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26/05/2008

Só as câmeras perseguem Salman Rushdie agora

The New York Times
Patricia Cohen
Não se pode confiar no registro escrito sobre o mais novo romance de Salman Rushdie, "The Enchantress of Florence" ("A Sedutora de Florença"), uma história que vagueia entre o palácio em arenito vermelho do grande imperador mongol Akbar e o Palazzo de Maquiavel em Florença. Um personagem é eliminado da história oficial, de um segundo se imagina a existência, um terceiro é irremediavelmente mal construído.

É uma situação com a qual Rushdie está bastante familiarizado. Em livros e periódicos, fotografias e jornais (como este) que capturam fragmentos da vida contemporânea, ele é muito conhecido por milhões de pessoas que jamais o leram, como um odioso blasfemo do Islamismo, um arrogante e mal-agradecido sujeito britânico, ou o membro de um grupo de autores com preferência por jovens modelos.

"Cria-se uma caricatura de você, que depois é usada para atacá-lo", disse Rushdie durante um almoço em que ele comeu steak tartare, batata frita e uma Diet Coke no Upper East Side em Manhattan.

Nicole Bengiveno/The New York Times 
Rushdie (f) foi condenado pelo aiatolá Khomeini devido ao seu livro "Os Versos Satãnicos"

Infelizmente para Rushdie, nos últimos anos a celebridade caricaturada às vezes ameaçou eclipsar o escritor. "O Chão que Ela Pisa" (1999) e "Fúria" (2001) receberam um duro tratamento de vários críticos. E enquanto seu último romance, "Shalimar o Equilibrista", conquistou algum entusiasmo, John Updike escreveu uma crítica particularmente contundente no The New Yorker, declarando que "Rushdie, como um artista da literatura sofre, eu acredito, pelo fato de ser não apenas um autor, mas uma causa e um mártir da liberdade de expressão". (Rushdie respondeu, em uma entrevista ao The Guardian, de Londres, aconselhando-o a continuar escrevendo as histórias provincianas a respeito de troca de casais nos subúrbios.)

"The Enchantress", que será lançado nos Estados Unidos na terça-feira, pode decididamente trazer de volta aos refletores o livro em vez da tagarelice. Na Grã-Bretanha, onde já foi lançado, a maioria dos críticos ficou encantada. No The Guardian, Ursula K. Le Guin considerou-o "brilhante, fascinante, generoso", enquanto John Sutherland, que já foi duas vezes jurado pata o prêmio literário Man Booker, escreveu no The Financial Times que se ele "não ganhar o Man Booker desse ano, vou temperar com caril minha cópia e comê-la".

Claro que já faz alguns anos desde que Rushdie era apenas mais um escritor. Ele foi catapultado à política global e religiosa quando seu romance "Os Versos Satânicos" levaram o aiatolá Khomeini a lançar uma sentença de morte sobre sua cabeça em 1989. Para ele, desenvolveu-se uma vida de pesadelo na clandestinidade durante quase 10 anos, até que o Irã retirou seu apoio à fatwa. A existência subterrânea foi então seguida por uma outra, povoada de paparazzi, durante a qual ele deixou sua terceira esposa e um filho por Padma Lakshmi, uma modelo nascida na Índia, 23 anos mais jovem que ele, que atualmente apresenta o reality show "Top Chef".

Em junho passado, quando recebeu da rainha Elizabeth o título de cavaleiro, muitos dos problemas que haviam perseguido Rushdie durante os últimos 20 anos foram trazidos de volta, não só entre os muçulmanos em todo o mundo, mas também entre os pares políticos descontentes com o fato de um declarado esquerdista aceitar tal honra imperial, e entre os conservadores que o atacaram violentamente por acreditar que estava de novo colocando em risco a segurança britânica.

"Fiquei bastante magoado e chocado com tais ataques contra mim", disse Rushdie, com suas sobrancelhas em forma de pirâmide e as pesadas pálpebras que se destacam mesmo por trás de finos aros retangulares de óculos. "Não compreendo a animosidade".

Depois, umas semanas mais tarde, ele anunciou que Lakshmi o deixara (ela o informou disso por e-mail). Agora, se Rushdie é visto tomando um drinque com uma atraente mulher, ele provavelmente será saudado com uma manchete do tipo "Salman Rushdie caçando em Midtown," como no mês passado, por uma revista de Nova York.

"Todas as pessoas com as quais eu fui relacionado em tais reportagens não existem", disse, para deixar as coisas bem claras. "Estou totalmente descasado, solteiro e disponível".

O romancista Ian McEwan, uma amigo íntimo há mais de 25 anos, descreve as intrigas em torno de Rushdie como "ossos do ofício".

