UOL Notícias Internacional
 

03/06/2008

A censura do Kremlin: como o governo russo apaga opiniões de oponentes políticos

The New York Times
De Clifford J. Levy

Em Moscou
Em um programa de entrevistas no ano passado, um proeminente analista político chamado Mikhail G. Delyagin tinha algumas palavras duras a respeito do então presidente russo Vladimir Putin. Quando o programa foi posteriormente televisionado, Delyagin não estava nele.

Não foram apenas seus comentários que foram cortados -ele também foi digitalmente apagado do programa, como um camarada em desgraça removido com aerógrafo de uma velha foto soviética. (Os técnicos devem ter trabalhado com certa pressa, pois deixaram suas pernas sem corpo em uma tomada.)

Delyagin, de fato, está há algum tempo presente em uma lista de adversários políticos e outros críticos do governo que estão proibidos pelo Kremlin de aparições nos noticiários da TV e programas de entrevistas políticas.

A lista, como colocou Delyagin, é "uma forma excelente de engessar a dissidência".

James 
O apresentador Vladimir Solovyov se prepara para a gravação do seu talk show

Também é um indício notável de como Putin cada vez mais conta com as emissoras de televisão controladas pelo Kremlin para consolidar o poder, especialmente nas recentes eleições.

Os oponentes que estavam na TV há um ano ou dois praticamente desapareceram durantes as campanhas, enquanto Putin obtinha uma vitória parlamentar esmagadora para seu partido e depois elegia seu protegido, Dmitri Medvedev, como seu sucessor. Putin é agora o primeiro-ministro, mas ainda é amplamente considerado o líder da Rússia.

Antigos aliados de Putin como Mikhail Kasyanov, seu ex-primeiro-ministro, e Andrei Illarionov, seu ex-conselheiro econômico chefe, desapareceram de vista. Garry Kasparov, o ex-campeão de xadrez e líder da coalizão de oposição Outra Rússia, foi proibido, assim como membros dos partidos liberais.

Até mesmo o Partido Comunista, o único partido de oposição que restou no Parlamento, disse que seus líderes são mantidos fora da TV.

E não se restringe apenas a políticos. O Televizor, um grupo de rock cujo nome significa aparelho de TV, teve sua aparição em um canal de São Petersburgo cancelada em abril, depois que seus membros participaram de uma manifestação do Outra Rússia.

Quando alguns atores fizeram algumas piadas leves sobre Putin e Medvedev no equivalente russo ao Oscar, em março, eles foram cortados da transmissão.

De fato, humor político em geral foi banido da TV. Um dos humoristas mais populares do país, Viktor Shenderovich, antes tinha um programa que exibia bonecos caricaturais de líderes russos, incluindo Putin. Ele foi cancelado no primeiro mandato de Putin e Shenderovich foi banido da TV recentemente.

Altos funcionários do governo negam a existência de uma lista, dizendo que pessoas hostis ao Kremlin não aparecem na TV simplesmente porque suas opiniões não são notícia.

Em entrevistas, jornalistas disseram que não acreditam que o Kremlin mantenha uma lista oficial, mas que as emissoras possuem as suas próprias, e que todas mantêm uma lista informal -um entendimento do que o Kremlin gosta e do que não.

Vladimir Pozner, apresentador do "Times", um programa de entrevistas políticas em uma grande rede nacional de televisão, o Channel One, disse que a pressão para se adaptar ao que dita o Kremlin se intensificou ao longo do último ano, e não diminuiu mesmo após a campanha.

"As eleições levaram a uma quase paranóia por parte do Kremlin sobre quem está na televisão", disse Pozner, que é presidente da Academia Russa de Televisão.

Na prática, disse Pozner, ele informa aos executivos do Channel One quem deseja convidar para o programa, e então eles riscam todos aqueles que consideram persona no grata.

"Ele dizem, 'Ora, você sabe que não podemos fazer isso, não é possível, por favor, não nos coloque nesta situação. Você não pode convidar esse e aquele' -seja Kasparov ou Kasyanov ou outra pessoa", disse Pozner.

Ele acrescentou: "O que ninguém quer falar é que não temos liberdade de imprensa nas emissoras de televisão".

Vladimir Solovyov, outro apresentador de programa de entrevistas políticas, disse que Pozner se queixa apenas porque sua audiência está em baixa e está à procura de alguém para culpar caso seu programa seja cancelado. Solovyov, um forte defensor de Putin, disse que nunca foi pressionado pelo Kremlin.

Mas no ano passado, seu programa exibia regularmente membros dos partidos de oposição. Neste ano, os únicos políticos que apareceram foram os líderes do partido de Putin, o Rússia Unida, e de um partido aliado.

Ao ser perguntado por que não tem convidado líderes da oposição recentemente, Solovyov disse: "Ninguém os apóia. Eles não têm nada a dizer".

Vladimir Ryzhkov um liberal e ex-membro do Parlamento que costumava aparecer no programa, disse que Solovyov estava acobertando o Kremlin.

"Ele mente, é claro", disse Ryzhkov. "Meus programas com ele estiveram entre os de maior audiência de qualquer um na história do programa dele."

