UOL Notícias Internacional
 

02/06/2008

Terror domina cidade mexicana após massacre

The New York Times
James C. McKinley Jr.

Em Villa Ahumada, México
Um massacre ocorrido aqui há pouco mais de duas semanas transformou esta cidade, antes pacata, em um emblema assustador da violência das drogas que está varrendo o México no último ano e meio, destruindo forças policiais locais, aterrorizando cidadãos e tornando quase impossível para as autoridades se imporem.

Na noite de 17 de maio, dezenas de homens armados com rifles de assalto entraram na cidade em várias caminhonetes e começaram a atirar. Eles mataram o chefe de polícia, dois policiais e três civis. Então seqüestraram cerca de 10 pessoas, disseram testemunhas. Apenas uma foi localizada, encontrada morta e enrolada em um tapete em Ciudad Juárez.

Toda a força policial municipal pediu demissão após o ataque, e as autoridades fugiram da cidade por vários dias, partindo com tamanha pressa que esqueceram de soltar os infratores leves que estavam detidos na cadeia da cidade. Os governos estadual e federal enviaram 300 soldados e 16 policiais estaduais para restaurar algum aspecto de ordem. Mas os moradores continuam apavorados.

Rick Scibelli, Jr./The New York Times 
Rua vazia em Villa Ahumada, cidade que sofreu uma onda de violência recente

"Sim, estamos com medo, todos estão com medo", disse José Antonio Contreras, 17 anos, que foi ameaçado por um dos homens armados. "Ninguém sai à noite."

Os turistas que dirigem rumo as praias da Costa do Pacífico vindos do Texas passam por Villa Ahumada, na Estrada 45. Há não muito tempo, esta cidade empoeirada no caminho da ferrovia era mais conhecida por suas bancas de burritos à beira da estrada, seu bom queijo e por já ter registrado uma das temperaturas mais frias no México, 5ºC negativos em janeiro de 1962.

Mas nos últimos anos, ela também se tornou uma estação intermediária de uma das maiores rotas de tráfico de drogas do México. Villa Ahumada se encontra a cerca de 137 quilômetros ao sul de El Paso, na principal estrada da cidade de Chihuahua até Ciudad Juárez, na fronteira.

A violência das drogas no México atualmente está tão disseminada que atinge até mesmo comunidades pequenas como esta, que conta com menos de 9 mil moradores.

Por todo o país nos últimos 18 meses, mais de 4 mil pessoas morreram em ataques semelhantes e tiroteios, enquanto o presidente Felipe Calderón tentava retomar as cidades onde a polícia e autoridades locais estavam na folha de pagamento dos chefões das drogas.

Na semana passada, sete policiais federais morreram em um tiroteio com capangas de um cartel enquanto tentavam entrar em uma casa em Culiacán, Sinaloa, uma cidade notória por seus traficantes. Os policiais foram enviados à cidade, juntamente com 2.700 outros soldados e agentes, para rastrear um chefão das drogas que teria ordenado a morte do chefe da polícia federal, que foi assassinado na Cidade do México, em 8 de maio.

Quando a polícia chegou, faixas foram penduradas na cidade provocando os policiais e dizendo que o chefão, Arturo Beltrán Leyva, reinava supremo em Culiacán.

Em Villa Ahumada, menos de duas semanas após o massacre, as pessoas permanecem tão intimidadas que até mesmo o prefeito e seu comissário de polícia recusaram os pedidos de entrevista. Ao serem perguntados sobre quem eram os atiradores e por que vieram, a maioria dos moradores entrevistados balançou a cabeça e sussurrou que espiões estavam por toda parte. Em particular, entretanto, alguns reconheceram que a cidade há muito é lar de narcotraficantes associados ao chefão Pedro Sánchez Arras.

Moradores assustados, que não quiseram ser identificados, disseram que o agente de Sánchez na cidade era Gerardo Gallegos Rodelo, um rapaz durão de 19 anos que circula com um grupo armado. Há rumores de que ele e Sánchez tinham ligações com o cartel das drogas em Ciudad Juárez, que é controlado pela família Carrillo Fuentes. As autoridades não confirmaram a alegação.

Vários moradores disseram que Gallegos e Sánchez também pareciam desfrutar de boas relações com a polícia local. As pessoas davam de ombro e toleravam o acordo. Afinal, a cidade era pacata, alguns disseram. Parecia melhor deixar as coisas como estavam.

"Onde quer que você esteja no México atualmente, há traficantes de drogas, não apenas aqui", explicou Raúl Moreno, um trabalhador braçal de 64 anos. "Eles não incomodavam ninguém. Ninguém os incomodava."

O problema começou, segundo as pessoas daqui, quando Gallegos foi morto em um tiroteio com um grupo de gângsteres em Hidalgo del Parral, no sul do Estado de Chihuahua, em 6 de abril.

