UOL Notícias Internacional
 

31/05/2008

Os ricos ficam mais famintos

The New York Times
Amartya Sen*
Será que a crise de alimentos que está ameaçando a vida de muitos vai se abrandar - ou irá piorar cada vez mais? A reposta pode ser as duas coisas. O aumento recente no preço dos alimentos foi causado em grande parte por problemas temporários como a seca na Austrália, na Ucrânia em vários outros lugares. Apesar de a necessidade de grandes operações de auxílio ser urgente, a crise aguda atual irá eventualmente chegar ao fim. Mas por detrás dela está um problema que irá apenas se agravar a menos que o reconheçamos e tentemos remediá-lo.

É a história de dois povos. Em uma versão da história, um país com muitos pobres de repente passa por uma rápida expansão econômica, mas apenas metade de seus habitantes desfruta da nova prosperidade. Os favorecidos gastam grande parte de sua nova receita em alimentos, e a menos que a oferta se expanda muito rápido, os preços disparam. O restante de pobres então se depara com alimentos a preços altos e nada de aumento em suas rendas, e começam a passar fome. Tragédias como essa acontecem repetidamente no mundo.

Um exemplo cruel foi a fome em Bengala em 1943, durante os últimos dias de dominação britânica na Índia. Os pobres que viviam nas cidades viram seus ganhos aumentarem rapidamente, especialmente em Calcutá, onde os gastos gigantescos da guerra contra o Japão causaram um boom que quadruplicou o preço dos alimentos. Os pobres da zona rural viram os preços subirem vertiginosamente, mas tiveram apenas um pequeno aumento em seus ganhos.

A política governamental equivocada agravou a disparidade. Os governantes britânicos estavam determinados a evitar o descontentamento urbano durante a guerra, então o governo comprou comida dos vilarejos e vendeu, com altos subsídios, nas cidades, uma medida que fez com que o preço dos alimentos na zona rural aumentasse ainda mais. Aqueles que ganhavam pouco nos vilarejos passaram fome. Dois a três milhões de pessoas morreram por causa da fome e suas conseqüências.

Há muita discussão em torno da divisão entre os que têm e os que não têm na economia mundial, mas os pobres do mundo estão eles próprios divididos entre aqueles que experimentam o alto crescimento e os que não. A rápida expansão econômica em países como a China, a Índia e o Vietnã tende a aumentar dramaticamente a demanda por alimentos. Isso é, obviamente, algo excelente por si só, e se esses países conseguirem reduzir repartição desigual do crescimento, até mesmo os que estão de fora poderão se alimentar melhor.

Mas o mesmo crescimento também coloca pressão no mercado internacional de alimentos - às vezes através do aumento das importações, mas também por meio de restrições ou boicotes nas exportações para atenuar o aumento nos preços dos alimentos nos países exportadores, como aconteceu recentemente na Índia, China, Vietnã e Argentina. Os que foram afetados de forma mais dura foram os pobres, especialmente na África.

Há também uma versão high-tech da história dos dois povos. Plantações agrícolas como o milho e a soja podem ser usadas para fabricar etanol como combustível de motores. Então o estômago dos famintos também tem de competir com os tanques de combustível.

Políticas governamentais mal direcionadas também desempenham seu papel nesse caso. Em 2005, o Congresso dos EUA começou a exigir o uso extensivo do etanol como combustível. A lei, combinada com um subsídio para esse uso, criou um mercado florescente de milho nos Estados Unidos, mas também desviou os recursos agrícolas dos alimentos para o combustível. Isso faz com que a competição seja ainda mais difícil para o estômago dos famintos.

O uso do etanol faz muito pouco para prevenir o aquecimento global e a deterioração do meio ambiente, e reformas políticas claras poderiam ser realizadas com urgência se os políticos americanos permitissem. O uso do etanol poderia ser reduzido, em vez de ser subsidiado e incentivado.

A crise mundial de alimentos não é causada por uma tendência decrescente na produção mundial, ou por causa da oferta per capita (isso é afirmado com freqüência sem muita comprovação). Ela é o resultado da aceleração da demanda. Todavia, um problema induzido pela demanda também pede uma rápida expansão na produção de alimentos, que pode ser conseguida por meio de uma maior cooperação global.

Enquanto o crescimento da população é responsável por apenas uma parte modesta da crescente demanda por comida, ele pode contribuir para o aquecimento global, e as mudanças climáticas de longo prazo podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento da população já está diminuindo e há uma enorme evidência de que o aumento do poder das mulheres (incluindo a expansão da educação para garotas) pode reduzi-lo ainda mais.

O mais desafiador é descobrir políticas efetivas para lidar com as conseqüências da expansão extremamente assimétrica da economia global. As reformas na economia doméstica são extremamente necessárias em muitos países de crescimento lento, mas também há uma necessidade grande de maior cooperação e assistência mundiais. A primeira tarefa é compreender a natureza do problema.

*Amartya Sen, que ensina economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de economia em 1998 e é autor do recém-lançado "Identity and Violence: The Illusion of Destiny" ["Identidade e Violência: A Ilusão do Destino"] Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h19

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h28

    1,13
    64.478,64
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host