UOL Notícias Internacional
 

09/06/2008

Amor Moderno: vamos tratar de não nos conhecermos melhor

The New York Times
Joel Walkowski*
Há alguns meses eu fiquei a fim de uma garota -um acontecimento razoavelmente comum. Mas como eu estava um pouco bêbado e ambicioso, dedici convidá-la para sair.

Isso foi uma escolha estranha, já que não sei ao certo se conheço alguém que já tenha feito um convite formal para um encontro. A maioria das pessoas saem à noite, ficam, ou mantêm relações à distância pelo Skype. A idéia de um encontro (de convidar com antecedência, gastar parte do dinheiro do aluguel num jantar e lidar com o estranhamento inicial) é concreta demais e desnecessária. Como diz o ditado: "Por que comprar a vaca se você pode conseguir o leite de graça?" Por que pagar um jantar se você pode ficar em casa assistindo TV? Se ficar em casa, você nem mesmo precisa se levantar, muito menos vestir uma camisa bacana.

Apesar das dúvidas, senti como se esse avanço em particular fosse legítimo, um ritual de passagem digno de um filme de John Hughes. Eu sempre quis ter um encontro de verdade: flores, jantar e tudo mais. Pensei que fazendo isso eu me sentiria mais como um adulto e menos como um garoto estúpido.

Então liguei para essa garota, sentindo-me um pouco desonesto enquanto procurava pelas palavras certas: "Ei, ahn, aqui é Joel. Você quer, tipo, sair comigo? Para jantar?"

"OK", disse ela hesitante, sem dúvida suspeitando que tudo aquilo era uma piada.

A resposta positiva não fez com que eu ficasse mais calmo. Se me convidarem para uma festa, uma reunião numa casa, ou um encontro ao acaso, fico confortável em falar com qualquer pessoa. Mas esse tipo de planejamento formal sempre me deixou nervoso. Voltando para casa de bicicleta, percebi que eu nem mesmo sabia o que era um encontro de verdade, fora a minha vaga noção hollywoodiana.

Aos 21 anos, já tive alguma experiência com namoros e encontros de uma noite. Já me apaixonei. Sei que estava apaixonado porque me apeguei a ele sem nenhuma vergonha. Já tive minha quota de altos e baixos, mas não tenho nenhuma idéia se estou fazendo todo esse negócio do amor certo ou errado. Não costumamos definir as coisas dessa forma.

Nessa era de personalidades cibernéticas, com encontros à distância de um clique, o jogo evoluiu para um ponto em que não há mais regras. Não se tratam dos anos 50, em que eu poderia pedir a uma garota para usar o meu broche e convidá-la para dar uma volta no carro do meu pai. Essa mudança provavelmente é benéfica para mim no fim das contas, já que tenho certeza que uma volta no Sable do meu pai seria rapidamente descartada.

Para a minha geração, a amizade freqüentemente se transforma num encontro sexual e volta a ser amizade no dia seguinte. E é fácil desde que você não se exponha ou force a barra. Não tem um pretendente? Cheque o Facebook. Tem medo de telefonar? Mande uma mensagem de texto.

Com tantos meios para se comunicar, pode-se esperar uma enxurrada de solilóquios românticos, mas não é esse o caso. Sexy é ser casual. Importar-se é assustador. Ninguém quer dar a mão, e muito menos se apaixonar. Pelo menos até isso acontecer, então já é tarde demais.

O romance planejado é visto como nada mais além de ambição, então é importante permitir que as coisas aconteçam naturalmente. O sexo é bom, assim como alguns relacionamentos, mas não na medida em que se procura ativamente por isso.

É difícil até mesmo flertar com uma garota sem se sentir óbvio e envergonhado, já que as maiores demonstrações de lugar comum acontecem no flerte, tornando-o asqueroso: "Ah, você dirige um Volvo? Como é isso?" Ao perceber que estou flertando, recuo e faço o possível para me conter. Um encontro é melhor quando está livre das intenções, deixando que o desejo ou o tédio dirijam os acontecimentos.

