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25/05/2008

Walt Disney dos games: conheça o pai de Donkey Kong, Mario Bros. e Zelda

The New York Times
Seth Schiesel
Está certo comparar Shigeru Miyamoto a Walt Disney. Quando Disney morreu, em 1966, Miyamoto era um rapaz de 14 anos, filho de um professor, que morava perto de Kyoto, a antiga capital do Japão. Um aspirante a cartunista, ele adorava os personagens clássicos de Disney. Quando não estava desenhando, fabricava seus próprios brinquedos, esculpindo bonecos de madeira com as ferramentas de seu avô ou criando uma corrida de carros com um motor velho, barbante e latas.

Mesmo depois de se tornar o mais famoso e influente criador de videogames do mundo -o pai de Donkey Kong, Mario, Zelda e, mais recentemente, de Wii-, Miyamoto ainda encara seu trabalho como um humilde artesão, e não como a celebridade que ele é para jogadores de todo o mundo.

Sentado na beirada de uma cadeira em uma suíte de hotel algumas dezenas de andares acima do centro de Manhattan, Miyamoto, 55 anos, que parece um eterno querubim, irradiava a felicidade de alguém que sempre quis divertir. E conseguiu. Como a principal mente criativa da Nintendo há quase três décadas, ele gerou entretenimento de massa com uma escala global, durabilidade cultural e sucesso financeiro que não foram superados desde a fabulosa carreira de Disney.

Michael Nagle/The New York Times
Miyamoto, o Walt Disney dos games
No Ocidente, provavelmente Miyamoto teria fundado sua própria empresa há muito tempo. Teria ganhado bilhões e se firmado como uma celebridade do entretenimento. Em vez disso, apesar de ser como um rei na Nintendo e uma figura cultuada, ele quase parece um simples empregado (embora especialmente criativo e feliz), com uma mulher e dois filhos em idade escolar em sua casa perto de Kyoto. Ele não serve de material para os tablóides e parece manter um estilo de vida relativamente banal.

"O importante é que as pessoas com quem eu trabalho também sejam reconhecidas, e que a marca Nintendo avance e continue se tornando forte e popular", ele disse, comparando o papel de Walt Disney na grande marca com o seu. "E se as pessoas considerarem a marca Nintendo no mesmo nível da marca Disney, é muito lisonjeiro e me deixa feliz", ele acrescentou, por meio de um intérprete. (Ele entende inglês, mas só fala algumas frases, o que o diverte muito, já que seu pai era professor de inglês.)

Mario, o encanador italiano bigodudo que ele criou há quase 30 anos, tornou-se em certa medida o personagem de ficção mais conhecido do planeta, só rivalizado por Mickey Mouse. Como criador das séries Donkey Kong, Mario e Zelda (que coletivamente venderam mais de 350 milhões de cópias) e a pessoa que em última instância supervisiona todos os jogos da Nintendo, Miyamoto talvez seja pessoalmente responsável pelo consumo de mais bilhões de horas de tempo humano do que qualquer outra pessoa. Na pesquisa online Time 100 realizada nesta primavera, Miyamoto foi votado como a pessoa mais influente do mundo.

Mas não são apenas os jogadores tradicionais que acorrem para a última criação de Miyamoto, os Wii. Dezoito meses atrás, exatamente quando os videogames estavam em perigo de desaparecer no mundo-nicho dos fanáticos, Miyamoto e Satoru Iwata, executivo chefe da Nintendo, praticamente reinventaram a indústria. (O título completo de Miyamoto é diretor gerente sênior e gerente geral da divisão de análise e desenvolvimento de entretenimento da Nintendo.)

Sua idéia foi revolucionária pela simplicidade: em vez de criar uma nova geração de jogos que atrairia os jogadores tarimbados, eles desenvolveram o Wii como uma diversão barata e fácil de usar para famílias (com um apelo especial para as mulheres, um público geralmente imune à atração dos videogames tradicionais). Até agora o Wii vendeu mais de 25 milhões de unidades, superando a concorrência da Sony e da Microsoft.

