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24/05/2008

Uma 'doença mental' atinge os franceses: a Sarkose obsessiva

The New York Times
Steven Erlanger

Em Paris
Serge Hefez, um psiquiatra, identificou uma nova doença mental entre os franceses: Sarkose obsessiva, uma fascinação prejudicial pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy.

"Enquanto escutava meus pacientes durante as consultas, muitos deles mencionavam Sarkozy pelo nome", disse Hefez. "Ele penetrou em algumas de suas fantasias mais profundas. Eu notei toda esta paixão em pessoas que falavam dele e achei que havia algo em particular a respeito deste homem -ele é como um reflexo nosso no espelho."

Os franceses também se projetam em Sarkozy, disse Hefez.

Yoan Valat/EFE - 17.mar.2008
O presidente da França Nicolas Sarkozy
"Ele é a encarnação do homem pós-moderno, obcecado por si mesmo, voltado ao prazer, autônomo e narcisista", disse o psiquiatra. "E ele exibe suas alegrias e tristezas, toda sua vida privada, suas dúvidas sentimentais e prazeres. Ele representa o individualismo da sociedade ao extremo, no qual é o indivíduo que conta, não a sociedade."

Um ano após assumir a presidência, Sarkozy parece estar em toda parte, pelo menos no mundo da televisão e nas publicações. O jornal "Le Figaro" conta pelo menos 100 livros dedicados ao presidente francês, sua vida e amores, com mais de um milhão de exemplares vendidos, por US$ 25,1 milhões.

Alguns dos títulos exibem a fúria e fascinação estimulada por Sarkozy: "O Rei está Nu", "O Homem Que Não Sabe Como Fingir"; "O Liquidante"; "Ele Deve Partir!"; "O Dever da Insolência"; e "Saltos e Cambalhotas no Elysée".

Hefez analisou esta obsessão em um artigo e então em seu próprio livro, "Obsessive Sarkosis" (sarkose obsessiva), na qual ele identifica doenças relacionadas, como sarkofrenia e sarkonóia.

No mês passado, a revista "Paris Match" exibiu uma charge de Jean-Jacques Sempe na qual uma mulher falava com um psiquiatra, dizendo: "Eu estou muito preocupada. Domingo, no Louvre, eu perguntei ao guarda onde encontrar o sarkozycófago egípcio. No jantar com um musicólogo, eu disse duas vezes que minha ópera favorita é 'Sarkozy Fan Tutte'. Eu gostaria de saber se isso é sério e se tem cura".

A televisão cobre cada gesto de Sarkozy, tanto em homenagem quanto zombaria, em um esforço para criar um distanciamento do fenômeno que perpetua e amplia. Tudo faz parte do que os franceses passaram a chamar de "pipolização" da vida política, um termo, supostamente derivado da revista "People", que se refere à idolatria às celebridades e novelas. Hefez considera a tendência um exemplo da "democracia se voltando contra si mesma, como Tocqueville previu".

Mas Hefez também foi infectado pela doença que foi um dos primeiros a diagnosticar. E como qualquer bom analista, ele está plenamente ciente do problema, e da ironia. A reação acalorada ao seu artigo "foi interessante para um psiquiatra e não me surpreendeu", ele disse, rindo, "porque corresponde precisamente à obsessão".

O jornal "Libération" publicou fotos de modelos que parecem Sarkozy e sua terceira esposa, Carla, "em casa" no Palácio do Elysée. O sósia de Sarkozy se exercitava usando Ray-Ban e uma camiseta molhada do Departamento de Política de Nova York, enquanto Carla Sarkozy, em jeans apertados, o observava com adoração, com um violão no colo. Em outra das fotos, de Bruce Gilden, um presidente preocupado deposita sua cabeça no colo da esposa de minissaia, enquanto ela exibe olhar distante.

Na última das fotos, o presidente, de cueca samba canção e meias seguras por ligas elásticas, com peito nu, se senta à beira da cama, olhando para o vazio, enquanto sua esposa, levantada e vestindo camisola de seda, olha para baixo para a nuca dele.

Para Hefez, o rápido casamento de Sarkozy com a linda modelo rica e estrela pop diz muito. "Ela é o equivalente feminino perfeito -muito fascinante, muito narcisista, muito ocupada consigo mesma", disse Hefez.

Para os franceses, foi muita coisa, rápido demais. O novo relacionamento de Sarkozy, que veio a público no nada presidencial e nada francês parque temático da EuroDisney, menos de dois meses após o anúncio de seu divórcio com Cécilia, sua esposa por 11 anos, foi visto na consciência coletiva como uma espécie de "traição da intimidade, da amizade", com o povo francês, disse Hefez.

"É verdade que ele está apaixonado e que isso o equilibrou, mas os franceses perderam a confiança nele", disse o psiquiatra. "Todos os presidentes mentem, mas está é uma traição da amizade."

A paixão azedou, disse Eric Empatz, editor-chefe do "Le Canard Enchaîné", um semanário que combina sátira e reportagem investigativa. "Esta obsessão dos franceses com Sarkozy mudou e se tornou negativa", disse Empatz. "A obsessão continua, igualmente passional, mas agora é negativa. Neste aspecto, ela também é como um caso amoroso ruim."

Com seu índice de aprovação em baixa histórica, Sarkozy tem seguido o conselho, incluindo o de sua esposa, de parecer mais presidencial em público e aparecer com menos freqüência. Os adereços de amigos ricos e relógios grandes e extravagantes foram substituídos por discrição, seriedade e aparições cuidadosamente preparadas.

"Ele fascina a todos", disse um amigo que conhece bem Sarkozy e não quis ser identificado falando a respeito dele. "Ele é passional e polariza as pessoas."

Os franceses sentem uma intimidade com ele como se fosse alguém como eles, mas também querem um presidente semi-régio que represente o país. "Logo, há este ligeiro desalinhamento entre o homem com o qual se identificam e esta expectativa que têm do presidente, de qualquer presidente", disse o amigo. "Então some a isto dinheiro demais, ou sinais muito visíveis disso, o que remete ao relacionamento engraçado que os franceses têm com o dinheiro." O resultado, disse o amigo, é decepção.

O divórcio e novo casamento incomodaram ainda mais os franceses. "Ele era deles, e então de repente ele passou a ser dela, e agora ele precisa restaurar esta sensação de 'Eu sou de vocês, porque estou aqui para servir o país'", disse o amigo, suspirando. "O que é sem dúvida o caso, mas ele precisa demonstrar."

O site de notícias "Rue89" perguntou: "Após um ano de dependência, como podemos deixar de estar sarkotoxicados?"

Até o momento, parece não haver cura. George El Khouri Andolfato

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