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26/05/2008

Quem é a morsa? Não, não é apenas uma música dos Beatles

The New York Times
Natalie Angier
Eu estava prestes a encontrar uma morsa pela primeira vez na minha vida, e estava animada. Afinal, Ronald J. Schusterman da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, que estuda esses animais há anos, havia me assegurado pelo telefone que quem encontra uma morsa, se apaixona por elas - os mamíferos são inteligentes, amigáveis e brincalhões. "Eles são como gatinhos de estimação!", disse.

Mas quando estávamos entrando na casa da morsa no Six Flags Discovery Kingdom em Ballejo, Califórnia, Schusterman jogou um conselho no ar. "A primeira coisa que as morsas fazem quando se aproximam é empurrar você, pressionando nossa barriga com a cabeça", disse. "Não deixe elas te derrubarem. Não importa quão forte elas empurrem, você tem de se manter firme."

Parei de súbito, confusa.

"Se você não ficar firme, você será derrubada ou encurralada contra uma parede em segundos", disse Schusterman.

Karen Frey, Clark University/The New York Times 
Morsas permanecem pouco conhecidas, exceto pela canção dos Beatles "I Am the Walrus"

Mas, mas [reticências], balbuciei. Como é que eu podia me manter firme contra um animal do tamanho de um Honda Civic? Isso soava cada vez menos como "amigáveis e brincalhões" e mais como "agressivos e possivelmente perigosos."

"É só empurrar o focinho com a palma da mão e assoprar na cara delas", instruiu Schusterman. "Uma morsa adora ser assoprada na cara."

E de repente lá estava eu no cercado, cada segundo parecendo interminável enquanto observava Sivuqaq, um macho adulto de uma tonelada, rolando na minha direção como uma rocha gelatinosa e bigoduda e mirando direto no meu plexo solar. De alguma maneira, seja por orgulho profissional ou absoluto terror, consegui ficar em pé no lugar e levantei a palma da mão; quando Sivuqaq encostou seu focinho gentilmente contra ela, todos os meus medos foram embora. Alisei seus impressionantes bigodes, pêlos duros e sensíveis que as morsas usam para procurar por moluscos bivalves no fundo escuro e lamacento do mar, pareciam finos galhos de bambu. Então assoprei em seu focinho, e ele fechou os olhos pela metade, então assoprei mais forte e ele se inclinou na direção do sopro, enquanto gania, rugia e fungava pedindo mais.

No panteão público dos mamíferos marinhos, os golfinhos são adorados, as baleias reverenciadas e os bebês foca fazem desmaiar ex-Bond girls. Mas as morsas permanecem perversa e desastrosamente no anonimato, conhecidas principalmente por sua ligação musical com um carpinteiro [num poema de Lewis Carroll no livro "Atrás do Espelho e o que Alice Encontrou Lá"], com o "eggman" e "goo goo goo joob" [da música dos Beatles, "I Am the Walrus"]. Ao que Schusterman e seus colegas são capazes de responder com uma sonora buzinada.

O Odobenus rosmarus é uma criatura magnífica, dizem, do ponto de vista comportamental, anatômico e acústico e até na taxonomia ela tem uma categoria só para ela. A morsa pertence à sub ordem dos pinípedes, o grupo de carnívoros de corpos cheios de gordura e com pés em forma de nadadeiras, que inclui as focas e leões marinhos.

Mas enquanto há 19 espécies na família das chamadas focas verdadeiras, e 14 na família das focas com pêlo e leões marinhos, a morsa é o único representante vivo da família Odobenidae, aqueles que andam com os dentes. E apesar de a morsa ser uma espécie do ártico e assim muito mais difícil de ser estudada em seu habitat natural do que os elefantes e leões marinhos que rolam pelas praias do norte da Califórnia, os cientistas estão reunindo evidências de que o Odobenus é o integrante mais sofisticado do ponto de vista cognitivo e social entre os pinípedes.

"Trabalho com mamíferos marinhos há muito tempo, incluindo muitas espécies de pinípedes, mas nunca conheci nada como as morsas", diz Colleen Reichmuth do Laboratório Long Marine na Universidade da Califórnia, Santa Cruz. "Elas são fantásticas."

