UOL Notícias Internacional
 

06/06/2008

Romance vulgar vira assunto nacional na Alemanha

The New York Times
De Nicholas Kulish*

Em Tegernheim, Alemanha
Não muitas sessões de leitura são restritas a um público maior de 18 anos. Um número ainda menor se passa sob a tenda de um circo. Mas nada poderia ser mais apropriado para o escandaloso best seller alemão "Feuchtgebiete" (brejo, terra úmida), da celebridade de televisão local e autora Charlotte Roche.

Com descrição chamativa da vida sexual e hábitos de higiene privados da narradora de 18 anos do romance, Helen Memel, Roche transformou algo previamente repulsivo em assunto nacional na Alemanha. Desde seu lançamento em fevereiro, o romance vendeu mais de 680 mil exemplares, se tornando o único livro alemão no topo da lista global de best sellers da Amazon.com.

O livro, que será publicado no ano que vem nos Estados Unidos, é um mergulho impetuoso por cada cavidade e subproduto, físico e psicológico, do corpo e mente de sua narradora. É difícil exagerar a vulgaridade do romance, e difícil descrevê-lo em um jornal para família.

"Feuchtgebiete" começa em um quarto de hospital após um acidente de depilação íntima. Ele dá uma topografia detalhada das hemorróidas de Helen, prossegue abordando o assunto de sexo anal e apenas ganha mais impulso daí em diante, chegando no final a caroços de abacate como objetos de satisfação sexual feminina e, -aqui é onde o debate começa- possivelmente, de empoderamento feminino.

O assunto atingiu um nervo aqui, pegando uma onda de interesse popular na retomada do debate em torno dos papéis e imagem da mulher na sociedade.

Com sua chanceler Angela Merkel e reputação progressista, a Alemanha dificilmente pareceria ávida por essa discussão. Mas a Alemanha tem uma tendência à moda antiga de esperar que mulheres escolham entre a carreira e a maternidade em vez de tentar acomodar ambas.

No ano passado, outra personalidade de televisão alemã provocou uma tempestade de controvérsia a respeito do papel da mulher, ao sugerir que deveriam ficar em casa e criar seus filhos, além de mencionar de forma positiva a política nazista de encorajar as mulheres alemãs a terem famílias grandes.

Além dos campos minados da história, há também problemas mensuráveis de igualdade de gênero na Alemanha, a maior economia da Europa. Dos 27 país membros da União Européia, a Alemanha está empatada com a Eslováquia como a terceira pior na desigualdade salarial entre homens e mulheres, com elas ganhando 22% menos, um número só superado por Chipre e Estônia.

Logo, o assunto está sendo debatido em cada jornal e revista na Alemanha no momento.

A discussão foi amplificada por dois livros de não-ficção sobre mulheres jovens, os mais tradicionais "Novas Garotas Alemãs" e "Nós Garotas Alfa".

Uma provocativa rapper na Alemanha, Lady Bitch Ray, que tem seu próprio selo independente, Vagina Style Records, ganhou as manchetes quando acusou Roche de roubar sua forma explícita de empoderamento vulgar. "Eu sou o que está no livro", disse a rapper de 27 anos, cujo nome real é Reyhan Sahin, em uma entrevista por telefone.

Os alemães já foram acusados de analisar as coisas em excesso. Às vezes um livro sujo e divertido é apenas um livro sujo e divertido, mas não este, segundo sua autora.

Roche, 30 anos, há muito se identifica como feminista e, de uma forma primeiro explorada pelo feminismo americano dos anos 60, descreve o livro como um grito de protesto contra a opressão de um mundo feminino esterilizado, depilado com lâmina e cera, banhado com ducha. Os jornais daqui contrastam sua heroína de espírito livre, sem higiene, ao modelo de feminilidade importado dos Estados Unidos: o rol de participantes magras feito palito do "Germany's Next Top Model", um programa popular de TV realidade apresentado pela supermodelo alemã Heidi Klum.

Mas Roche disse para o público daqui que sua inspiração para o livro não veio dessas mulheres, mas do corredor de produtos femininos de seu mercado local. Espiando furtivamente o público sob franjas castanhas escuras, falando em voz infantil que acentuavam suas transgressões, Roche explicou, provocando gargalhadas, como produtos com perfume de limão diziam a ela em termos censuráveis que, como dizem os comerciais, lhe faltava frescor.

"Não é feminismo em um sentido político, mas sim um feminismo do corpo, que tem a ver com a ansiedade, repressão e o temor de que você fede, e isto para mim é claramente feminista, a formação da confiança no seu próprio corpo", disse Roche, mãe de uma filha pequena e mais séria pessoalmente do que no palco, na semana passada durante uma entrevista após sua sessão de leitura.

