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06/06/2008

Krugman: como ganhar dinheiro com bits, bandas de rock e livros

The New York Times
De Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Você se lembra de como era nos velhos tempos, quando tínhamos a Nova Economia? Nos anos 90, os empregos eram abundantes, o petróleo era barato e a tecnologia da informação estava prestes a mudar tudo.

Então a bolha de tecnologia estourou. Muitas empresas altamente badaladas da Nova Economia, como se revelou, eram melhores promovendo sua imagem do que gerando dinheiro -apesar de algumas delas terem sido pioneiras de novas formas de fraude contábil. Depois disso veio o choque do petróleo e o choque dos alimentos, lembretes sombrios de que ainda estamos vivendo em um mundo material.

Chega, então, de revolução digital? Não tão depressa. As previsões dos gurus de tecnologia dos anos 90 estão se tornando realidade mais lentamente do que os entusiastas esperavam -mas o futuro que previram ainda está em marcha.

Em 1994, um desses gurus, Esther Dyson, fez uma previsão notável: a de que a facilidade com que o conteúdo digital pode ser copiado e disseminado no final forçaria as empresas a venderem mais barato os resultados de atividade criativa, ou mesmo dá-los de graça. Independente de qual fosse o produto -software, livros, música, filmes- o custo da criação teria que ser recuperado indiretamente: as empresas teriam que "distribuir a propriedade intelectual gratuitamente para vender serviços e relacionamentos".

Por exemplo, ela descreveu como algumas empresas de software davam seu produto de graça mas ganhavam taxas para instalação e prestação de serviço. Mas seu exemplo mais convincente de como era possível ganhar dinheiro dando coisas de graça era o Grateful Dead, que encorajava as pessoas a gravarem suas apresentações ao vivo porque "muitas pessoas que copiavam e escutavam as fitas do Grateful Dead acabavam pagando por bonés, camisetas e ingressos de shows. Na nova era, o mercado subsidiário é o mercado".

De fato, o Dead foi pioneiro de negócios. A "Rolling Stone" publicou recentemente um artigo intitulado "A Nova Economia do Rock: Ganhando dinheiro quando CDs não vendem". Downloads estão constantemente minando a venda de discos -mas as bandas de rock atuais, relata a revista, estão encontrando outras fontes de renda. Apesar da venda de discos ser modesta, as bandas podem converter a difusão da música ou vídeos no YouTube em sucesso financeiro indireto, ganhando dinheiro por meio de "publicação, turnês, merchandising e licenciamento".

Que outras atividades criativas se tornarão um modo de promover negócios paralelos? Que tal escrever livros?

Segundo uma reportagem no "The New York Times", a agitação na BookExpo American deste ano foi em torno de livros eletrônicos. Os e-books há muito tempo estão chegando, mas de alguma forma ainda não chegaram. (Há uma velha piada brasileira: "O Brasil é o país do futuro... e sempre será". Os e-books estão parecendo isso.) Mas podemos ter finalmente chegado ao ponto em que os e-books estão prestes a se tornar uma alternativa amplamente usada à tinta e papel.

Esta é certamente minha impressão após dois meses de experiência com o dispositivo que está alimentando a agitação, o Amazon Kindle. Basicamente, a leveza e a tela do Kindle permitem que ofereça uma experiência de leitura quase comparável a da leitura de um livro tradicional. Isto deixa o usuário livre para apreciar o fator conveniência: o Kindle pode armazenar o texto de muitos livros, e quando você encomenda um novo, ele está literalmente em suas mãos em poucos minutos.

É um pacote bom o suficiente a ponto do meu palpite ser o de que leitores digitais em breve se tornarão comuns, talvez até a forma habitual de lermos livros.

Como isso afetará o setor editorial? No momento, as editoras ganham tanto com um download para o Kindle quanto na venda de um livro físico. Mas a experiência da indústria musical sugere que isso não durará: assim que os downloads de livros digitais se tornarem comuns, será difícil para as editoras continuarem cobrando os preços tradicionais.

De fato, se os e-books se tornarem a norma, o setor editorial como nós conhecemos poderá murchar. Os livros poderiam acabar servindo principalmente como material promocional para outras atividades dos autores, como leituras ao vivo com ingresso pago. Bem, se foi bom o bastante para Charles Dickens, eu acho que é bom o bastante para mim.

Agora, a estratégia de dar de graça propriedade intelectual para que as pessoas comprem sua parafernália não funcionará bem para tudo. Para o exemplo óbvio, doloroso: as organizações de notícias, incluindo o "New York Times", passaram anos tentando transformar o grande número de leitores online em leitores pagantes, com sucesso limitado.

Mas elas terão que encontrar uma forma. Aos poucos, tudo o que pode ser digitalizado será, tornando a propriedade intelectual ainda mais fácil de copiar e cada vez mais difícil de vender por mais do que um preço nominal. E teremos que encontrar modelos econômicos e de negócios que levem esta realidade em consideração.

Tudo isso não acontecerá imediatamente. Mas a longo prazo, nós todos somos o Grateful Dead. George El Khouri Andolfato

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