Ele acrescentou que Rushdie tem uma vasta quantidade de seguidores. Foi possível ver alguns dos fãs de sua literatura numa cerimônia de gala a rigor do Pen Club, cumprimentando Rushdie enquanto ele bebericava um drinque próximo do pesadão barossauro no Museu Americano de História Natural.

(Talvez os fãs de cinema também. Rushdie, que parodiou a si próprio no filme de 2001, "O Diário de Bridget Jones", recentemente apareceu como um ginecologista em "Then She Found Me". "Se Gore Vidal pode, acho que eu também", disse ele referindo-se ao papel de Vidal como o vilão no filme de 1997, "Gattaca, A Experiência Genética".)

Como o próprio Rushdie admite, gosta de sair e reunir-se com as pessoas, o que dificilmente seria censurável, depois dos anos de clausura obrigatória. "Acho que ajuda muito sair de dentro de mim mesmo" depois de um dia trabalhando, disse, desde que "não fique tão cansado que não possa trabalhar no dia seguinte".

Não ser capaz de trabalhar foi um dos terríveis efeitos colaterais de seu rompimento com Lakshmi, disse Rushdie. Ele descreveu a separação como "uma bomba atômica jogada no meio da sua sala enquanto você está tentando trabalhar".

No final, ele diz, "uma vida de disciplina me levou de volta ao trabalho".

Beleza e traição são os elementos de "Enchantress". "Que uma mulher tão bela não fosse meiga, é algo que eu não esperava", diz o amante da misteriosa Qara Koz quando ela o abandona. "Eu não espero que ela me abandone tão despreocupadamente, como se estivesse trocando de sapato".

"Eu não esperava que ela partisse o meu coração".

Com tais descrições, é inevitável que os leitores se indaguem se a sra. Lakshmi possa ser um modelo para esse personagem. Ela é, afinal, uma beleza reconhecida.

Sim, disse Rushdie com uma risada, "mas nem todas as belas mulheres são minhas ex-esposas".

"Mesmo em 'O Chão que Ela Pisa', um romance que escrevi bem antes de conhecer Padma, as pessoas agora o descrevem como um livro que escrevi sobre ela. Não foi", diz ele com ênfase.

Se seu mais recente romance é sobre a beleza, também é sobre história, religião, Ocidente versus Oriente - temas que há muito animam os escritos de Rushdie. Ele começa com um misterioso ocidental loiro viajando para ver o imperador na nova capital, Fatehpur Sikri, para revelar uma história fantástica, que ele conta aos poucos, em episódios cativantes, como Sherazade. O "Mogor dell'Amore", ou o Mogol do Amor, um dos vários nomes que o viajante adota, diz a Akbar que são parentes consangüíneos - uma declaração que conflita com a razão, mesmo que se ignorasse a cor do cabelo do estranho, uma vez que não existia virtualmente qualquer contato entre o Ocidente e o Oriente no século 15.

O pano de fundo de viajante do romance é típico de um artista emigrado como Rushdie, um pioneiro no tipo de literatura que se adota o deslocamento como tema. "Eu de certa forma invejo pessoas como Faulkner e Eudora Welty que ficam em um pequeno pedaço do mundo e isso lhes é suficiente para toda a vida", ele diz.

Rushdie nunca foi assim. Nasceu em Bombaim, agora Mumbai e foi mandado para a Rugby School, o típico internato britânico. Ele se sentiu tão deslocado que jurou, depois de sair, que jamais voltaria a ter contato com nenhuma das pessoas com as quais conviveu naqueles anos lá. ("E nunca tive", ele diz orgulhosamente). Foi para Cambridge e depois se instalou em Londres, embora durante a fatwa estivesse em mudança constante.

Rushdie agora mora em Manhattan. Mas viaja regularmente para Londres para ver a família, e mantém um cansativo roteiro de aulas e programas na América do Norte e Europa. Um tema que aparece repetidamente em "Enchantress" é a ilusão de que se pode regressar para casa depois de uma longa jornada e encontrar a paz.

Em um dia da semana, porém, há poucos dias, ele estava na cidade onde mora, ajudando a receber para um jantar em um hotel em Midtown para cerca de duas dezenas ou mais de escritores que foram a Nova York para o festival literário PEN, um evento que Rushdie tem presidido nos últimos quatro anos. Alguns de seus amigos mais chegados estavam lá, como os escritores Michael Ondaatje e McEwan.

Umberto Eco estava sentado no centro de uma longa mesa estreita, no lado oposto de Rushdie e Diane Von Furstenberg. Ele e Rushdie deveriam viajar para Rochester, Nova York, e depois regressar a Nova York para ir ao 92nd Street Y com Mario Vargas Llosa: uma versão literária em escala menor dos Três Tenores.

