode antigo destruído; um monumento à deidade para a qual o templo era dedicado -uma das estátuas de pedra mais antigas da China- partida na cintura.

A catástrofe que destruiu tantas vidas também causou estragos a uma região rica em antiguidades. Aqui, ao longo de uma colcha de picos escarpados que se estendem para o norte até o planalto tibetano, 184 sítios históricos foram danificados ou destruídos em um espaço de cinco minutos, segundo um levantamento preliminar do governo. A casa de Li Bai, um dos poetas mais reverenciados da China, foi feita em pedaços. Um pagode de madeira de 800 anos em Jiangyou foi seriamente danificado. Em canto distante da província, um tempo budista tibetano de séculos de idade, em Nyitso, foi deslocado de sua fundação.

Du Bin/The New York Times 
Homem caminha entre destroços no templo Dois Reis, santuário taoísta em Dujiangyan

No amplo mosteiro Dois Reis, construído em homenagem ao engenheiro que criou um vasto sistema de controle de enchentes em 256 a.C. e agora Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, a aniquilação foi quase completa. Os caminhos íngremes de pedra foram divididos no meio e tudo o que resta da loja de suvenires é um emaranhado de madeira antiga, latas de Coca-Cola amassadas e cartões postais cobertos de poeira.

Apesar das enormes necessidades humanas enfrentadas por milhões de sobreviventes, Wang Qiong, uma autoridade da Administração de Relíquias Culturais de Sichuan, disse estar otimista de que o complexo poderá ser restaurado em três anos. "Eu acho que o governo estadual assim como a sociedade darão apoio financeiro", ele disse em uma entrevista.

Wang, o monge, não estava tão otimista. "Levará uma vida inteira", ele disse.

Apesar do Templo Dois Reis ter sido modificado e reconstruído muitas vezes, os historiadores acreditam que ele foi iniciado por volta de 500 d.C., poucas centenas de anos depois de Li Bing ter concluído a ambiciosa barragem que domou o Rio Min, um afluente do Yangtsé que na primavera afogava regularmente milhares na bacia de Chengdu. O sistema de diques e canais, reverenciado pela China como o sistema de controle de enchentes mais velho em funcionamento no mundo, permanece uma maravilha de engenharia antiga.

Com o fluxo destrutivo do Min domado, milhares de hectares de pântanos foram transformados no celeiro do país, nutrido pela oferta abundante da água desviada do rio. "Seu feito será lembrado por 10 mil gerações", diz o tributo entalhado em um portão de pedra que se projetava em meio aos escombros.

Por gerações, o tempo foi mantido por monges, muitos deles do vizinho Monte Qingcheng, o berço do taoísmo. A vida deles é de oração, contemplação silenciosa e o exercício em câmera lenta conhecido como tai chi chuan. Como vegetarianos que levavam vidas de ascetas, muitos dos monges e monjas disseram ter um relacionamento conflituoso com o mundo exterior, apesar de dependerem de ônibus cheios de turistas para obtenção de sua renda.

Nos últimos anos, os taoístas travaram uma batalha legal contra as autoridades provinciais que buscavam ter maior controle sobre o local. Wang disse que o Estado agora fica com grande parte do lucro, forçando os monges a dependerem da venda de refeições vegetarianas caseiras para seu sustento. "Eles sabem de onde extrair lucros", ele disse sobre o governo.

Enquanto se sentavam ao redor das ruínas bebendo chá e lendo textos religiosos, membros da ordem conversavam sobre o terremoto como retribuição pelas prioridades distorcidas da humanidade. Zhong Zongji, 38 anos, uma monja em um manto azul-marinho, disse que os sintomas eram bem visíveis em Dujiangyan, uma cidade de 600 mil cujos moradores, ela disse, estavam obcecados demais na busca pelo dinheiro para notar a beleza e santidade do mundo natural. "Eles têm uma boa vida material, mas são vazios em seu interior", ela disse, sentada perto de uma fileira de tendas que agora abrigam os 20 taoístas residentes do templo.

Enquanto falava, um barulho em tom baixo podia ser ouvido à distância. Era uma retroescavadeira, atravessando futilmente a estrutura de um dormitório de fábrica que ruiu, prendendo dezenas de pessoas. Colina abaixo, outras centenas permaneciam soterradas pelos escombros. Por toda a cidade, famílias lamentavam seus mortos.

Um turista foi morto pela queda de uma parede aqui, mas todas as demais pessoas sobreviveram com pequenos arranhões. Dois dias antes do tremor, disse Ai Zongling, ela teve uma premonição de que algo terrível estava para acontecer. Ela acordou zonza no dia do terremoto e sentiu uma atração inexplicável pela maior estrutura do mosteiro, um dos poucos prédios religiosos que escapou da destruição total. "Eu senti no meu coração que estaria segura ali", ela disse.

Muitos dos homens e mulheres que vivem em Dois Reis consideraram o terremoto como uma punição merecida pelas intermináveis guerras do homem, pelos idosos negligenciados, os abusos contra o meio ambiente. "Não é possível cortar árvores e destruir a terra sem uma resposta dos céus", disse Ai, enquanto entardecia e os monges e monjas se retiravam para suas tendas.

Ainda assim, Ai disse que acha que algum bem pode resultar da calamidade. Na cidade, ela ficou tocada pela visão de estranhos ajudando uns aos outros. Talvez as pessoas aprendam o que ela e outros taoístas devotos consideram como elementos de uma vida harmoniosa: autodisciplina, gentileza e a busca da simplicidade. "Talvez as pessoas aprendam que não é possível viver uma vida corrompida sem conseqüências", ela disse. "Talvez este terremoto possa nos redimir." George El Khouri Andolfato

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