UOL Notícias Internacional
 

27/05/2008

Após terremoto, uma cidade vizinha vive tensa

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Chengdu, China
As casas de chá estão quase vazias, agentes de viagem ficam sentados ao lado de telefones silenciosos e lojistas passam o dia assistindo a agonia em andamento de seus conterrâneos na televisão. Os prédios nesta cidade geralmente movimentada de 10 milhões de habitantes, a cerca de 80 quilômetros a leste do epicentro do terremoto de 12 de maio, podem estar ilesos, mas seus moradores estão vivendo sob tensão.

"Todos estão paralisados de medo, e cada novo tremor apenas prolonga nossa miséria", disse Wu Longyou, um vendedor de artesanato que preside um shopping center a céu aberto quase deserto que normalmente está repleto de turistas estrangeiros. "Nós ainda estamos vivos, mas também estamos sofrendo."

O poderoso tremor secundário que atingiu a província de Sichuan no domingo fez com que milhares de moradores daqui corressem para as ruas. Apesar dos poucos estragos em Chengdu, o tremor, com uma magnitude estimada de 6,0, matou pelo menos oito pessoas, feriu mais de 400 e derrubou 70 mil edificações nas montanhas ao norte, segundo o governo.

Também renovou o terror para milhões de sobreviventes do terremoto que estão vivendo em acampamentos de tendas, subsistindo de macarrão instantâneo e aguardando para que a terra pare de tremer. Na segunda-feira, autoridades do governo elevaram o número de mortos do terremoto de 12 de maio para 65 mil; elas também emitiram novos alertas de que 69 barragens frágeis e vários rios bloqueados por grandes deslizamentos de terra continuam ameaçando dezenas de milhares de pessoas que vivem corrente abaixo.

Aqui em Chengdu, a capital provincial de Sichuan, cada novo tremor abala a psique coletiva de uma cidade que escapou de danos físicos sérios, mas que perdeu sua alegria de viver. As autoridades locais estimam que até um terço da população deixou a cidade; muitos dos que permanecem passam suas noites em favelas de tendas de lona. Aqueles com meios dirigem para o interior e dormem em seus carros. "Eu não quero morrer dormindo", disse Dan Chao, 13 anos, explicando por que ele e seus pais se recusam a passar a noite em seu apartamento no 3º andar.

Chengdu está dominada pelo medo. Em 19 de maio, uma semana após a ocorrência do terremoto, uma emissora de televisão local divulgou um alerta pouco antes da meia-noite de que um tremor secundário de 6,7 de magnitude estava a caminho. As ruas rapidamente ficaram congestionadas de veículos em fuga e os parques ficaram lotados de famílias e suas roupas de cama. Mas o grande tremor secundário nunca ocorreu.

Nas duas últimas semanas, estudantes da Universidade de Sichuan dormem com seus agasalhos esportivos; muitos mantêm as portas dos quartos do dormitório abertas para permitir uma fuga rápida. "Nós brincamos que seria embaraçoso correr para fora vestindo nossa roupa de baixo, mas na verdade estamos todos com medo", disse Deng Minkuei, um estudante do segundo ano de 19 anos que, como a maioria de seus colegas de classe, mantém um saco de dormir com água e biscoitos perto da porta. "Passar duas semanas esperando por outro terremoto não faz bem para sua saúde."

Apesar das autoridades do governo dizerem que o impacto do terremoto na economia nacional será pequeno, o custo para Chengdu deverá ser enorme. A cidade é um portal de turistas para os antigos mosteiros e mundialmente famosa reserva natural de ursos panda que fica no coração da zona de desastre. Os operadores de excursões dizem que os negócios, mesmo em partes da província intocadas pelo terremoto, desapareceram. "Após ver o noticiário, ninguém quer vir para cá", disse Yu Jia, um agente de viagem de Chengdu sentado melancolicamente à sua mesa. "Tudo está morto. Talvez permanecerá assim neste ano." Muitos dos hotéis da cidade estão quase vazios, apesar de alguns poucos dos mais novos - aqueles que alegam ser "resistentes a terremotos" - estarem recebendo um afluxo de jornalistas e funcionários estrangeiros de ajuda humanitária. Wu Longyou, um artesão de 40 anos que faz formas de insetos e animais com folhas de palmeira, disse que quase não ganhou nenhum dinheiro desde que o terremoto ocorreu há duas semanas. Nesta semana ele está seguindo para Hangzhou, uma cidade a mais de 1.450 quilômetros ao leste, onde há abundância de turistas. "Se eu ficar aqui mais tempo, eu vou passar fome", ele disse.

Mas nem todos se queixam. Xu Jianquan, que dirige uma imobiliária local, disse que os negócios estão aquecidos, apesar da maioria das pessoas estar à procura de apartamentos em prédios novos. Enquanto falava, dois homens sentados em seu escritório fechavam um negócio para o aluguel de uma unidade em um prédio construído em 1990. O inquilino potencial, Zhen Deyun, disse que preferia um apartamento no andar térreo de um prédio moderno, mas decidiu que o terceiro andar teria que servir. "Pelo que posso dizer, é um construção relativamente boa", disse Zhen, 38 anos, um analista de ações, que, juntamente com sua mãe, está se mudando de um prédio mais velho na periferia da cidade. "É claro, se um terremoto de magnitude 8,0 atingir Chengdu, nada será seguro."

Estas inseguranças atuam de formas imprevisíveis. Salões de cabeleireiros de luxo e casas de massagem disseram que viram um ligeiro aumento no número de clientes querendo ser paparicados, enquanto as lojas que vendem álcool dizem que os negócios caíram um terço. "Talvez as pessoas não estejam com vontade de celebrar, ou talvez não queiram estar embriagadas caso ocorra um terremoto", disse um vendedor, parado no meio de uma loja vazia.

Wu Min, uma vendedora de loteria de 43 anos, tinha sua própria teoria para a queda pela metade nas vendas. "Quando as pessoas estão ansiosas e de mau humor, elas não conseguem escolher bons números", ela disse. "Elas apenas estão esperando pelo fim dos tremores secundários."

Assim como as centenas de pessoas que transformaram a alameda arborizada ao longo do Rio Funan da cidade em um desfile de tendas de lona azuis, vermelhas e brancas. Tan Yuquan e seus vizinhos estocaram seu acampamento com camas, cadeiras de plástico, baralho e repelentes de mosquito. O clima era animado na noite de segunda-feira, com vizinhos conversando até tarde da noite enquanto crianças corriam para cima e para baixo na calçada. "Isto aproximou todos nós", disse Tan, 60 anos, um vendedor de doces, enquanto passava cigarros para as pessoas.

Sua esposa, Hou Xiaorong, 42 anos, estava menos otimista. Após duas semanas, ela disse estar ficando cansada da falta de privacidade e do barulho dos carros passando a 3 metros de seu travesseiro. "Eu acho que sempre pode ser pior", ela disse. "Viver na rua não é ótimo, mas é melhor do que acordar com um prédio caindo sobre sua cabeça." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host