UOL Notícias Internacional
 

28/05/2008

Na China, pesar dos pais se transforma em raiva

The New York Times
Andrew Jacobs*
Em Dujiangyan, China
Pais enlutados, cujos filhos morreram esmagados em suas salas de aula durante o terremoto na província de Sichuan, transformaram as cerimônias de luto em eventos de protesto nos últimos dias, forçando as autoridades a tratar da crescente reação política negativa devido à construção de qualidade inferior de escolas públicas.

Os pais de cerca de 10 mil filhos que perderam suas vidas no terremoto se tornaram tão enfurecidos com o desmoronamento das escolas que deixaram de lado sua cautela habitual em relação a confrontar autoridades do Partido Comunista. Muitos dizem estar particularmente irritados com o fato de algumas escolas para estudantes pobres terem virado pó, enquanto prédios próximos do governo e escolas para a elite terem sobrevivido ao terremoto praticamente ilesos.

Na terça-feira, um encontro informal de pais em Dujiangyan para marcar o falecimento de seus filhos acabou dando lugar a uma fúria desenfreada. Um dos pais presentes, um trabalhador de pedreira chamado Liu Lifu, pegou o microfone e começou a exigir justiça. Sua filha de 15 anos, Liu Li, morreu juntamente com toda a classe dela durante uma aula de biologia.

"Nós exigimos que o governo puna severamente aqueles que causaram o colapso do prédio da escola", ele gritou. "Por favor, todos assinem a petição para que possamos descobrir a verdade."

A multidão ficou mais agitada. Alguns pais disseram que as autoridades locais sabiam há anos que a escola era insegura, mas se recusaram a agir. Outros lembraram que levou duas horas para os agentes de resgate chegarem; mesmo assim, eles interromperam os trabalhos às 22h da noite do terremoto e só retomaram as buscas às 9h do dia seguinte.

No final, mais de 200 corpos foram retirados da escola. "As pessoas responsáveis por isto devem ser trazidas aqui e uma bala deve ser disparada em suas cabeças", disse Luo Guanmin, um agricultor que carregava uma foto de sua filha de 16 anos, Luo Dan.

Confrontos entre manifestantes e autoridades tiveram início no fim de semana em várias cidades no norte de Sichuan. Centenas de pais cujos filhos morreram na Escola Primária Fuxin Nº2, na cidade de Mianzhu, promoveram um comício improvisado no sábado. Eles cercaram uma autoridade que tentava tranqüilizá-los que suas queixas seriam levadas a sério, bradando e gritando diante do rosto dela até que ela desmaiou.

No dia seguinte, a maior autoridade do Partido Comunista em Mianzhu veio conversar com os pais e impedi-los de marchar até Chengdu, a maior cidade na região, onde buscavam persuadir autoridades superiores a investigarem. O chefe local do partido, Jiang Guohua, caiu de joelhos e implorou que abandonassem o protesto, mas os pais gritaram com ele e continuaram sua marcha.

Posteriormente, à medida que a multidão já somava centenas, alguns pais entraram em choque com a polícia, deixando vários sangrando e tremendo de agitação.

Os protestos ameaçam minar as tentativas do governo de promover sua resposta ao terremoto como eficaz e de acentuar os esforços heróicos de resgate do Exército de Libertação do Povo, que enviou 150 mil soldados para a região. Os censores bloquearam reportagens detalhando a controvérsia das escolas na mídia estatal, mas uma foto de Jiang ajoelhado diante dos manifestantes virou sensação em alguns fóruns na Internet, dando ao incidente atenção nacional.

Uma das publicações mais ousadas da China, a revista de negócios "Caijing", usou seu principal artigo de comentário em sua edição mais recente para exigir que o governo aumente as investigações da construção de má qualidade de escolas. A "Xinhua", a agência oficial de notícias, também emitiu um comentário dizendo que uma resposta oficial rápida é necessária.

As autoridades em Pequim parecem reconhecer a delicadeza do assunto. Na segunda-feira, um porta-voz do Ministério da Educação, Wang Xuming, prometeu uma reavaliação dos prédios escolares em zonas de terremoto, acrescentando que os responsáveis por não cumprirem as especificações exigidas na construção de escolas seriam "punidos severamente".

As autoridades locais por toda a Sichuan também se curvaram à pressão.

Em Beichuan, as autoridades anunciaram uma investigação do colapso de uma escola de ensino médio onde morreram 1.300 crianças. Contatadas por telefone na terça-feira, duas autoridades provinciais em Chengdu prometeram uma resposta vigorosa, apesar de terem sugerido que as investigações em grande escala devem ficar em segundo plano diante das necessidades dos sobreviventes.

"Nós não estamos oficialmente investigando os problemas de qualidade nos prédios escolares, mas certamente o faremos, após terminarmos de alojar temporariamente os refugiados", disse Tian Liya, o secretário do partido do departamento de emergência do Birô de Construção de Sichuan.

