UOL Notícias Internacional
 

31/05/2008

Conflito no Afeganistão joga os holofotes para o esquecido e repressivo Uzbequistão

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Andijon, Uzbequistão
O teatro que pegou fogo tem uma camada de pintura nova. Os buracos de bala foram cobertos. Os jornais falam sobre criação de gado, quadras de tênis e vitórias na Segunda Guerra Mundial.

Neste mês faz três anos que o governo nesta cidade do leste do Uzbequistão voltou as armas contra os seus próprios cidadãos, matando centenas de pessoas e virando o alvo de sanções e condenações do Ocidente por aquela que foi a operação repressiva mais sangrenta desde o massacre da Praça da Paz Celestial.

No entanto, em uma jogada de estilo soviético, o governo uzbeque apagou esse episódio da história da cidade, e nos últimos meses tomou algumas medidas incomuns: ele permitiu que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha voltasse a visitar as prisões; libertou alguns defensores dos direitos humanos e criou leis abolindo a pena de morte e introduzindo o habeas corpus.

The New York Times 
Uma família é fotografada em um café em Kokand, no Uzbequistão

Mas este é o Uzbequistão, um país repressor no qual as leis têm pouco significado, os direitos são relativos e a tortura é endêmica, segundo dizem os ativistas dos direitos humanos. Eles argumentam que os gestos do governo têm como objetivo desviar a atenção do fato de que ele nunca permitiu uma investigação independente dos assassinatos de Andijon.

"Dizer que tudo vai bem no Uzbequistão é como afirmar que há paz em Bagdá", afirma Vasila Innoyatova, profissional da área de direitos humanos em Tashkent, a capital do país.

Mas os governos ocidentais dizem que jogar ainda mais o Uzbequistão no ostracismo com a ampliação das sanções - as medidas norte-americanas serão analisadas em junho - fará com que o país volte a se fechar, aumentando a instabilidade em uma região de rotas vitais de energia e que tem uma proximidade estratégica com o Afeganistão.

Um tom recentemente suavizado já gerou dividendos políticos. Após Andijon e uma saraivada de críticas de Washington, o Uzbequistão expulsou os Estados Unidos de uma base militar que dava apoio à campanha militar no Afeganistão. Embora até o momento não haja planos para a reabertura da base, os uzbeques permitiram aos norte-americanos acesso limitado a uma base alemã em Termez, e recentemente o Uzbequistão ofereceu à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) o uso de sua ferrovia para o transporte de produtos para o Afeganistão.

Isso ressalta as difíceis questões que as relações com o Uzbequistão geram para a política externa dos Estados Unidos. Que dose de influência Washington deve procurar exercer - se é que deve exercer qualquer influência - sobre o comportamento de um outro país? E esse país será receptivo à argumentação norte-americana, tendo em vista os abusos dos direitos humanos, as detenções por tempo indefinido e os tribunais fechados que fizeram parte da história dos Estados Unidos nos últimos anos?

Como elo de ligação entre o Afeganistão e o Irã, e compondo uma área que tanto a China como a Rússia disputam como zona de influência, os cinco países muçulmanos da Ásia Central - os outros quatro são Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Turcomenistão - possuem uma importância estratégica para os Estados Unidos. Uma importância bastante desproporcional às suas áreas. O Uzbequistão é o núcleo da região, com a sua população preponderantemente religiosa, e também a maior. O país tem 28 milhões de habitantes.

A matança em Andijon colocou à prova o vínculo estratégico com os Estados Unidos. O governo do presidente Islam Karimov reconheceu 187 mortes, mas tratou com tanta selvageria aqueles que prestaram informações sobre o episódio - um coveiro que deu uma entrevista a um jornalista uzbeque foi morto a facadas pouco após a publicação da reportagem, e o jornalista teve que fugir do país - que é impossível determinar o número exato de mortos. Grupos de direitos humanos dizem que cerca de 750 pessoas foram assassinadas.

