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04/06/2008

Krugman: retorno ao show dos anos 70?

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Em que década estamos, afinal?

Há pouco tempo atrás parece que todos que acompanhavam à carnificina dos mercados financeiros estavam fazendo paralelos aterrorizantes com os anos 30.

Dessa vez, entretanto, Ben Bernanke e seus colegas do Federal Reserve fizeram o que seus predecessores não haviam conseguido fazer durante a crise bancária de 1930-31: agiram com eficiência para reverter o colapso do sistema financeiro. E seus esforços parecem ter funcionado, pelo menos de forma provisória. Apesar de as coisas estarem longe do normal nos mercados financeiros, a sensação de pânico vêm diminuindo gradualmente durante os últimos meses.

Pode-se pensar, então, que todos estariam congratulando Bernanke e companhia pelo seu bom trabalho. Mas durante uma conferência sobre economia da qual eu participei recentemente, muitos dos presentes - incluindo gente com muita influência no mundo político - pareciam criticar duramente o Fed de Bernanke.

Veja bem, o temor de uma crise financeira no estilo da de 1930 aparentemente desapareceu; mas agora o medo é de uma estagflação no estilo dos anos 70. E o Fed continua sendo acusado de ser brando em relação à inflação.

O senso comum que está emergindo, se o que eu ouvi lá for uma indicação, é de que Bernanke tem lutado contra o inimigo errado desde o princípio: a inflação, e não o colapso financeiro, é a verdadeira ameaça. E para desviar dessa ameaça, dizem os críticos, o Fed tem de reverter o curso e aumentar as taxas de juros - sem se importar com os riscos de recessão.

Então parece um bom momento para declarar que o novo senso comum está completamente errado. Não estamos assistindo a uma volta do mesmo show dos anos 70 - e a crença equivocada de que é isso que está acontecendo pode resultar em muito estrago.

É verdade que a alta dos preços do petróleo e de outras matérias-primas despertaram a preocupação pública em relação ao aumento do custo de vida. Mas hoje não há nenhum sinal da espiral salarial que, nos anos 70, transformou o choque temporário do aumento nos preços do petróleo em uma taxa de inflação persistentemente alta.

Eis um exemplo de como eram as coisas: em maio de 1981, o Sindicato dos Trabalhadores da Mineração assinaram um contrato com operadores de minas de carvão estabelecendo um aumento salarial médio de 11% ao ano durante três anos. O sindicato exigiu essa escalada nos salários porque esperava que a inflação de dois dígitos do final dos anos 70 continuasse; os donos das minas achavam que poderiam cumprir com as demandas do sindicato porque esperavam uma alta maior nos preços do carvão, que haviam subido 40% nos três anos anteriores.

Na época, o acordo dos trabalhadores da mineração não era nada incomum: muitos outros setores estavam fazendo contratos parecidos. Trabalhadores e empregados estavam de fato num jogo de pega-pega: os primeiros pediam grandes aumentos salariais para acompanhar a inflação, as corporações repassavam esses altos salários para seus preços, a alta dos preços levava a uma outra rodada de demandas salariais, e assim sucessivamente.

Uma vez que esse tipo de processo inflacionário auto-sustentável começa, é muito difícil pará-lo. De fato, foi necessária uma recessão muito severa, a pior queda desde os anos 30, para que o país se livrasse do legado inflacionário dos anos 70.

Mas como eu disse, hoje não há uma espiral salarial à vista.

Os especialistas em inflação apontam que os consumidores estão, pela primeira vez em décadas, dizendo em pesquisas que esperam um aumento de preços severo no ano que vem. Nada mais justo.

Mas onde é que estão os sindicatos exigindo aumentos de 11% ao ano? (Onde estão os sindicatos, ponto final?) Os consumidores estão preocupados com a inflação, mas é preciso procurar bastante para encontrar trabalhadores pedindo por aumentos salariais como forma de compensação, sem falar em patrões dispostos a aceitar essas demandas. De fato, o aumento salarial parece estar em desaceleração, graças à fraqueza do mercado de trabalho.

E uma vez que não há uma espiral salarial, não precisamos de taxas de juros mais altas para manter a inflação sob controle. Quando a alta dos preços das commodities se estabilizar - o que vai acabar acontecendo; já que as leis de oferta e demanda não foram revogadas - a inflação vai se reduzir por conta própria.

Mesmo assim, por que não aumentar a taxa de juros um pouquinho, como uma segurança extra contra a inflação?

Parte da resposta é que a crise financeira, que parece estar se atenuando nesse momento, poderia se inflamar novamente se o dinheiro ficar mais caro.

E mesmo que a crise financeira não retorne, o aumento das taxas iria enfraquecer ainda mais uma economia já frágil. Não importa se tecnicamente estamos ou não em uma recessão: a maioria das pessoas sente como se fosse uma recessão, e taxas de juros mais altas só tornariam isso pior.

O essencial é que apesar de os preços mais caros dos combustíveis e alimentos estarem prejudicando de verdade as famílias americanas, eles não estão desencadeando uma espiral inflacionária como a dos anos 70. A única coisa que devemos temer nesse sentido é o próprio medo da inflação, que poderia levar a políticas capazes de tornar ainda pior uma situação econômica que já é ruim. Eloise De Vylder

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