A seqüência típica acontece assim: amigos se conhecem num luau ou num fortuito jogo de voleibol noturno. Talvez aquela garota da sua aula de história esteja lá, e vocês comecem a conversar. Nenhum dos dois têm expectativas. Mas apenas ficar junto e dividir histórias, rir um pouco, gera uma faísca e a atração cresce, levando eventualmente a um grande beijo molhado que muda tudo e nada.

Esse é o encontro perfeito, uma surpresa livre de pressões. Com uma estranha, tudo é novo e aceitável. Suas idiossincrasias são automaticamente simpáticas. Esse primeiro encontro é algo perfeito, mas para onde ele leva?

Na melhor das hipóteses, para lugar nenhum. Da próxima vez que você encontra com ela na aula, age da mesma forma que antes, e ela também, exceto pelo fato de que ambos sabem que o que aconteceu na noite passada pode acontecer de novo.

Se isso continua, vocês têm um acordo, uma química e grandes conversas. Encontram-se duas ou três vezes por semana para sexo sem compromisso e longas conversas filosóficas.

O mais importante, você não está sozinho. Talvez lá no fundo dos recônditos de sua própria mente você pense que pode estar amando essa pessoa. Qual é a resposta padrão? Nenhuma. Se ela perguntar, "Como você se sente em relação a mim?", você responde de coração: "Vejo você como um presente inesperado dos céus. Não sei como eu posso merecer isso."

Seu relacionamento é bom. Seu relacionamento é forte. Mas não é um relacionamento, e essa é a chave. Você não espera que ela se torne sua namorada, e teoricamente ela também não quer nada além do que vocês têm.

Uma amiga minha, uma garota normal que não é nem reservada nem muito social, fica com muitos caras às abertas -ela está apenas fazendo o que quer e não se arrepende nem pensa duas vezes sobre isso. Exceto por uma vez em que ela acordou do lado de um cara, saiu da cama e viu a estante de livros dele.

Não tenho certeza sobre o quê a tocou no conteúdo da estante; talvez os livros sugerissem uma alma sensível. Tudo o que eu sei é o que ela me disse: "Só me senti mal depois de ver os seus livros". Eles o tornaram uma pessoa real, acho, uma pessoa da qual ela gostava. Ou da qual tinha pena. Porque logo depois ela partiu para o próximo.

Posso não ser um jovem típico, e talvez meus amigos também não sejam típicos, mas quase ninguém que eu conheça quer ser "o cara" ou "a garota", esses indivíduos que antes eram dinâmicos até "encontrarem alguém" e de repente deixarem de ser tão descolados. De certa forma, invejamos a vastidão dos seus sentimentos, mas certamente não queremos ficar como eles.

Mas ficar fora dos relacionamentos pode dar tanto trabalho quando manter um. Depois de ficar com a mesma pessoa várias vezes, a questão do "status do relacionamento" no Facebook me assombra, e eu hesito dianto do botão na página, imaginando se devo dar o passo desde a diversão para a obrigação. Visualizo andar de mãos dadas, conhecer os pais dela e fazer tatuagens que combinam no tornozelo.

Então volto ao meu juízo e fecho a janela do browser.

Outras vezes, entretanto, isso não compete a mim. Trabalho em uma das bibliotecas do campus, e por alguma razão obscura, minhas chefes, que na maioria são mulheres de meia-idade, decidiram fazer uma festa. Eu tinha de levar alguém, então convidei uma garota, um verdadeiro peixe raro que valia à pena fisgar (ou ser fisgado).

Isso não me impediu de apresentá-la como "minha amiga".

E também não impediu uma de minhas chefes de perguntar: "Vocês dois estão saindo?"

"Estamos", ela disse.

"Ahn, estamos?"