Em uma tentativa de reforçar seu sucesso, na semana passada a Nintendo lançou na América do Norte seu novo sistema "Wii Fit", um dispositivo que pretende transformar os exercícios de ioga diante da televisão em algo quase tão divertido quanto dirigir, saltar ou atirar em um jogo tradicional. Apesar de ainda não haver números de vendas disponíveis, havia informações de lojas nos EUA que tinham esgotado seu estoque de Wii Fit.

Em uma cultura de mídia global dominada por rostos, gostos e marcas americanos, os videogames são a exportação cultural de maior sucesso do Japão. E sobre a força do Wii e do sistema de jogos DS a Nintendo tornou-se uma das empresas mais valiosas do Japão. Com um valor líquido de cerca de US$ 8 bilhões, seu ex-presidente Hiroshi Yamauchi é hoje o homem mais rico do Japão, segundo a revista "Forbes". (A Nintendo não revela os honorários de Miyamoto, mas parece que ele não entrou para as fileiras dos super-ricos.) "Sem Miyamoto a Nintendo estaria novamente fazendo baralhos", disse Andy McNamara, editor-chefe da principal revista de jogos, "Game Informer", referindo-se aos negócios originais da empresa em 1889. "Ele provavelmente inspira 99% dos desenvolvedores. Você pode até dizer que hoje não haveria videogames se não fosse por Miyamoto e a Nintendo. Ele é o avô de todos os desenvolvedores de jogos, mas o divertido é que apesar de todo o seu legado, apesar de todos os personagens icônicos que criou, ele continua ampliando os limites com coisas como Wii Fit."

Miyamoto formou-se na faculdade de artes Kanazawa em 1975 e entrou para a Nintendo dois anos depois, como simples artista. O "Donkey Kong" original foi uma força vital no primeiro surto de popularidade dos jogos, juntamente com clássicos "arcade" como "Space Invaders", "Asteroids" e "Pac-Man".

Ele subiu rapidamente na companhia, e seu nome tem sido sinônimo de Nintendo desde a década de 1980, quando os primeiros jogos "Mario Bros." ajudaram a salvar a indústria depois do colapso da Atari, fabricante do primeiro console de jogos de ampla popularidade. Quando a Atari faliu por causa de uma série de jogos impopulares, a Nintendo reacendeu a fé nos sistemas de jogos domésticos: o Nintendo Entertainment System, lançado no Ocidente em 1985, tornou-se o console mais vendido de sua era.

Desde então Miyamoto participou diretamente da produção de pelo menos 70 jogos, incluindo sucessos recentes como "Mario Kart Wii", "Super Smash Bros. Brawl", "Super Mario Galaxy" e "The Legend of Zelda: Twilight Princess". Miyamoto supervisiona cerca de 400 pessoas, incluindo firmas terceirizadas, quase totalmente no Japão. Os populares novos lançamentos de jogos clássicos mantiveram a credibilidade entre os jogadores tarimbados enquanto ele buscava novos públicos com produtos para o mercado de massa como Wii.

Em todos os seus jogos, os desenhos são marcados por um acúmulo de cuidado e detalhes. Não há nada objetivo em por que um sujeito ridículo de macacão azul como Mario deva atrair tanta gente, assim como não há nada objetivo em como a Disney poderia ter construído uma companhia com animais falantes. Principalmente, o motivo pelo qual eu fazia fila na pizzaria mais de 20 anos atrás para jogar Super Mario Bros., o motivo pelo qual Miyamoto é quase um deus vivo no mundo dos jogos, é que seus games têm uma atração inefável que inspira as pessoas a colocar só mais uma moeda de 25¢ (hoje em dia ficar só mais uma hora no sofá).

Assim como um filme não é medido pela qualidade de seus efeitos especiais, um jogo não é medido simplesmente por seus desenhos. Esse conceito se perdeu para muitos desenhistas, mas não para Miyamoto. E assim como um cinéfilo pode preferir assistir a um velho filme preto-e-branco em vez de, digamos, "Iron Man", os primeiros jogos de Miyamoto continuam sendo diversões válidas. (A história de dois homens lutando pelo recorde mundial em "Donkey Kong" foi transformada em filme no ano passado, "The King of Kong".)