Os críticos de Roche dizem que se trata apenas de uma releitura moderna da não depilação das pernas, desta vez para a geração de depilação genital. Enquanto isso, sexo vende e tende a chamar a atenção. Como resultado, um debate que poderia se concentrar mais lucrativamente em orientação profissional e espaço em creches fica atolado nas velhas questões da liberação sexual.

Tendo isto em mete, os críticos perguntam que ajuda prática um livro como "Feuchtgebiete" pode oferecer, e mesmo se, ao hipersexualizar a personagem principal, ele representa mais um artifício comercial do que um passo à frente.

"A combinação de pornografia e feminismo é velha, e já era uma estratégia de marketing favorita da 'Playboy' nos anos 70", disse Alice Schwarzer, a feminista mais conhecida da Alemanha e fundadora da revista "EMMA", baseada em parte na revista de Gloria Steinem, em um e-mail respondendo a perguntas sobre os livros recentes. "No momento, nós estamos passando por outro revival."

Estes acontecem com bastante freqüência -pense em Annie Sprinkle, a estrela pornô que se transformou em "educadora sexual", Madonna e em Eve Ensler, de "Os Monólogos da Vagina"- com graus diversos de relevância para o feminismo.

"Quando uma mulher quebra um tabu, isto é automaticamente incorporado ao debate do feminismo, independente de realmente pertencer a ele ou não", disse Ingrid Kolb, uma escritora alemã e feminista de longa data.

"Feuchtgebiete" é muito mais anatômico e escatológico do que erótico. Na entrevista, Roche disse que escreveu as cenas especificamente para provocar excitação, apenas para enterrá-la novamente no repulsivo. Perdida em toda a algazarra está uma história muito triste de uma jovem que sofreu traumas familiares, o centro emotivo do romance.

Apesar de sua geração na Europa e nos Estados Unidos ter lidado com muitas das mesmas questões no início dos anos 70, há diferenças, disse Kolb, 67 anos. Por exemplo, a extremismo do culto à beleza, particularmente com cirurgia, não chegava nem perto do que é hoje.

A noção de sensualidade e franqueza sexual como feminismo -empoderamento pop, se preferir- é bem estabelecida em ambos os lados do Atlântico. Como nos Estados Unidos, "Sex and the City" ultrapassou o novo "Indiana Jones" como campeão de bilheteria nos cinemas alemães no último fim de semana.

O evento tinha um certo clima circense. Cerca de 200 fãs apareceram na tenda listrada amarela e vermelha, pagando mais de US$ 25 cada para ouvir Roche ler e responder perguntas. Quando a sessão de autógrafos teve início, a canção "Rivers of Babylon" começou a tocar nos alto-falantes, que, no livro, é cantada por um dos amantes de Helen como uma ode à sua prontidão sexual.

Fãs ardorosas comparecem às leituras dela trazendo abacates como presente e, em vários casos documentados pela mídia, mulheres despreparadas desmaiaram diante de certas cenas. Em uma destas, Helen descreve guardar sêmen seco sob suas unhas como uma "lembrança" para saborear depois. E como atestado na leitura na minúscula Tegernheim -um subúrbio de Regensburg, no rio Danúbio, na famosamente conservadora Baviera- a controvérsia em torno do livro é mais do que uma agitação da mídia apenas em Berlim e outras cidades grandes.

"'Sex and the City' é sempre apenas sobre sexo, enquanto isto é mais sobre higiene, ou melhor, a falta de higiene. É algo completamente novo", disse Katja Bergmeister, 24 anos, uma estudante de Regensburg. Ela veio com uma colega de quarto e a irmã da colega, todas na faixa dos 20 anos e agarradas a pôsteres autografados de Roche. "Eu acho que agora poderemos falar mais abertamente umas com as outras", ela disse.

Bergmeister e suas amigas conheciam Roche de seu trabalho como apresentadora de canais de videoclipes, mas muitas outras disseram conhecer Roche apenas pelo livro. "É sexualidade como nunca foi representada nas revistas femininas, só que mais próximo da vida real", disse Silvia Wilfurth, 28 anos, uma psiquiatra de Regensburg. "Ele fala de temas do corpo e sexualidade que normalmente não são abordados e faz bem serem discutidos."

Roche, que nasceu na Inglaterra mas se mudou para a Alemanha quando era pequena, disse que espera poder ajudar as mulheres a encontrar "uma linguagem para a luxúria". A resposta sensacional ao seu livro foi inesperada, mas ela encara tudo sem perder o equilíbrio, incluindo sua presença no topo. "Eu diria que minha própria profissão é circense, de forma que me sinto bem à vontade", ela disse.

Alex Bolland, o organizador da sessão de leitura, disse que as autoridades locais o obrigaram a limitar o evento para maiores de 18 anos, mas que ele ainda assim estava contente por organizar o evento para Roche.

"Quase não há mais tabus hoje", disse Bolland. "Eu aprecio quando alguém consegue mostrar que ainda existem alguns."

*Victor Homola, em Berlim, contribuiu com a reportagem George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host