UOL Notícias Internacional
 

06/06/2008

Cúpula da FAO em Roma: conferência termina com pedido de "ação urgente"

The New York Times
Andrew Martin
Em Roma
Uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) de três dias sobre a disparada dos custos dos alimentos terminou na quinta-feira
(05/06) com os delegados pedindo a países e instituições financeiras que garantam suprimentos adequados de comida no futuro.

A declaração final, concluída na quinta-feira, pede "ação urgente e coordenada" para fazer frente ao aumento da produção alimentar, aos problemas associados à alta dos preços alimentos, à redução das barreiras tarifárias e ao incremento da pesquisa no setor agrícola.

A declaração procurou evitar a questão dos biocombustíveis, que emergiu como o assunto mais contencioso da conferência.

CÚPULA DA FAO EM ROMA
Mario López/EFE
Crianças aguardam para receber um prato de comida em mercado de Manágua, na Nicarágua
PEDIDO DE 'AÇÃO URGENTE'
COMÉRCIO GLOBAL E CRISE
MERCADO E PATERNALISMO
BIOCOMBUSTÍVEIS: IMPASSE
LULA DEFENDE ETANOL
FAO COMENTA IDÉIA DE LULA
OBESOS E FAMINTOS
Alguns países em desenvolvimento solicitaram que as culturas originalmente destinadas à alimentação não sejam utilizadas para a produção de combustíveis, mas a declaração limitou-se a apelar para que se realizem mais pesquisas sobre o assunto.

O documento também não mencionou a biotecnologia, apesar dos argumentos das autoridades dos Estados Unidos de que as culturas geneticamente modificadas são cruciais para aumentar as safras em todo o mundo. Em vez disso, a declaração sugeriu um maior investimento em "ciência e tecnologia para alimentos e agricultura".

A aprovação do documento foi adiada devido a objeções de alguns países latino-americanos, incluindo Argentina e Cuba. Esses países argumentaram que a declaração não criticou as nações ricas pela adoção de políticas que eles acreditam ter contribuído para a crise dos alimentos, como os subsídios agrícolas e o incentivo aos biocombustíveis.

Outros delegados mostraram-se céticos quanto à possibilidade de que qualquer fato significativo emergisse dos três dias de conferência e de discursos contínuos, incluindo aqueles proferidos pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, e pelo primeiro-ministro de Saint Kitts and Nevis, Denzil L. Douglas.

"Tais reuniões internacionais costumam terminar com declarações e compromissos grandiosos, que, infelizmente, não são cumpridos e nem entram em fase de implementação", diz Mary Chinery-Hesse, assessora do presidente de Gana, John Agyekum Kufuor. "A crise de alimentos enfrentada hoje pelo mundo é tão séria que, caso as conclusões deste encontro sejam também relegadas ao esquecimento, as conseqüências serão desastrosas para a humanidade".

Mesmo assim, Lennart Bage, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, instituição que faz parte da ONU, afirma que a conferência foi um sucesso, até porque ela focalizou a atenção mundial nas necessidades da agricultura. "Creio que existe um ímpeto único, que não se via há 25 anos", diz ele. "Quando foi que vimos chefes de Estado reunindo-se para falar sobre sementes e fertilizantes?"

Jacques Diouf, anfitrião da conferência e secretário geral da Organização para Agricultura e Alimentação da ONU (FAO), afirma que os resultados da conferência excederam as expectativas, ainda que algumas das questões mais espinhosas não tenham sido resolvidas. "Nós abordamos corretamente o problema da fome no mundo", diz ele. "Somente juntos podemos enfrentá-lo".

A conferência tinha sido originalmente agendada para a discussão do aquecimento global e dos biocombustíveis. Mas o foco voltou-se para os custos dos alimentos, que atingiram o seu maior valor real em três décadas, o que provocou rebeliões populares e fome em alguns dos países mais pobres do mundo.

Desde o início, os organizadores da conferência pediram aos países afluentes, em linguagem incomumente áspera, que fornecessem dinheiro para ajudar as populações pobres do mundo e que fortalecessem as pesquisas agrícolas. Os organizadores do evento também solicitaram aos governos das nações ricas que reformulassem ou descartassem políticas que, segundo eles, contribuíram para o problema, como os incentivos aos biocombustíveis, as restrições às exportações e os subsídios aos fazendeiros ricos.

Os Estados Unidos foram um alvo freqüente de críticas, e o secretário norte-americano da Agricultura, Ed Schafer, teve que ouvir muitas palavras duras. Muitas dessas críticas disseram respeito aos biocombustíveis, que, segundo Schafer, desempenham um papel menor na questão do aumento dos preços dos alimentos.

As autoridades da ONU calculam que a resolução do problema mundial dos alimentos custará entre US$ 15 bilhões e US$ 30 bilhões anualmente.

No final da quinta-feira, as promessas financeiras totalizavam vários bilhões de dólares, distribuídos por vários anos, mas não houve nenhuma grande concessão política por parte dos participantes da conferência.

Vários grupos que representam os pequenos agricultores reclamaram de que não tiveram muita chance de participar, ainda que os chefes de Estado tivessem discutido programas para ajudá-los.

"Estas crises graves e urgentes dos alimentos e do clima estão sendo usadas pelas elites políticas e econômicas como oportunidades para consolidar o controle corporativo sobre a agricultura e o patrimônio ecológico mundiais", acusou em uma declaração a organização La Via Campesina, formada por agricultores, povos indígenas e fazendeiros.

Donald Kaberuka, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, afirma que a crise mundial de alimentos ameaça os pobres da África, mas ao mesmo tempo constitui-se em uma oportunidade para reverter o rumo da agricultura no continente, onde a produção agrícola encontra-se estagnada há décadas.

"O desafio agora será a implementação das soluções", afirma Kaberuka.

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