Ela e seus colegas se desesperam pelo futuro das morsas. Como o urso polar, espécie que teve sua proteção decretada sob o Ato de Espécies Ameaçadas na semana passada, a morsa depende dos ritmos sazonais da camada de gelo polar durante todas as fases de sua vida, o que significa que ela é particularmente vulnerável ao aquecimento do clima terrestre e ao recuo da camada de gelo.

A morsa poderia bem ser parceira de qualquer um dos famosos animais intelectuais de várias espécies que não a humana: Flipper, Willy, Alex o papagaio cinza, ou o chimpanzé bonobo Kanzi. Conforme os pesquisadores provaram recentemente, a morsa tem em comum com as outras espécies de cérebros grandes um período de infância excepcionalmente longo. Os filhotes de morsa ficam com suas mães por muitos anos, se comparado às várias semanas ou meses dos filhotes dos outros pinípides, e essa dependência "poderia muito bem dar uma oportunidade de aprendizado", diz Reichmuth, particularmente no que diz respeito às relações sociais das morsas.

As evidências sugerem que a ligação entre as morsas é excepcionalmente forte: os animais dividem a comida, ajudam uns aos outros quando são atacados e cuidam dos filhotes que não são seus, comportamento digno de ser ressaltado dado o custo energético para produzir o gordo leite dos pinípides, rico em calorias.

"As morsas são bastante gregárias, e gostam de estar perto de outras morsas", diz Chad Jay, que chefia o programa de pesquisa de morsas no Centro de Ciências do Alaska da organização U.S. Geological Survey, em Anchorage. "Elas gostam de ficar juntas, tocando umas às outras, socializando. Mesmo quando está quente e elas têm muito espaço, preferem ficar emboladas umas em cima das outras."

As morsas querem tanto ficar com outras morsas que se não há outras morsas por perto, elas procuram ficar próximas de qualquer objeto grande que esteja disponível.

Lee Cooper do Centro de Ciências Ambientais da Universidade de Maryland contou que na sua expedição de 2004 a bordo de um navio de pesquisa no Estreito de Bering, a equipe encontrou alguns filhotes de morsa que havia de alguma forma se separado de suas mães, e, nossa, como os filhotes ficaram animados ao ver o barco e a equipe, e como eles tentavam desesperadamente subir a bordo.

"Quando eles vêem esse grande barco vermelho e branco, devem achar que é um grande iceberg e que as pessoas andando sobre ele são qualquer coisa como morsas", disse Cooper. Infelizmente, o navio estava longe da costa e não tinha os meios para servir de navio de resgate, disse Cooper, assim a equipe não teve outra escolha a não ser deixar os filhotes de morsa para trás.

Os filhotes também devem precisar de tempo para brincar - na verdade, para fazer música. Descobriu-se que o Odobenus é um gênio acústico, e seu corpo é uma banda completa. Os machos cortejam as fêmeas com composições longas que já foram comparadas às cantigas dos rouxinóis e das baleias jubarte pela complexidade de sua estrutura e frases, mas que usam mais partes do corpo para serem produzidas.

As morsas cantam com seus lábios carnudos e cheios de músculos, com suas línguas, focinhos e narinas. Eles cantam batendo as nadadeiras contra o peito para atingir suas bolsas faríngeas, extensões da traquéia em forma de balão que são únicas aos Odobenus e que também servem para sua flutuação.

Em plena época de acasalamento, os machos soam como um circo, uma construção, ou um desenho animado do Papa-Léguas. Eles assoviam, bipam, rangem, fazem sons de batidas e latidos. Eles fazem som de campainha, de britadeira, de locomotiva de trem e o som elástico do "boing" de quando o coiote bate a cabeça. Eles misturam e combinam seus boings, campainhas e batidas, aumentam e diminuem sua velocidade, vocalizam debaixo d'água, no ar, e na fronteira de borbulhas entre os dois. Eles cantam sem parar por dias, e as músicas podem ser ouvidas em até 15 quilômetros de distância. Eles ouvem a si mesmos, pegam dicas uns dos outros e mudam sua música conforme pedem o tempo e o gosto.