Os três compareceram em 1995 ao Royal Festival Hall em Londres. "Dissemos que éramos os Três Mosqueteiros e agora nos reunimos de novo", disse Eco. Para os painéis mais recentes, ele escolheu uma leitura de "O Pêndulo de Foucault", ele disse, porque Rushdie uma vez o estraçalhou no The London Observer. "Sem humor, destituído de caráter, totalmente isento de qualquer coisa que se pareça com palavras confiáveis e penosamente cheio de todo tipo de palavrório afetado e sem sentido. Leitor: eu o detestei", escreveu Rushdie em 1989.

"Eu escolhi isso só para contrariá-lo", disse Eco, recostando-se e sorrindo. Ele disse que ainda não lera a última criação de Rushdie, ou mesmo a de qualquer outro, sobre aquele tema. "Se eles são diferentes de mim, eu os detesto e se são como eu, eu os detesto", ele disse.

Rushdie, que como Eco estudou história, fez uma grande pesquisa para "Enchantress", e existe essa estranha inclusão, para um romance, de uma bibliografia de 83 livros. O objetivo, ele diz, foi de admitir o trabalho com que fundamentou a obra assim como rejeitar quaisquer acusações de que tenha copiado de outras fontes - algo que atormentou "Reparação" de McEwan.

"Com certeza achei que não queria que algum espertinho encontrasse um fato em algum livro e dissesse: 'ele roubou do outro'. Obviamente selecionei coisas de todos os lugares", disse Rushdie. O único registro existente da campanha otomana contra Drácula, por exemplo, é um diário escrito por um jovem militar sérvio de elite chamado Konstantine, que descreve a chegada a uma cidade onde se encontraram 20.000 pessoas empaladas em estacas.

"A imagem que mais me horrorizou em particular foi a de uma mãe com seu bebê e ele usa a descrição de 'corvos aninhando-se no vazio de seus seios'. Isso é dele, não meu", disse Rushdie, que a usou em "Enchantress". "Mas o que poderia superar essa descrição?"

McEwan, que ficou sentado durante o coquetel, disse que já lera metade de "Enchantress". "Bastante astuto", ele disse, uma "fábula do mundo das noites árabes alçado a uma tomada de consciência pós-moderna, do século 21".

Rushdie faz uma diferença entre o que chamou de crítica "completamente tola" de McEwan (por tomar emprestado o trabalho de um outro escritor) e a série de memórias falsas que foram descobertas recentemente. Isso causou "sérios danos ao formato", ele diz, "o que é muito ruim porque eu acredito que a não-ficção criativa, como acabou sendo chamada, é uma das grandes inovações dos últimos 30 ou 40 anos".

Rushdie mantém seu próprio registro do que aconteceu com ele durante os longos, temerosos anos da fatwa, que ele vendeu junto de outros textos à Emory University de Atlanta, onde ele é escritor residente. Mas disse que não tem planos de escrever suas próprias memórias no momento.

"Meu sentimento é de já ter gasto nove anos e meio nisso", diz. "Eu levaria um ano para mergulhar de novo no tema, mais um ano ou dois para escrever e ainda outro ano ou dois falando a respeito disso; é como se eu voltasse para aquele horroroso estado de espírito por outros cinco ou seis anos. Não tenho vontade de fazer isso".

Como teria evoluído sua tarefa de escritor se a fatwa jamais tivesse acontecido? "Não sei como responder a essa pergunta", ele diz. "Foi um acontecimento muito importante. Vivemos nossa vida e nossa época".

No mínimo, ele diz, "eu me sinto menos voltado para a política que nunca. Isso não é mais o que gera minha obra".

Isso pode ser uma surpresa para os leitores. A relação entre a vida hoje em dia e a vida em "Enchantress" - onde os fanáticos da Igreja Católica Romana queimam os hereges na Piazza della Signoria em Florença e Akbar incentiva a tolerância religiosa - é inevitável. O imperador visualiza o futuro como um "árido local antagônico e hostil onde as pessoas sobrevivem da melhor forma que conseguem e odeiam os vizinhos aniquilando seus locais de devoção e se matam umas às outras no renovado ardor do que ele buscou terminar para sempre, a discórdia a respeito de Deus".

Independente do que quer que esteja escrevendo sobre política, Rushdie disse que considera o ato de escrever tanto assustador ("você terá condições de sustentar tudo, até o fim?") como estimulante.

"Existe um eu que escreve que não é exatamente seu eu social ordinário e ao qual você não tem na verdade acesso, a não ser no momento em que está escrevendo, e certamente na minha visão, penso nisso como o meu melhor eu", ele disse. "Conseguir ser essa pessoa é bom, é melhor que qualquer outra coisa". Claudia Dall'Antonia

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