As nações ocidentais pressionaram o governo do Uzbequistão para que este permitisse investigações independentes. A União Européia impôs uma proibição de vistos para as autoridades envolvidas na operação repressiva, e os Estados Unidos acolheram um grande número de refugiados, além de estarem cogitando também uma proibição dos vistos.
Mas, três anos depois, os uzbeques não cederam. Um relatório governamental de cinco partes feito em 2006 afirmou que os perpetradores do levante - "terroristas" e "bandidos" - foram responsáveis pela morte de 62 civis.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Uzbequistão disse que não há nenhuma resposta para o pedido de um comentário sobre o assunto, feito pela reportagem duas semanas atrás.

Assim, quando a postura dos europeus e norte-americanos em relação a Karimov começou a ser suavizada no final do ano passado - a União Européia suspendeu parcialmente a proibição de vistos em outubro, e, em janeiro, o almirante William J. Fallon, o comandante norte-americano mais graduado na região, visitou Tashkent, na primeira visita de alto nível em dois anos - , muitos defensores dos direitos humanos ficaram tremendamente desapontados.

"Falando francamente, eles nos abandonaram", reclama um deles, um ex-ecologista que fugiu do Uzbequistão em abril por acreditar que um processo criminal estava sendo montado contra ele. Ele não foi identificado pelo nome por motivos de segurança.

Os que apóiam os contatos com o governo de Karimov argumentam que punir o país com sanções só faz com que se reduza a influência sobre as suas políticas.

"O Uzbequistão é simplesmente importante demais para ser ignorado", disse uma autoridade ocidental que alegou que as regras diplomáticas impedem que ele se identifique na reportagem. "Os uzbeques querem contatos com os estrangeiros. É algo que eles valorizam. Quando se adota a linha do isolamento, acaba a capacidade de comunicação com o resto do povo".

Karimov, 70, que está no poder desde o colapso da União Soviética, não é conhecido por ter instintos democráticos, e muitos analistas mostram-se céticos quanto à possibilidade de que alguma política o encoraje a promover uma abertura. Ele ganhou um terceiro mandato em uma eleição fraudada em dezembro, embora, segundo a lei uzbeque, somente dois mandatos sejam permitidos. Alguns dizem que a elite governante é tão paranóica que Karimov não escolheu um sucessor por temer que tal indivíduo pudesse assassiná-lo para ocupar logo o cargo.

"A idéia fixa dele é permanecer no poder", diz Paul Quinn Judge, analista do Grupo de Crises Internacionais e ex-jornalista, que observa Karimov desde a década de 1980. "Ele não é o tipo de indivíduo que permitiria que houvesse uma abertura séria".

De fato, alguns defensores uzbeques dos direitos humanos dizem que Karimov aumentou a pressão sobre eles desde que teve início o processo de aquecimento das relações com o Ocidente. Em dezembro do ano passado as autoridades prenderam o poeta Yusuf Juma - usando como pretexto acusações que os defensores dos direitos humanos e os familiares disseram ter sido fabricadas -, depois que ele e os seus filhos portaram cartazes com inscrições à mão em um protesto de família contra a candidatura Karimov. Em abril, Juma foi condenado a cinco anos de prisão.

Em março as autoridades espancaram um pequeno grupo de manifestantes que vinha se reunindo para fazer passeatas semanais desde o ano passado. A seguir o governo ocupou os escritórios do grupo, o Movimento de Direitos Humanos do Uzbequistão. Dois membros fugiram.

"O silêncio do Ocidente proporcionou uma boa oportunidade a Karimov para prender o meu pai", diz Alisher Yusufjon Ugli, o filho do poeta.

Andrea Berg, especialista na Ásia Central da organização Human Rights Watch, afirma: "Sem ameaças de sanção, Tashkent não tem incentivos para melhorar a situação dos direitos humanos".

Mas em um momento no qual os Estados Unidos travam uma guerra cada vez mais complicada bem ao lado, no Afeganistão, alguns analistas argumentam que a realpolitik deve prevalecer.

"Os Estados Unidos deparam-se com um conjunto de opções muito ruim", diz Martha Brill Olcott, especialista na Ásia Central da organização Carnegie Endowment for International Peace, em Washington. "Se não tivéssemos uma guerra no Afeganistão, poderíamos nos dar ao luxo de adotar uma postura moral".

