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04/06/2008

Coloque um pouco de ciência em sua vida

The New York Times
Brian Greene*
Há dois anos atrás, recebi uma carta do Iraque. A carta começava dizendo que, como descobrimos dolorosamente, servir na linha de frente é fisicamente exaustivo e emocionalmente debilitante. O soldado escrevia, contudo, para dizer que, naquele ambiente inóspito e solitário, um livro que eu havia escrito tornou-se uma espécie de salva-vida. Como o livro é sobre ciência -traça a busca dos físicos pelas leis mais profundas na natureza- a carta do soldado pode parecer, bem, estranha.

Mas não é. Em vez disso, fala do papel poderoso que a ciência pode ter em dar contexto e significado à vida. Ao mesmo tempo, a carta do soldado enfatizava algo que passei a acreditar cada vez mais: nosso sistema educacional não ensina ciências de uma forma que permita que os estudantes a integrem em suas vidas.

Deixe-me explicar.

Quando consideramos a ubiqüidade dos telefones celulares, iPods, computadores e Internet, é fácil ver como a ciência (ou a tecnologia que gera) faz parte do tecido de nossas atividades diárias. Quando nos beneficiamos da tomografia computadorizada, aparelhos de ressonância magnética, marca-passos e "stents" arteriais, podemos apreciar imediatamente como a ciência afeta a qualidade de nossas vidas.

Quando avaliamos o estado do mundo e explicamos os desafios adiante como mudança climática, pandemias globais, ameaças de segurança e recursos reduzidos, não hesitamos em nos voltar para a ciência para avaliar os problemas encontrar soluções.

Quando olhamos para a riqueza de oportunidades no horizonte - células tronco, seqüenciamento genômico, medicina personalizada, pesquisa de longevidade, nanociência, interface cérebro-máquina, computadores quânticos, tecnologia espacial - entendemos como é crucial cultivar um público geral que possa se envolver em questões científicas; simplesmente não há outra forma para, como sociedade, estarmos preparados para fazer decisões informadas sobre uma série de questões que formularão o futuro.

Essas são as razões padrão -e enormemente importantes- que muitos dariam para explicar porque a ciência é importante.

Mas há outra coisa. A razão pela qual a ciência realmente importa é ainda mais profunda. A ciência é uma forma de vida. A ciência é uma perspectiva. A ciência é um processo que nos leva da confusão para a compreensão de uma forma precisa, previsível e confiável -é uma transformação para aqueles que têm a sorte de vivenciá-la, que dá poder e emociona. Ser capaz de pensar e compreender explicações -desde porque o céu é azul até como a vida formou-se na terra- não porque são dogmas, mas porque revelam padrões confirmados por experimentos e observação, é uma das experiências humanas mais preciosas.

Como cientista praticante, sei disso por meu próprio trabalho e estudo. Mas também vi que não é preciso ser cientista para a ciência ser transformadora. Eu vi os olhos das crianças se iluminarem enquanto eu falava de buracos negros e do big bang. Conversei com adolescentes que deixaram os estudos, depois encontraram livros de ciência populares sobre o projeto genoma e voltaram ao colégio com um novo propósito. E naquela carta do Iraque, o soldado me contou como aprender sobre a relatividade e a física quântica nos ambientes perigosos e empoeirados de Bagdá o deixaram mais resistente, porque revelaram uma realidade bem mais profunda da qual todos nós participamos.

É impressionante que a ciência ainda é amplamente vista como meramente um assunto que a pessoa estuda na sala de aula ou um corpo de conhecimento altamente esotérico e isolado, que algumas vezes aparece "no mundo real" na forma de avanços tecnológicos e médicos. Na realidade, a ciência é uma linguagem de esperança e inspiração, fornecendo descobertas que acendem a imaginação e instilam um sentido de conexão com nossas vidas e nosso mundo.

Se a ciência não for o seu forte -e para muitos não é- esse lado da ciência é algo que talvez você não tenha vivenciado. Conversei com muitas pessoas assim durante os anos, cujos encontros com a ciência na escola fizeram-nas pensar que era fria, distante e intimidante. Elas usam com alegria as inovações que a ciência torna possível, mas acham que a própria ciência não é relevante para suas vidas. Que pena.

Assim como uma vida sem música, arte ou literatura, a vida sem ciência perde uma dimensão rica, de outra forma inacessível.