Dois dias depois, o exército realizou uma batida durante seu funeral em Villa Ahumada e prendeu dezenas de pessoas presentes, levando sob custódia até mesmo um comandante da polícia, Adrián Barrón, entre outros. Ainda não se sabe do que serão acusados os detidos, disse o gabinete do procurador-geral.

Em 13 de maio, soldados prenderam Sánchez em Hidalgo del Parral, por acusações ligadas ao tráfico de drogas.

A prisão pareceu ter dado início aos problemas em Villa Ahumada. No fim da noite de sábado, quatro dias após a prisão de Sánchez, disse Contreras, o jovem de 17 anos, ele e vários outros rapazes estavam dançando em uma festa para um amigo, em um salão próximo da praça central, quando ouviram o som de disparos de metralhadora.

Ele partiu às pressas da festa com sua namorada e sua mãe, mas se depararam com três carros cheios de homens fortemente armados. Fazendo ameaças de morte, eles forçaram os três a se deitarem no chão. Ele ficou esperando pelos disparos, mas os carros partiram. Um dos homens gritou: "Nós voltaremos".

Por três horas, os homens armados perambularam pela cidade em seis picapes e utilitários esportivos. Eles atacaram um pátio de carros usados com balas. Eles realizaram mais de 75 disparos contra dois homens que dirigiam uma caminhonete.

Um era Julio Armando Gómez, o gerente de um restaurante de frango assado. O outro era Mario Alberto González Castro, 41 anos, que vendia passagens na parada de ônibus.

A esposa de González, que pediu para ser identificada apenas por seu apelido, Cuquis, disse que saiu à procura do marido quando ouviu os disparos e que encontrou seu corpo sem vida sangrando no carro. Suas mãos tremiam de medo quando foi perguntada sobre quem poderia estar por trás das mortes; então ela caiu em prantos, dizendo que já tinha dito para a polícia o que sabia e não podia dizer mais nada. "Ele era inocente, inocente acima de tudo", ela disse em meio ao choro.

Os homens armados mataram o chefe de polícia, José Armando Estrada Rodríguez, e dois policiais, Óscar Zuñiga Dávila e José Luis Quiñones Juárez, que estavam sentados em sua viatura em um posto de gasolina. Os homens mataram os três com 26 disparos de um rifle Kalashnikov, disseram as autoridades.

Também foi morto Luis Eduardo Escobedo Ruiz, 21 anos, que estava por acaso estacionando perto do posto de gasolina. Mais de 100 cartuchos de bala foram encontrados do lado de fora de seu carro.

Privativamente, alguns moradores especulam que os agressores vieram de um cartel das drogas rival, visando remover a família Carrillo Fuentes de Ciudad Juárez, assim como das cidades ao longo da rota entre os Estados de Chihuahua e Sinaloa. Alguns sussurram que foi Joaquín Guzmán, um chefão acusado conhecido como "El Chapo", quem enviou os comandos. Outros mencionam os Zetas, temidos assassinos de aluguel contratados pelo Cartel do Golfo.

"Eles estão se livrando de todas as pessoas ligadas a Pedro Sánchez", disse um jovem, insistindo no anonimato por temor dos cartéis. "Toda a polícia trabalhava para o Pedro."

As autoridades estaduais dizem que ainda têm pouca informação sobre o que aconteceu, muito menos sobre para quem os matadores trabalhavam. O silêncio temeroso dos moradores dificulta o progresso dos investigadores, disse Eduardo Esparza, um porta-voz do gabinete do procurador-geral.

"No momento, nós não temos nenhuma linha de investigação", ele disse. "Está difícil obter informação. As famílias das vítimas se recusam a falar, principalmente por medo. Não é possível avançar em um bom passo. Há muitos obstáculos."

Um exemplo desses obstáculos foi o fato da polícia estadual ter sido informada sobre apenas dois dos seqüestros que ocorreram na noite em que os matadores chegaram à cidade, mas vários moradores insistem que pelo menos 10 pessoas estão desaparecidas.

Os moradores dizem sentir uma mortalha pairando sobre eles. Os restaurantes de beira de estrada e os vendedores de queijo dizem que cada vez menos pessoas param na cidade, aparentemente por medo. Soldados em jipes Humvee com metralhadoras montadas patrulham as ruas.

Alguns moradores disseram ter ficado surpresos por toda a força policial, composta de mais 20 oficiais, ter entregue seus cargos. Muitos dizem que a cidade nunca poderá arcar com o custo de uma força mais profissional capaz de deter futuros ataques.

"A gente se sente muito desiludido com o governo", disse a proprietária de um restaurante popular, que passou toda sua vida na cidade. "Não parece haver ninguém capaz de fazer algo." George El Khouri Andolfato

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