Ninguém ainda sabe o que é que uma fêmea escuta enquanto ouve um ou mais pretendentes cantando, mas ela aparentemente ouve, já que eventualmente sai de seu abrigo no gelo e mergulha na água para acasalar com um macho afinado, e as evidências sugerem que as fêmeas evitam os machos que não conseguem cantar. E apesar de as fêmeas no habitat natural não cantarem como os machos, elas têm os componentes anatômicos necessários para fazer música e são capazes de apresentar toda a lista de sucessos das morsas quando recebem a recompensa apropriado - como a promessa de comida ou de um agrado de Leah Coombs, uma das experientes treinadoras no parque Six Flags.

Na edição de dezembro do jornal Animal Cognition (Cognição Animal), Schusterman e Reichmuth descreveram suas tentativas de explorar a extensão dos talentos vocais das morsas, e a capacidade dos animais de criarem seqüências acústicas quando estimulados.

Treinadores experientes trabalharam com morsas de 12 anos de idade, o macho Sivuqaq e a fêmea Siku (ambos nomes não Inuit), reforçando os comportamentos dos mamíferos ao dar ou recusar as recompensas de comida e fazendo com que as morsas ficassem cada vez mais com fome para gerar sons novos e combinações diferentes.

A dimensão da criatividade das morsas excedeu todas as expectativas, não somente durante as sessões de treinamento, mas também durante o período de descanso. Reichmuth disse que uma das morsas descobriu como usar um brinquedo de borracha na piscina como instrumento ao pressioná-lo contra uma janela e assoprando nele até que soasse como uma corneta. Logo duas outras morsas da piscina aprenderam o truque.

"Usar uma ferramenta para produzir um som novo, e aprender esse comportamento socialmente", disse Reichmuth, "isso sim é impressionante."

Por mais impressionantes que esses talentos musicais possam ser, e por mais indispensáveis que sejam para as perspectivas de reprodução de uma morsa macho, a infra-estrutura elaborada por trás deles provavelmente evoluiu por razões alimentares em vez de artísticas. Acredita-se que os pinípides sejam descendentes de ancestrais parecidos com os ursos terrestres que, há cerca de 30 milhões de anos, tornaram-se "anfíbios" para explorar melhor as presas marinhas.

As morsas se concentram num segmento específico do mercado de frutos do mar: moluscos bivalves como as ostras e mexilhões e outros invertebrados que vivem na zona bentônica, o fundo enlamaçado das águas rasas do litoral.

Elas comem um número gigante de bivalves, talvez 7 mil por dia. Elas se esgueiram pelo fundo, com seus bigodes investigando a superfície para sentir algo que denuncie os moluscos enterrados. Então retiram suas presas cavando com as nadadeiras, ou então sugando água e cuspindo-a em jatos direcionados. Elas são capazes de localizar, escavar e extrair a carne de uma ostra em cerca de seis segundos, diz Nette Levermann, da Universidade de Copenhagen, "e tudo isso sem a ajuda de mãos e na escuridão total."

As morsas têm um controle muscular inacreditável sobre toda a região do focinho, diz Reichmuth, "que se você deixar cair um pequeno pedaço de peixe nos bigodes, longe da boca, elas podem movê-lo até a boca". Esse equipamento de precisão para se alimentar em determinado momento foi recrutado para fazer um segundo turno cantando canções de amor de morsa e permitindo as conversas entre as morsas.

O menu das morsas ajuda a explicar a sua existência no ártico e sua vida baseada no gelo. Os animais que se alimentam nas regiões bentônicas se dão melhor em águas frias, diz Jacqueline M. Grebmeier do grupo de biogeoquímica e ecologia da Universidade de Tennessee, Knoxville. Em águas frias, a matéria orgânica como as algas tendem a cair direto para o fundo para nutrir as conchas e vermes que ficam lá, em vez de serem consumidos no topo como acontece nos mares mais tropicais. Quanto mais generosa a alimentação dos bivalves, mais bivalves para as morsas.

As placas de gelo sobre esses fartos campos de caça por sua vez oferecem às morsas uma plataforma para que elas descansem e cuidem de seus filhotes. O gelo também serve como meio de transporte, já que quando recua e avança conforme as estações, as morsas são convenientemente levadas para novas regiões bentônicas.

Uma morsa está totalmente adaptada para a vida no gelo. Sua camada de 7 centímetros de gordura e pele mantém a temperatura de seu corpo, enquanto que com seu par de longos dentes caninos, sua marca registrada, ela pode sair da água e subir no gelo escorregadio. Eloise De Vylder

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