Uma coisa é sair em uma noite clara e se maravilhar com o céu cheio de estrelas. Outra coisa é se maravilhar não só com o espetáculo, mas reconhecer que essas estrelas são o resultado de condições extremamente ordenadas há 13,7 bilhões de anos, no momento do big bang. E outra ainda é compreender como essas estrelas agem como fornos nucleares que fornecem carbono, oxigênio e nitrogênio universo, a matéria-prima da vida como a conhecemos.

É ainda outro nível de experiência compreender que essas estrelas são menos de 4% do que está aí fora -o resto, de composição desconhecida, é chamado de matéria e energia negra, e os pesquisadores estão vigorosamente tentando entender.

Como todo pai sabe, as crianças começam a vida como exploradores desinibidos do desconhecido. Assim que aprendemos andar e falar, queremos saber o que são as coisas e como funcionam -começamos a vida como pequenos cientistas. A maior parte de nós, contudo, rapidamente perde essa paixão científica intrínseca. E é uma perda profunda.

Muitos estudos se concentraram nesse problema, identificando oportunidades importantes para melhorar a educação científica. As recomendações variaram desde aumentar o nível do treinamento para os professores até reformas curriculares.

A maior parte desses estudos (e suas sugestões), contudo, evita uma questão sistêmica ampla: ao ensinar, desperdiçamos oportunidades ricas de revelar os horizontes assombrosos abertos pela ciência e, em vez disso, nos concentramos na necessidade de ganhar competência nos detalhes técnicos subjacentes à ciência.

De fato, muitos estudantes com quem conversei têm pouca noção das grandes questões que esses detalhes técnicos coletivamente tentam responder: de onde veio universo? Como a vida se originou? Como o cérebro faz nascer a consciência?

Como um currículo para música que exige que os alunos pratiquem escalas mas quase nunca os faz tocar grandes obras, essa forma de ensinar a ciência atrapalha a possibilidade de fazer os alunos se sentarem na cadeira e dizerem: "Uau, isso é ciência?"

Para ilustrar como há matéria-prima disponível para promover a educação, os avanços mais revolucionários da física aconteceram nos últimos 100 anos -relatividade especial, relatividade geral, mecânica quântica- uma sinfonia de descobertas que mudou nosso conceito de realidade. Os últimos dez anos viram uma revolução na nossa compreensão da composição do universo, gerando uma previsão totalmente nova para o que será o cosmo no futuro longínquo.

Esses são desdobramentos que abalam paradigmas. Entretanto, rara é a sala de aula na qual esses avanços são introduzidos. O mesmo acontece nas turmas de biologia, química e matemática.

Na raiz dessa abordagem pedagógica está uma crença na natureza vertical da ciência: primeiro você tem que dominar A, antes de entrar em B. Quando A aconteceu há algumas centenas de anos atrás, é uma longa subida até a era moderna. Certamente, para ensinar tecnicalidades -resolver uma equação, equilibrar uma reação, aprender as partes da célula- a verticalidade da ciência é inquestionável.

A ciência, entretanto, é muito mais do que seus detalhes técnicos. E com uma apresentação cuidadosa, as visões e descobertas modernas podem ser comunicadas clara e fielmente aos alunos, independentemente desses detalhes; de fato, essas visões e descobertas são precisamente as que podem mover um jovem a querer estudar os detalhes. Roubamos da educação da ciência da vida quando nos concentramos somente nos resultados e procuramos treinar os alunos para resolver problemas e recitar fatos, sem uma ênfase em levá-los para além das estrelas.

A ciência é a maior de todas as histórias de aventura que vem se desdobrando há milhares de anos enquanto procuramos compreender a nós mesmos e nosso entorno. A ciência precisa ser ensinada aos jovens e comunicada aos adultos de uma forma que capture esse drama. Precisamos embarcar em uma mudança cultural que coloque a ciência em seu local de direito, ao lado da música, arte e literatura, como uma parte indispensável daquilo que faz a vida valer a pena.

É direito de nascença de toda criança e uma necessidade de cada adulto olhar para o mundo, como fez o soldado no Iraque, e ver que a maravilha do cosmo transcende tudo aquilo que nos divide.

*Brian Green é professor de física em Columbia e autor de "The Elegant Universe" e "The Fabric of the Cosmos". Deborah Weinberg

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