"Bom, isso é um encontro, não é?"

Ela tinha me pegado. Concordei em silêncio. Com uma palavra, ela havia mudado tudo. Agora perguntam dela para mim no trabalho, apesar de ela estar saindo com um amigo meu.

Queria ser capaz de explicar isso para as bibliotecárias. Elas são simpáticas às minhas outras reclamações: em relação a estudar, a ter minha carteira de motorista suspensa, a cuidar da minha galinha de estimação, e por aí vai. "Já passei por isso", elas dizem. "Você vai ficar bem."

Mas no que diz respeito ao amor, tudo o que elas dizem é: "Como vai sua namorada?"

Talvez essa desconexão tenha sempre existido. Como me disse um dos meus colegas de classe, um elegante senhor de 60 anos: "toda geração acha que descobriu o sexo". O que pode ser verdade, mas não tenho certeza se as gerações anteriores tinham o excesso de opções e a total falta de protocolo que nós temos. Isso pode revelar como a nossa obsessão pela mídia nos desensibilizou e hipersexualizou.

Mas acho que vai além disso. Nossos curtos intervalos de atenção tendem a ser medidos em nanosegundos. Vamos de um quarto para o outro assistindo televisão, navegando na Internet, jogando frisbee e encontrando satisfação em qualquer esquina, mesmo que por um breve momento.

Por causa do medo, nos encolhemos. Houve muitas vezes em que eu deveria ter chorado mas segurei as lágrimas. Momentos em que eu deveria ter dito "eu te amo", mas fiz uma piada em vez disso. Uma vez, uma garota me deu um fora e quase me arruinou. Se foi ruim? Eu não comi nada além de fast food por toda uma semana.

Tenho certeza de que eu poderia ter evitado o rompimento com um discurso de alma sobre o que era verdadeiro e o que de fato importava para mim, mas não tive a coragem. Não conheço muitas pessoas que têm.

Crescemos numa era de divórcio rampante e da confusão resultante disso. A idéia de que duas pessoas possam ser felizes juntas, amadurecendo ao lado uma da outra, parece tão falsa quanto um conto de fadas. Então quando uma relação termina, não é tão ruim. É visto como uma evidência de que ela nunca tinha sido boa mesmo.

Talvez tenhamos apenas aprendido que nada pode ser comparado ao momento perfeito de ficar com alguém inesperadamente -lábios molhados na praia, deitados na areia- então procuramos acumular tantos momentos como esse quanto possível. Ou talvez sejamos simplesmente muito imaturos para nos comprometer. Essa tem sido a ladainha contra os homens desde sempre, mas agora as mulheres pensam do mesmo jeito. Com o mundo (e o mundo do sexo) ao nosso alcance, é difícil escolher, sossegar, se comprometer.

Mas vez ou outra eu penso: se não somos capazes de nos superar e de aprender a nos sacrificar para estar com alguém, então o que resta? Uma geração de egoístas alimentados por nada mais que os nossos egos, sempre buscando aquela dose rara de auto-estima? Uma época de solidão preenchida com desejos comerciais e seleção de parceiros baseada nos critérios mais rasos?

Como um verdadeiro defensor da minha geração, acredito que, apesar da aparência, nós apreciamos o caminho do amor e da afeição, mas estamos simplesmente esperando que eles assumam o comando. Nós podemos passar um tempo no terreno do sexo fácil e do frio flerte pelas mensagens de texto, mas no fundo ansiamos pelo abraço caloroso do amor intenso.

Eu, pelo menos, anseio por isso. O que mais poderia estar por trás da minha idéia maluca de convidar uma garota para um jantar? Aliás, acabamos indo ao restaurante Chilli's e depois nunca saímos juntos de novo. Bem-vindo à idade adulta.

Joel Walkowski, que participou do Concurso Universitário de Ensaios sobre o Amor Moderno, é aluno da Universidade do Sul da Califórnia Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host