UOL Notícias Internacional
 

08/06/2008

Sobreviventes reviram escombros em busca do passado na China

The New York Times
Edward Wong
Em Yingxiu (China)
Não há mais nenhum resgate. Os sobreviventes dizem que os milagres são apenas isso: milagres.

O que as pessoas que cavam entre os escombros no centro da zona de terremoto estão retirando daqui agora é totalmente inanimado. Há partes de automóveis, escrituras de imóveis e roupas para crianças. Uma mulher revira os escombros todos os dias em busca de madeira que ela leva para uma tenda onde 13 famílias estão refugiadas. Outra vira as páginas do álbum de casamento do filho, cheio de pó e recuperado nas ruínas de sua casa.

Shiho Fukada/The New York Times
Sang Yuping, 54, fazendeira de milho e soja, e as fotos de sua família encontradas nos escombros: "Esse foi o achado que mais me deixou feliz. Perdi tudo no terremoto, e quando encontrei essas fotos, me senti melhor. Porque a partir delas, posso ver como era a vida antes do terremoto."
Shiho Fukada/The New York Times
Homem carrega colchão encontrado nas pilhas de ruínas. Pequenos objetos, alguns de valor sentimental, outros práticos, é tudo o que sobrou das vidas da maioria dos sobreviventes de Yingxiu
Essas são as peças que os sobreviventes precisam para continuar com suas vidas, para reconstruir partes do que lhes foi tomado repentinamente pelo terremoto de 12 de maio.

Sang Yuping espalha meia dúzia de fotos sobre um colchão em uma das barracas que o governo lhe deu. Do outro lado da rua estão os restos de seu sobrado. Longos pedaços de madeira se pronuncia na pilha de escombros em todos os ângulos, como ossos de baleia.

No colchão estão as fotos de sua filha, de seu filho e da mulher dele. É abril. Eles estão sorrindo e vestidos com robes tibetanos em um festival na escola primária local, semanas antes do prédio cair e matar a mairia das crianças que estavam dentro.

"Esse foi o achado que mais me deixou feliz", disse Sang, 54, fazendeira de milho e soja. "Perdi tudo no terremoto, e quando encontrei essas fotos, me senti melhor. Porque a partir delas, posso ver como era a vida antes do terremoto."

"Eu olho para essas fotos quando estou triste", diz ela.

Pequenos objetos, alguns de valor sentimental, outros práticos, é tudo o que sobrou das vidas da maioria dos sobreviventes de Yingxiu. A cidade fica no meio das montanhas de Wenchuan County, no epicentro do tremor que matou quase 70 mil pessoas e deixou outras 18 mil desaparecidas no sudoeste da China. A maior parte do que restou de Yingxiu são pilhas de tijolos e concreto. Mais de três quartos dos 10 mil moradores da cidade morreram.

Os soldados chineses estão demolindo um prédio após o outro, explodindo as estruturas instáveis. Logo os tratores irão retirar todos os escombros, não deixando mais nenhuma chance para recuperar o passado. Os sobreviventes estão enfrentando o perigo para salvar o que podem enquanto isso.

Às duas da tarde de quarta-feira, soldados detonaram explosivos em um prédio na margem mais distante do rio lamacento que atravessa Yingxiu. A explosão ecoou por todo o vale e espalhou uma nuvem de poeira por toda a cidade. Então uma multidão de pessoas carregando mochilas, cestas de madeira e sacolas de plástico atravessou a ponte para os campos de destroços do outro lado.

Os soldados e policiais daqui não se importam com quem pega o quê. A maioria dos donos dessas coisas estão mortos, dizem.

Sang disse que ela e o filho haviam voltado ao local especificamente para procurar as fotos da família. Mas qualquer coisa que encontrassem ajudaria. Também tinha que pensar no seu neto de 2 anos. Ela estava carregando o menino nos braços do lado de fora quando aconteceu o terremoto. Ele e a mãe agora estão vivendo com parentes em Chengdu, capital da província de Sichuan, três horas ao sul.

"Encontrei algumas roupas dele no meio dos escombros e levei para ele", disse.

Sua barraca estava repleta de outras coisas que importavam tanto a ponto de serem escavadas. Uma jarra de bebida com uma rachadura no vidro. Dois baús de madeira que guardavam edredons e cobertores. Jaquetas e blusas de lã ainda cobertos com poeira.

"Ainda estou procurando coisas", disse. "Hoje encontrei uma porta. Não tenho certeza do que vou fazer com isso."

