UOL Notícias Internacional
 

25/05/2008

Friedman: a loteria para uma vida melhor

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
De vez em quando, como jornalistas, vemos uma cena que nos capta e não nos deixa em paz, uma cena que ao mesmo tempo é tão enaltecedora e tão cruel que é difícil até mesmo transmiti-la em palavras. Presenciei uma cena dessas no fim de semana passado no Colégio Notre Dame de Maryland, em Baltimore. Era na verdade um sorteio de loteria, mas não de uma loteria qualquer. O vencedor não ganhava dinheiro, mas um ingresso para uma vida melhor. Aos perdedores restavam as esperanças e os bilhetes de loteria amassados.

O evento era uma loteria para escolher os primeiros 80 alunos que iriam cursar um novo internato - o colégio SEED de Maryland - em Baltimore. Fui até lá porque minha mulher faz parte do conselho da Fundação SEED. A fundação inaugurou sua primeira escola há dez anos em Washington, D.C., e tratava-se da primeira escola pública urbana de preparação para a universidade em regime de internato. Baltimore é o seu segundo campus. A grande maioria dos alunos é negra, vinda dos distritos escolares mais violentos e desfavorecidos.

A SEED de Maryland estava admitindo garotos e garotas a partir da sexta série. Eles irão viver em um dormitório - isolados do tumulto de seus bairros. Em Washington, quase todos os formados pela SEED saíram para cursar quatro anos de universidade, incluindo Princeton e Georgetown.

Porque suas escolas são financiadas tanto por fundos públicos quanto privados, a SEED pode oferecer esse tipo de educação preparatória única, em classes pequenas, de graça, mas ela não pode escolher seus alunos a dedo. A seleção tem de ser aberta para todos que queiram participar dela. O problema é que muita gente concorre, então ela é obrigada a escolher os alunos através de um sorteio público. A SEED de Maryland teve mais de 300 inscrições para 80 vagas.

As famílias se amontoaram no auditório da escola Notre Dame, segurando seus números de loteria como se fossem rosários. No palco, havia dois desses globos usados em jogos de bingo patrocinados pelas igrejas. Cada bola de pingue-pongue dentro deles levava o número de um aluno inscrito. Uma a uma, elas iam rolando para fora quando o voluntário da loteria parava o globo; o número era lido e alguém na audiência chorava de alegria, enquanto todos os demais se afundavam um pouco mais nas cadeiras. Um lugar a menos disponível...

Era impossível olhar todas aquelas bolas se debatendo dentro do globo e não vê-las como as próprias pessoas que estava no auditório, debatendo-se por dentro, esperando para ver quem seria o próximo sortudo a escorregar para fora e ser abençoado. Não admira que houvesse um retrato de esperança e ansiedade em cada um dos rostos ali.

"Estou com muita esperança em relação à escola e extremamente ansiosa em relação ao que vai acontecer com os alunos que não conseguirem entrar", disse Dawn Lewis, diretora da escola SEED Maryland. "Durante os seis ou sete meses de recrutamento, ouvimos as histórias dos problemas que essas crianças enfrentam em suas escolas, e toda vez (os pais) nos diziam 'Esse tipo de escola é a resposta - é o que as crianças precisam para serem bem sucedidas'. Quando estávamos encerrando as inscrições, recebemos tantas cartas de conselheiros escolares, professores e diretores, e até mesmo pastores dizendo: 'Por favor, libere esse aluno do sorteio - porque sem essa oportunidade, ele não terá chance, e pode não haver outra oportunidade.'"

Se você acha que os pais de alunos dos piores bairros da cidade não aspiram por algo melhor para seus filhos, uma loteria como essa pode dissipar essa ilusão bem rápido.

Lewis disse que já viu pais viciados em crack levando seus filhos para a escola. "Já tivemos pais que chegaram em nosso escritório claramente fora de si", disse ela. "Eles não conseguiam ler nem escrever, mas foram até lá e disseram: 'Preciso de ajuda para fazer a inscrição' para o filho ou a filha. As famílias querem o melhor para seus filhos. Se têm oportunidade, não querem que seus filhos herdem seus problemas. {pausa} Essas aspirações são raramente atendidas."

Lewis diz que ela e seus colegas recebiam pais implorando para que seus filhos entrassem na escola, ajudavam eles a preencherem as inscrições e, depois que os pais iam embora, entravam em seus escritórios, fechavam a porta e choravam.

O filho de Tony Cherry, Noah, de 11 anos de idade de Baltimore County, foi um dos felizardos cujo número foi sorteado na loteria. "O professor dele disse que se ele fosse sorteado iriam fazer uma festa", disse Cherry. "Essa é uma boa oportunidade. Vai lhe dar uma chance. {pausa} Gostaria que eles pudessem aceitar todas as crianças."

Nem todos os escolhidos estavam presentes, disse Carol Beck, diretora de desenvolvimento de novas escolas da SEED. Então, na segunda-feira, a SEED avisou os que haviam sido sorteados. "Ligamos para uma conselheira escolar no dia seguinte e dissemos que fulano de tal havia sido escolhido", disse Beck, "e ela respondeu: 'Obrigada. Vocês acabaram de salvar a vida dessa criança."

Há tantas boas razões para colocar um fim à nossa reconstrução no Iraque e retomar a reconstrução dos Estados Unidos, mas nenhuma é mais importante que essa: há algo de errado quando o futuro de uma criança depende do quicar de uma bola de pingue-pongue. Eloise De Vylder

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