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05/06/2008

Sucesso de Obama deixa negros ao mesmo tempo orgulhosos e cautelosos nos EUA

The New York Times
De Marcus Mabry*

Do New York Times
Kwabena Sam-Brew, 38, um imigrante de Gana, duvida que Nana, a sua filha de cinco anos, nascida nos Estados Unidos, vá se lembrar do comício que efetivamente consagrou o senador Barack Obama como o candidato democrata à presidência na noite da última terça-feira (03/06). Mas Sam-Brew diz que descreverá o acontecimento à filha: "Eu direi a ela que aquela foi a noite em que os norte-americanos tornaram-se um só povo".

Sam-Brew, um motoristas de táxi que mora em Cottage Grove, no Estado de Minnesota, diz que a façanha de Obama mudará a imagem do país em todo o mundo, e modificará também a mentalidade dos norte-americanos.

"Como negros, nós agora temos uma esperança que nunca antes tivemos", afirma Sam-Brew. "Eu tenho novas metas para a minha filhinha. Ela não pode me dar nenhuma desculpa para não agir por ser negra".

Nas suas declarações da terça-feira, Obama não mencionou o fato de ser o primeiro negro norte-americano com uma chance real de tornar-se presidente, e, é claro, também não falou que a maioria dos democratas que votaram nele são brancos. Mas, exatamente por isto, muitos afro-americanos exultaram na quarta-feira (04) em um triunfo político que eles acreditavam que não viveriam o suficiente para presenciar.
Muitos expressaram a esperança de que os seus filhos extrairão energia deste momento.

"Não é que estejamos assim tão desassossegados, mas os nossos filhos precisam ser capazes de ver um adulto negro como líder do país, de forma que possam saber que somos capazes de obter o mesmo resultado", diz Wilhelmina Brown, 54, uma funcionária do U.S. Bank em Saint Paul. "Não precisamos desistir de lutar para progredirmos a partir de um determinado nível".

Alison Kane, uma analista de transporte branca de 34 anos de Edina, em Minnesota, diz que o sucesso de Obama como político birracial terá um efeito similar em Hawa, a sua filha birracial de 21 meses. "Quando ela estiver Deus sabe onde, talvez em uma cidadezinha rural dos Estados Unidos, os moradores dirão 'Ah, eu conheço uma pessoa que é como você.
O nosso presidente'", diz Kane. "O fato de haver um indivíduo tão importante com quem se identificar só abre as mentes das pessoas. E isso faz com que, como mãe, eu me sinta melhor".

Mas o orgulho -de Obama e de eleitores brancos que dirigiram a vista para além da questão racial-, no caso de muitos negros norte-americanos está mesclado uma preocupação inquietante. Existe um temor de que a questão racial, que teve grande importância em algumas eleições primárias, e que já foi utilizada com sucesso como fator de vantagem política pelos republicanos, possa ainda impedir Obama de conquistar a Casa Branca.

"As pessoas odeiam os negros", afirma Michella Minter, uma estudante negra de 20 anos que mora em Huntington, no Estado de Virgínia Ocidental, referindo-se ao racismo persistente nos Estados Unidos. "Não estou tentando ser racista ou algo parecido, mas é bem evidente que os negros não são valorizados neste país. Nos últimos 12 meses, seis crianças foram julgadas por tentativa de homicídio devido a uma briga na escola. Um homem desarmado recebeu 51 balas no corpo, disparadas por um policial de Nova York. Ele morreu e ninguém foi indiciado. E outros atos racistas incontáveis e desconhecidos ocorreram neste ano".

(Na verdade, três detetives da cidade de Nova York foram denunciados pelo episódio que vitimou Sean Bell. Ele foi morto por uma chuva de balas da polícia no dia do seu casamento, em 2006. Os policiais foram absolvidos).

O momento vivido por Obama parece ter unido os negros de todo o espectro político, mesmo aqueles que não pretendiam votar em um democrata para presidente. Por exemplo, Ward Connerly, um conservador que é um cruzado contra o movimento de ação afirmativa e que é o diretor do Instituto Americano de Direitos Civis, viu a retransmissão do anúncio da vitória de Obama na "Fox News", na manhã de quarta-feira e ficou com os olhos marejados. "Ele fez isso por mérito próprio. Ninguém deu esta vitória a ele", afirma Connerly.