No final da rua, uma mulher de blusa lilás e chapéu de palha estava no meio dos destroços colocando punhados de madeira em sua cesta. Ela fazia isso cinco ou seis vezes por dia: revirar os escombros, coletar madeira, e carregá-la para o outro lado do rio. Ela vivia numa tenda com outras quarenta pessoas, de 13 famílias. Eles usavam a madeira para cozinhar.

"Somos todos refugiados, e não temos nada", disse a mulher, Zheng Xiaoqiang, 40. "Dependemos uns dos outros. Todos cozinhamos juntos, comemos juntos, moramos juntos."

Seu filho, Zidong, 13, também revirava os escombros em busca de mais madeira.

"Ele não tem nada para fazer agora", disse Zheng. "Queria mandá-lo para a escola em outro lugar. Seus professores levaram alguns alunos para Chengdu. Mas ele têm medo de ir sozinho."

Ela apontou para um monte de entulho no pé da montanha, que parecia com qualquer outro monte de entulho.

"Quero voltar para minha casa para procurar algumas coisas, mas não ouso porque as pedras podem cair da montanha a qualquer momento", disse. "Eu saí correndo sem sapatos. Esses que estou usando me foram dados. Agora, talvez não caiam mais pedras, mas na minha cabeça, à noite, elas continuam caindo."

Três homens estavam cavando na mesma pilha de entulho que Zheng. Um deles encontrou uma porta de madeira e deu a ela. Então o homem começou a martelar um pedaço largo de concreto, tentando chegar mais ao fundo da pilha.

"Estamos procurando pelo diploma universitário do meu filho", disse um dos homens, Jing Liangwen, 64, ex-membro do Contresso Nacional do Povo.

"Ele é professor do ensino médio há dez anos, mas sem o diploma, é difícil conseguir outro emprego."

Ele apontou para um álbum de fotos vermelho que tinha na capa a foto do filho vestido com smoking e de sua nora vestida de noiva. "Encontrar isso me deixou muito feliz, mas talvez o diploma fosse mais importante", disse.

Ele revisou a lista de outros documentos que precisava encontrar: uma escritura de imóvel, uma carteira de trabalho, documentos do seguro de saúde, o certificado de aposentadoria.

Sem o último, disse, ele não poderia receber sua pensão de US$ 290 por mês. Conseguir documentos oficiais na China pode ser um processo tão arcaico quanto decifrar manuscritos clássicos.

Reunidos em torno dele estavam os frutos do trabalho do dia: um DVD player, dois novelos de lã, jaquetas, cobertores, travesseiros, duas bolsas femininas, duas edições da revista "China Automobile Pictorial".

"Eu adoraria encontrar uma mesa e algumas cadeiras", disse. "Em nosso acampamento, não temos lugar para sentar. Dormimos em cobertores no chão."

Do meio dos destroços ele pegou um pequeno broche de lapela, uma bandeira vermelha com a foice e martelo do Partido Comunista. Segurou o broche no alto.

Perguntei se era importante para ele.

"Como não poderia ser importante?", disse ele, colocando o broche em uma das bolsas.

Ao longo da rua principal, um homem de camiseta vermelha tentava consertar a bateria de uma caminhonete. Segundo ele, o motor ainda estava bom. O carro ainda podia funcionar.

Outro grupo de homens escavava o que antes era uma oficina mecânica. Um deles, Tang Jianhua, havia aberto uma loja para consertar equipamento de construção usado pelos trabalhadores que construíam um túnel em uma montanha do local. Tang saiu dos escombros carregando dois macacos hidráulicos vermelhos.

"Esse equipamento de reparo é meu ganha-pão", disse. "Se eles voltarem para trabalhar no túnel, vou reabrir minha oficina."

A tarde caía e as nuvens de chuva se aproximavam. O vento aumentou. Os soldados alertaram as pessoas que procuravam coisas nos escombros de que outro prédio seria demolido com explosivos dentro de alguns minutos. Zheng voltou para coletar seu último punhado de madeira do dia.

Jing foi para uma barraca para jantar com amigos. Ele havia encontrado todos seus documentos em uma gaveta de escrivaninha no meio dos escombros. Agora ele podia receber sua pensão. Seu filho podia encontrar outro emprego. A vida podia continuar. Objetos em meio aos destroços são o que os sobreviventes precisam para continuar com suas vidas, para reconstruir partes do que lhes foi tomado repentinamente pelo terremoto de 12 de maio Eloise De Vylder

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