Ryzhkov disse que geralmente era autorizado a aparecer em longos segmentos em apenas um grande canal: o Russia Today, uma emissora de língua inglesa, que o Kremlin criou para divulgar seu ponto de visto ao mundo.

"Eu posso ir ao Russia Today apenas porque querem que pareça que na Rússia há liberdade de imprensa", ele disse.

Após a queda da União Soviética, surgiram várias redes nacionais e regionais de televisão de propriedade de oligarcas. Apesar de operarem com relativamente poucas restrições, seus proprietários freqüentemente as utilizavam para acertar contas pessoais e de negócios. Uma rede, a NTV, ganhou atenção por seu uso de reportagem investigativa e correspondentes de guerra da Tchetchênia.

Mas Putin se irritou com a cobertura negativa do governo e o Kremlin na prática tomou as grandes emissoras nacionais em seu primeiro mandato, incluindo a NTV. Vladimir Gusinsky, o dono da NTV, foi brevemente preso e então fugiu do país após entregar a emissora. Desse ponto em diante, os executivos e jornalistas das emissoras de TV russas claramente entenderam que seriam punidos caso resistissem ao Kremlin.

Todas as grandes redes nacionais e regionais agora são de propriedade do governo ou de seus aliados. E desde a eleição presidencial em março, nem Putin e nem Medvedev indicaram qualquer interesse em afrouxar suas rédeas.

"Nossa televisão costuma ser muito criticada", disse Medvedev em abril. "Eles dizem que ela é tediosa, que é pró-governo, que é voltada demais às posições das agências do Estado, daqueles no poder. Mas pelo que posso dizer de nossa televisão -em termos de qualidade, em termos da tecnologia empregada- ela é, no meu entender, uma das melhores do mundo."

Valery Komissarov, um ex-apresentador de um canal público que agora é um líder do partido do governo no Parlamento, disse que a cobertura da televisão foi um bode expiatório conveniente para os políticos de oposição e comentaristas antagônicos.

"Estas são pessoas que não estão interessadas pela sociedade, que não estão interessadas em jornalismo", disse Komissarov. "Elas só querem publicidade e talvez queiram explicar sua falta de criatividade e sucesso político pelo fato de serem perseguidos, por estarem incluídos em uma suposta lista."

Apesar do Kremlin ter se concentrado na TV devido à sua maior audiência, muitas emissoras de rádio e jornais também seguem a lista, seja ignorando ou depreciando a oposição.

Mas há exceções: alguns poucos jornais nacionais e regionais publicam notícias e comentários críticos sobre Putin e comentários daqueles que estão na lista. Além disso, a Internet não é censurada e contém abundância de críticas ao governo.

Uma pequena rede nacional, a Ren TV, expande as fronteiras, assim como uma rede nacional de rádio, a Eco de Moscou, que se tornou a voz da oposição apesar da Gazprom, o monopólio de gás do governo, ser dono da maioria de suas ações.

O Kremlin parece tolerar as críticas desses veículos por terem um acesso limitado em comparação às grandes redes de televisão. O noticiário noturno do Channel One, por exemplo, é bem mais popular do que qualquer um de seus equivalentes nos Estados Unidos. Ele é regularmente um dos 10 programas mais assistidos na Rússia.

Delyagin, o analista político editado de fora do programa de entrevistas do ano passado, disse ter ficado surpreso com o simples fato de ter sido convidado. Ele disse ter aparecido pela última vez em uma grande emissora há vários anos, antes de começar a atacar o Kremlin e apoiar a oposição.

"Eu achei que talvez ela tivesse esquecido de olhar a lista", ele disse, se referindo à apresentadora do programa, Kira A. Proshutinskaya.

(Na semana passada, após uma versão russa deste artigo ter sido postada em um blog administrado pela sucursal de Moscou do "The New York Times", Delyagin foi convidado a aparecer em um programa da NTV.)

O programa de Proshutinskaya, "As Pessoas Querem Saber", já foi censurado antes. Ryzhkov, o ex-membro liberal do Parlamento, foi ao programa no ano passado, mas sua emissora, a TV Center, se recusou a exibi-lo.

Em uma entrevista, Proshutinskaya reconheceu que Delyagin foi digitalmente apagado do programa. Ela disse que ficou embaraçada com o incidente, assim como com o de Ryzhkov, explicando que a emissora foi a responsável. O Kremlin intimida tanto as emissoras, ela disse, que a autocensura está desenfreada.

"Eu estaria mentindo se dissesse que trabalhar está fácil atualmente", ela disse. "Os diretores dos canais, por temerem a perda de seus empregos -que são cargos muito lucrativos- exageram tudo."

A direção de sua emissora não quis comentar. Mas o novo diretor de jornalismo da emissora, Mikhail A. Ponomaryov, disse que os jornalistas e apresentadores dos programas de entrevistas não têm escolha a não ser cumprir as regras.

"Seria estupidez dizer que podemos fazer o que bem entendermos", ele disse. "Se o dono da empresa acha que não devemos mostrar uma pessoa, por mais que eu queira, eu não posso mostrá-la." George El Khouri Andolfato

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