"Há muito poucas pessoas na indústria de videogames que conseguiram sucesso constantemente e em nível mundial, e Miyamoto é um deles", disse em entrevista por telefone Graham Hopper, veterano e vice-presidente executivo e gerente geral dos Estúdios Interativos Disney. "O nível de sucesso criativo que ele conseguiu por um período prolongado é provavelmente inédito."

Como sua galeria de personagens inclui não apenas Mario e Donkey Kong, mas também Princess Peach, Zelda, Bowser e Link, é fácil imaginar que Miyamoto crie seus jogos em torno desses personagens.

A verdade é exatamente o contrário. Segundo ele, os sistemas e a mecânica dos jogos sempre vêm em primeiro lugar, enquanto os personagens são criados e utilizados a serviço do projeto geral. Isso significa um enfoque para os aparentemente prosaicos elementos básicos do projeto de jogos: movimento, cenários, objetivos a alcançar e obstáculos a superar.

"Eu acho que as pessoas gostam de Mario, de Link e dos outros personagens que criamos não por causa dos personagens em si, mas porque os jogos em que eles aparecem são divertidos", disse Miyamoto. "E como as pessoas gostam de jogar esses jogos, em primeiro lugar, elas passam a gostar também dos personagens."

O trabalho de Miyamoto está evoluindo de uma dependência de personagens inventados e cenários elaborados como o Reino dos Cogumelos de Mario ou o mítico Hyrule de Zelda. Com jogos como "Nintendogs" (inspirado por seu cachorro pastor de Shetland), "Wii Sports", "Wii Fit" ou o próximo "Wii Music", Miyamoto está gravitando para os hobbies comuns: animais de estimação, boliche, ioga, bambolê, música. É como se um artista que tivesse dominado o abstrato finalmente se movesse para o realismo.

"Eu diria que nos últimos cinco anos aproximadamente os tipos de jogos que eu crio mudaram um pouco", ele disse. "Enquanto antes eu podia usar minha imaginação para criar esses mundos ou criar os jogos, eu diria que nos últimos cinco anos eu tive uma tendência maior a buscar interesses ou temas em minha vida e tentar extrair deles a diversão."

Mostrou-se uma estratégia perfeita, enquanto a Nintendo busca não-jogadores que talvez não entendam por que esse encanador frenético continua saltando sobre tartarugas, ou por que o sujeito galante de verde tem de continuar resgatando a mesma princesa sem parar. Neste momento, quando os consumidores desejam a capacidade de moldar e tornar-se parte do entretenimento, seja através de MySpace ou de "American Idol", o último astro no elenco de personagens da Nintendo é você -ou melhor, Mii, o avatar que os usuários de Wii criam de si mesmos.

"Eu vejo os Mii como a mais recente criação de personagens da Nintendo", disse Miyamoto. "O interessante é que, não importa a idade do usuário, se ele estiver olhando para um Mii, é o Mii dele. Antes, quando você jogava como outro personagem, era mais típico de entretenimentos mais passivos, e ao criar um Mii você se torna mais parte da experiência do entretenimento."

A Nintendo deverá divulgar mais detalhes sobre "Wii Music" neste verão, mas o conceito básico é que, enquanto jogos de música populares como "Guitar Hero" e "Rock Band" permitem que os jogadores recriem canções já gravadas, "Wii Music" tentará permitir que os usuários captem a sensação de compor e improvisar.

Miyamoto cresceu ouvindo música ocidental como os Beatles e o Lovin' Spoonful. Ele toca piano e banjo e, como amante de "bluegrass", imediatamente reconheceu o nome de Ricky Skaggs quando soube durante um jantar em Manhattan que Skaggs se apresentaria na cidade dali a alguns dias. Miyamoto até brincou sobre prolongar sua estada para assistir ao show. (Não o fez.)

"Estamos tentando criar uma experiência em que as pessoas sejam simplesmente capazes de ter a sensação de como é criar música", ele disse.

Com um histórico como o seu, seria tolice não levá-lo a sério. Ninguém entende mais de diversão que o Walt Disney da geração digital. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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