A julgar pelos acessos dos últimos dias, qualquer atraso apenas enfureceria ainda mais os pais. Ao confrontarem as autoridades do Partido Comunista no sábado, os pais cercaram a vice-secretária do governo municipal de Mianzhu e a chamaram de mentirosa por seu relatório sobre o colapso da escola Fuxin, que não mencionou que 127 estudantes tinham morrido.

"Por que não fazem as coisas certas para nós?" eles gritavam. "Por que nos enganam?" Nos 20 minutos seguintes eles gritaram contra ela até que desmaiasse e tivesse que ser carregada por um assessor.

No dia seguinte, os pais direcionaram sua ira contra Jiang. Quando suas respostas provaram ser insatisfatórias, eles iniciaram sua marcha até Chengdu. Jiang se ajoelhou várias vezes implorando para que parassem. "Por favor, acreditem que o comitê do partido em Mianzhu pode resolver a questão", ele disse. Eles continuaram marchando.

Três horas depois, a polícia tentou intervir. Durante o confronto que se seguiu, o vidro quebrado dos retratos das crianças mortas deixou vários pais sangrando. Após um impasse tenso, os manifestantes concordaram em embarcar nos ônibus do governo que os levaram até Deyang, a sede do governo local. Lá, eles se encontraram com o vice-prefeito, que prometeu que daria início à investigação no dia seguinte.

"Eu espero que vocês possam se libertar deste sentimento de tristeza", disse Zhang Jinming, o vice-prefeito, antes de se despedir deles. "O governo montará uma equipe de investigação e lhes dará um resultado satisfatório."

Os pais que perderam seus filhos na Escola de Ensino Médio Juyuan disseram que ainda precisam ouvir as autoridades de Dujiangyan. Alguns poucos pais disseram ter sido abordados por professores, que lhes disseram que seriam bem compensados por sua perda - cerca de US$ 4.500 por filho - caso parassem com sua campanha pública cada vez mais ruidosa.

"Nós não queremos dinheiro, queremos apenas o fim dessa corrupção", disse Luo, o agricultor, enquanto outros concordavam com a cabeça. Muitos pais disseram ter se sentido insultado por ninguém da escola ou do governo ter vindo para oferecer condolências.

A única presença oficial no encontro de terça-feira em Dujiangyan foi um par de caminhões-tanque cheios de desinfetante, que chegaram no início da cerimônia. Enquanto os pais começavam a acender velas e incenso, um funcionário apontava sua mangueira para um monte de escombros. O forte cheiro de água sanitária logo envolveu a multidão. Então, talvez pressentindo o confronto potencial, os trabalhadores partiram.

Os pais foram informados a se agruparem segundo as turmas de seus filhos. Enquanto faziam fila, eles trocavam histórias de perda de forma entorpecida. "Quando retiraram meu menino, ele ficava implorando por água, mas então ele morreu", disse Wang Chaoping, segurando uma foto do tamanho da usada em passaporte de seu filho de 16 anos, Wang Tinghai. "Ele não era o melhor aluno, mas adorava esportes."

Alguns pais vieram abraçados em fotos emolduradas e diplomas de mérito surrados, os colocando no local onde seus filhos e filhas morreram sob pilhas de concreto partido. Os homens dispararam fogos para espantar os espíritos ruins enquanto rolos de dinheiro queimavam em meio aos escombros.

Então uma lamentação começou a ser ouvida pelo alto-falante, e ao mesmo tempo as mulheres se dobraram em agonia, um coro de 100 mães chorando a perda de seus únicos filhos. Os maridos choravam em silêncio, paralisados pela tempestade de emoção.

"Nós trabalhamos tão arduamente para criar você, e então você nos deixou repentinamente", gritava uma mulher, batendo com seus punhos nas ruínas da Escola Juyuan. "Como pôde nos abandonar para envelhecermos sozinhos?"

Outra mulher empurrou uma foto de suas filhas gêmeas em um círculo. "Eram meninas tão boas", disse a mulher, Zhao Deqin, chorando. "Nos fins de semana, elas apenas queriam cozinhar, limpar e facilitar minha vida."

Os pais cujos filhos freqüentavam Juyuan eram na maioria agricultores e operários de fábrica, e a dureza de suas vidas, e sua perda, estavam gravadas em seus rostos. Muitos, como Li Ping, 43 anos, disse que vivia frugalmente para pagar as taxas obrigatórias para refeições e uma cama no dormitório, que suportou ao terremoto quase sem nenhuma rachadura.

"Eu depositei toda minha esperança no meu único filho", disse Li, que está incapacitado de trabalhar por causa de uma doença crônica no fígado. "As crianças deviam cuidar de nós na velhice." Seus olhos começaram a ficar marejados, mas então ele se conteve. "Nós não estamos pedindo dinheiro ao governo", ele disse. "Nós só queremos que eles nos digam por que elas morreram."

*Huang Yuanxi contribuiu com pesquisa para este artigo George El Khouri Andolfato

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