UOL Notícias Internacional
 

29/05/2008

Economia birmanesa é um obstáculo à ajuda às vítimas do ciclone

The New York Times
Reportagem do The New York Times
Em Yangun, Mianmar
Um veículo utilitário esportivo por US$ 250 mil e um celular por US$ 3 mil. Estes são os preços de enviar ajuda para Mianmar.

Enquanto os trabalhadores de ajuda humanitária estrangeiros testam o compromisso de Mianmar de permitir que realizem os esforços de ajuda após a passagem do ciclone aqui, eles enfrentam não apenas obstáculos administrativos erguidos por um governo militar xenofóbico, mas também uma economia envolta em anos de desgoverno.

Os militares de Mianmar limitam a venda de celulares, proíbem telefones por satélite, restringem fortemente a venda de carros e racionam a gasolina a um ou dois galões (3,785 litros) por dia. Os principais beneficiários deste sistema são os funcionários do governo e os oficiais militares, que lucram com a venda de permissões, gasolina e outros itens no mercado negro.

Trabalhadores de ajuda da ONU e de agências privadas de ajuda humanitária continuavam na quarta-feira a viajar pelo Delta do Irrawaddy, a área mais duramente atingida pelo ciclone de 3 de maio, após um acordo fechado na semana passada com o governo de Mianmar. Richard Horsey, o porta-voz do esforço de ajuda da ONU, disse que os militares estavam exigindo que os trabalhadores de ajuda apresentassem um aviso prévio de 48 horas antes de viajarem ao delta, mas que estava ouvindo apenas notícias positivas sobre o acesso deles.

"Não estou ciente de quaisquer rejeições ou de pessoas incapazes de ir onde desejam", disse Horsey.

Segundo a contagem do governo, a tempestade deixou 134 mil mortos ou desaparecidos, e a ONU estima que 2,4 milhões de sobreviventes enfrentam fome e falta de moradia. Mas à medida que cresce o número de trabalhadores de ajuda, a capacidade e disposição de Mianmar de atender suas necessidades provavelmente aumentará.

Para o mundo exterior, o torpor do governo em reagir ao ciclone foi visto como uma indiferença insensível. Mas disfunção também foi um fator.

Um frustrado funcionário do governo de Mianmar, em Yangun, disse: "Nós não dispomos da infra-estrutura para o tipo de trabalho de resgate que precisamos em uma hora como essa. Neste país, onde tudo se move por uma cadeia de comando militar, nenhum funcionário do governo toma a iniciativa".

O funcionário pediu que seu nome não fosse mencionado porque falar com um repórter estrangeiro poderia lhe causar a perda do emprego ou pior.

Nos dias após a tempestade, o Programa Mundial de Alimentos pediu permissão para importar seis veículos, disse Hakan Tongul, vice-diretor para o país do programa da ONU, em Yangun. "Nós não obtivemos resposta do governo."

"Eu presumo que enfrentaremos falta de muitas coisas quando o afluxo começar", ele disse. "Certamente haverá problemas logísticos."

China, Sri Lanka, Indonésia e outros países atingidos nos últimos anos por desastres naturais exibem vários graus de restrições políticas. Mas eles todos permitem algo que Mianmar carece após 46 anos de governo militar: o direito de realizar negócios.

O governo de Mianmar controla muitas das maiores indústrias do país -incluindo madeira, pedras preciosas e petróleo- e exige permissões para a importação de itens básicos, incluindo arroz. Foram negadas ao Programa Mundial de Alimentos, que teme escassez de arroz ainda neste ano, as permissões para trazer arroz importado. "É uma questão de orgulho", disse Paul Risley, um porta-voz para a Ásia do órgão da ONU.

A economia é altamente ineficiente. A eletricidade -mesmo na maioria das partes do eixo comercial, Yangun- está disponível apenas cinco ou seis horas por dia. Uma viagem de táxi em Yangun é uma jornada trepidante em amortecedores de 20 anos de idade.

O governo permite que apenas alguns poucos milhares de carros sejam importados a cada ano, muito menos do que o necessário em um país de quase 50 milhões de habitantes. As restrições às importações fazem os preços de carros usados serem considerados absurdos nos países vizinhos: Um Toyota Chaser 1986, um modelo que a empresa parou de vender há oito anos, é vendido aqui por US$ 16 mil.

Os veículos cuja importação é autorizada são divididos entre os altos oficiais militares e funcionários públicos. Os moradores mais ricos de Yangun são vistos dirigindo Hummers e carros esportivos italianos.

Nesse ambiente tão restrito, o mercado negro prospera. Gasolina racionada, que custa US$ 2,50 o galão, é vendida por pelo menos o dobro nos barracões de bambu à beira da estrada que servem como postos de gasolina ilegais, mas tolerados. Os militares, que têm acesso mais fácil a gasolina barata, são alguns dos principais vendedores, segundo os motoristas que abastecem regularmente com combustível ilegal.

As autoridades do governo e oficiais militares também ganham dinheiro revendendo números de celulares e documentos de registro de carros e motos, todos muito difíceis de obter.

O funcionário de Mianmar que falou sob a condição de anonimato recebe um salário de US$ 120 por mês, mas isso dificilmente atende suas necessidades. "Todos devem encontrar um modo de sobreviver", ele disse. A polícia coleta propinas dos motoristas de caminhão nas barreiras e postos de fronteira. Nos aeroportos, pilotos e equipes de solo dividem as sobretaxas por bagagem extra cobradas dos passageiros. "Todos fazem", disse o funcionário. "Se você não faz ou não pode, está condenado."

Empresários em Yangun dizem que é impossível fazer negócios sem contatos com os generais ou seus filhos.

"Está vendo aquele carro ali?", disse o funcionário de Mianmar, apontando para um utilitário esportivo japonês estacionado do lado de fora de um restaurante. "Provavelmente custou US$ 50 mil para importar aquele carro. Mas é vendido aqui por US$ 250 mil. A diferença de US$ 200 mil é para todo tipo de permissão do governo."

O preço de um celular no mercado negro de Yangun varia de US$ 2.500 a US$ 3 mil. O governo também ganha dinheiro fazendo negócios com a ONU. Cada agência da ONU foi autorizada a comprar 10 números de celulares -a US$ 1.500 cada, segundo Tongul. Uma moto feita na China custa US$ 300, mas é vendida por cerca de US$ 1 mil quando o registro do mercado negro é incluído.

"Eles espremem você para extrair dinheiro", disse um professor aposentado em Yangun, que não quis que seu nome fosse mencionado por temer represália. "Conhece o discurso de Abraham Lincoln sobre o governo do povo, pelo povo, para o povo?", perguntou o professor. "As pessoas não recebem nada aqui e os militares tomam tudo." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h10

    0,15
    3,187
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h16

    1,01
    65.330,96
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host