Connerly expressa a esperança de que a ascensão de Obama fortaleça as suas tentativas de acabar com a ação afirmativa. "O argumento a favor de preferências raciais é que a sociedade é institucionalmente racista e sexista, e que a ação afirmativa é necessária para equilibrar as chances dos indivíduos", diz Connerly. "Mas o sucesso histórico do senador Obama, e também o da senadora Hillary Clinton, desmantela este argumento".

Obama afirmou que os programas de ação afirmativa deveriam tornar-se uma "ferramenta menor" para a obtenção da igualdade racial, e pediu aos negros que entendam por que tais programas podem criar ressentimento entre os brancos, tendo sugerido que as crianças brancas pobres também precisam de auxílio.

Embora na terça-feira ele não tenha apresentado a sua vitória sob um prisma racial, Obama reconheceu na quarta-feira que o fato deve estar tendo um efeito sobre outros afro-americanos.

"Provavelmente a história mais forte que ouvi hoje na conferência foi quando uma mulher veio até mim", disse ele em uma entrevista à "NBC News". "Ela me disse que o seu filho leciona em uma escola de São Francisco e que ele percebeu uma mudança no comportamento dos garotos negros no que se refere à forma como eles pensam sobre os seus estudos. E, sabem como é, esse é os tipo de coisa que acredito que faz com que perceba-se que não se trata da pessoa como um indivíduo isolado. O que está em jogo é o nosso país e o progresso que fizemos".

Até o momento, a mensagem de Obama transcendeu as fronteiras raciais, embora cedo ou tarde ele tenha que conquistar o voto das mulheres e dos trabalhadores brancos, fatias do eleitorado cujos votos ele não conquistou nos Estados da região das montanhas Apalaches.

Mas, na quarta-feira, Ann Robb, uma professora branca de 61 anos de Terra Alta, na Virgínia Ocidental, disse que Obama conquistou o seu apoio. "Eu teria apoiado Hillary Clinton, mas algo a respeito de Obama me fez acreditar novamente", diz Robb.

Esse estado de espírito, independentemente de quanto dure, já fez com que alguns negros ficassem mais otimistas do que nunca quanto às relações raciais nos Estados Unidos.

"Não dá para mudar a mentalidade de todos, mas isto que aconteceu ajudará bastante", afirma Sam-Brew, o motorista de ônibus, referindo-se à vitória de Obama e à resistência persistente de certos eleitores brancos a líderes negros.

Na quarta-feira, em Nova York, Hector Garcia, que é negro e gerente do Pee Dee Steak II, um restaurante na Rua 125, no Harlem, afirmou que o simbolismo da vitória de Obama ainda não havia sido absorvido até ele seguir para o trabalho, de manhã, e perceber a empolgação provocada pelo fato.

O motorista de um ônibus municipal falava sobre isso com os passageiros.
O dono de um salão de beleza e de uma ótica parou Garcia na calçada para conversar sobre a vitória de Barack Obama. E os clientes de Garcia só falavam sobre isso enquanto comiam as suas bistecas de US$ 6,99.

"Muita gente acha que daqui por diante as coisas serão diferentes para a comunidade negra", diz Garcia, 48, que apoiou Hillary Clinton, e que tem uma foto da senadora pendurada na parede.

Ronald Jeffers, que confere o estado de espírito no Harlem ao distribuir panfletos sob a marquise do Teatro Apollo, diz que ouviu os transeuntes falarem sobre a vitória de Obama.

"Acho que é um passo monumental", afirma Jeffers, 55, que diz ter conhecido Malcolm X e de outros líderes negros.

"A indicação de Obama é especialmente significativa para as crianças do Harlem", diz ele. "Se elas virem isso, acreditarão que é algo que também podem fazer. Caso contrário, crescerão desejando ser rappers".

Jackie Almond, cabeleireira no Pizazz Salon e Spa, na Avenida Lenox, no Harlem, diz que estava ao telefone quando ficou sabendo da vitória, e começou a gritar.

"Fiquei extasiada. Nem em um milhão de anos eu acharia que isso fosse possível".


*Chistina Capecchi, em Saint Paul; Brenda Goodman, em Atlanta; C.J.
Hughes, em Nova York; e Cynthia McCloud, em Virgínia Ocidental,
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