E tampouco o Uzbequistão é uma colônia penal, como muitos acreditam.
Apesar das prisões políticas e da brutalidade das prisões, a grande maioria dos cidadãos está mais preocupada em sobreviver à carestia do que com a possibilidade de a polícia secreta bater à sua porta.

"Não dá para comparar o Uzbequistão com a Coréia do Norte", diz um europeu que morou durante anos em Tashkent, e que não quis se identificar por motivos de segurança. "Nem todos os direitos são violados a todo momento. A coisa não é assim tão sistemática".

Em Tashkent, uma cidade luminosa cheia de jardins bem cuidados e chafarizes, um uzbeque que tem entre 20 e 30 anos, e que ampliou as instalações do seu badalado clube noturno na zona central de Tashkent, observou que nos bancos há longas filas de pessoas que se inscrevem para obter um cartão de crédito, e que a construção civil está vivendo uma onda de prosperidade. Ele disse que não lê jornais, mas acredita que a imprensa do Uzbequistão seja livre porque "há novos jornais todos os dias e eles parecem estar publicando alguma coisa".

Mas é bem mais fácil encontrar bons mojitos do que artigos políticos independentes no Uzbequistão. No final de 2007, depois de Andijon e da repressão que se seguiu contra a sociedade civil, grande parte das organizações não governamentais e sucursais de mídia estrangeiras foi obrigada a encerrar as suas atividades. Innoyatova estima que cerca de 900 organizações cerraram as portas. Em um episódio de traços orwellianos, organizações não governamentais controladas pelo governo surgiram em grande quantidade.

Mas, em um quadro no qual a economia fora da capital encontra-se estagnada, os salários estão abaixo do nível de subsistência e milhões de pessoas migram para a Rússia e o Cazaquistão em busca de trabalho, a maioria dos uzbeques não considera a liberdade de expressão uma das suas maiores preocupações. "Nada disso funcionará até que surja uma massa crítica da população que sinta que tem direitos, e que esteja disposta a defendê-los", diz o ecologista que virou defensor dos direitos humanos, chamando atenção para o fato de que, sob o regime soviético, ninguém tinha direitos.

Até mesmo o destino do poeta Juma não comoveu alguns moradores de Karakul, esta cidade no sul do país. "Ele tinha dinheiro. Por que então fez aquilo?", questiona um jovem desempregado.

Os uzbeques tornaram-se mais pobres, mais isolados e sofreram uma redução do índice de escolaridade nos 17 anos que se seguiram ao colapso da União Soviética. Ao mesmo tempo, os setores mais religiosos da sociedade foram brutalizados pelo governo. Esta é uma fórmula que se mostrou peçonhenta em outros países, incluindo o Iraque.

Olcott afirma que a sociedade uzbeque está bem menos inclinada para os valores seculares do que estava dez anos atrás, uma mudança que poderia fazer com que o Uzbequistão se tornasse um Estado religioso. "Existem muitos acidentes de percurso em uma transição", diz Olcott, que pesquisou o papel da religião no Uzbequistão. "Creio que teremos um novo Estado islâmico no futuro. A questão é saber se será um Estado tolerante ou não".

De acordo com analistas, as práticas contra-terroristas adotadas pelo governo Bush desde 2001 minaram a autoridade moral norte-americana junto a países como o Uzbequistão. "Os Estados Unidos não contam mais com aquela moral que costumavam ter", afirma Sarah Mendelson, especialista em Rússia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington. "Nós colocamos um elefante na sala de estar".

Em Andijon, a política do esquecimento é seguida a risca. No aniversário do massacre, os jornais publicaram manchetes sobre competições esportivas e colheitas de grãos. Até mesmo aqueles que participaram da rebelião pareciam ter ensaiado o roteiro ditado pelo governo.

"O passado é o passado", disse um dos participantes, que morou em Baltimore como refugiado, e que retornou ao Uzbequistão em 2006. "As pessoas não querem recordar". UOL

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