UOL Notícias Internacional
 

10/06/2008

Clima aumenta o desafio do combate à escassez de alimentos

The New York Times
David Streitfeld e Keith Bradsher*
Em um ano em que as safras globais precisam ser excelentes para aliviar a ameaça de escassez generalizada de alimentos, cresce a evidência de que elas serão medianas na melhor das hipóteses. Alguns produtores rurais estão começando a temer um desastre.

Os produtores americanos de milho e soja estão sofrendo com chuva demais, enquanto os produtores australianos de trigo são atormentados pela seca.

"O plantio teve um início ruim", disse Bill Nelson, um analista de grãos da Wachovia. "O nível de ansiedade está aumentando."

Peter Newcomb/The New York Times 
Pés de milho de uma fazenda de Griffin que não cresceram devido ao excesso de chuvas

Randy Kron, cuja família planta no canto sudoeste de Indiana há 135 anos, deveria ter milho com mais de 30 centímetros a esta altura. Mas ao longo de toda a primavera parecia que havia uma torneira no céu. A chuva é regular, impiedosa.

Alguns dos campos de Kron estão encharcados demais para plantar. Parte do milho que ele conseguiu plantar afogou, o forçando a replantar. As sementes que brotaram produziram plantas que mal chegam a 5 centímetros de altura.

Em um momento em que o milho americano deveria estar florescendo, uma planta em 10 ainda nem brotou do solo, disse o Departamento de Agricultura na segunda-feira. Como milho plantado tardiamente é mais sensível a danos por calor no alto verão, cada dia de atraso praticamente garante uma safra menor.

"Isto está deixando meus nervos no limite", disse Kron em uma manhã recente, com o céu tão escuro quanto a terra não cultivada.

No inverno passado, enquanto o tamanho da crise global de alimentos se tornava claro, os preços dobraram ou triplicaram, provocando resmungos nos Estados Unidos, tumultos em duas dúzias de países e o fantasma de um aumento da desnutrição.

Enquanto o mundo clama por mais milho, trigo, soja e arroz, produtores rurais estão tentando atender a demanda. Milhões de hectares estão retornando à produção na Europa. Na Ásia, a plantio de duas ou três safras em um único ano está se tornando mais comum.

Os produtores rurais americanos estão plantando mais de 130 milhões de hectares neste ano, mais de 1,5 milhão de hectares a mais do que em 2007. Mas grande parte das melhores terras está encharcada. Indiana e Illinois foram os Estados mais atingidos, apesar de Iowa, Wisconsin e Minnesota terem sido inundados no último fim de semana.

Bob Biehl, cuja fazenda fica próxima de Saint Louis, conseguiu plantar apenas 56 dos 263 hectares que queria dedicar ao milho. Alguns fazendeiros em sua área "nem mesmo conseguiram retirar o trator do galpão", ele disse.

O plantio americano de soja está 16% atrás do ano passado. O arroz está atrasado em Arkansas, que é responsável por quase metade do arroz produzido no país.

"Nós certamente não teremos uma safra tão boa quanto esperávamos", disse Harvey Howington, da Associação dos Produtores de Arroz de Arkansas. "Eu não acho que isso seja uma boa notícia para ninguém."

As safras sofrem altos e baixos, é claro. Mas com os estoques da maioria das commodities-chave nos níveis mais baixos em décadas, há pouco espaço para erro neste ano. Os produtores americanos estão entre os maiores do mundo, fornecendo 60% do milho que atravessa as fronteiras internacionais em um ano típico, assim como um terço da soja, um quarto do trigo e um décimo do arroz.

"Se tivermos safras ruins, será um problema", disse o economista chefe do Departamento de Agricultura, Joseph Glauber. "Não há amortecedor."

Como todo fazendeiro sabe, problemas podem surgir a qualquer momento antes da colheita ser concluída. Danny e Karen Smith se levantam no meio da noite em sua fazenda de trigo em Milton, Kansas, sempre que ouvem um trovão.

Em poucas semanas, o trigo que plantaram no outono passado estará maduro. Uma tempestade ruim ou, pior, um tornado, poderia destruí-lo. No ano passado, os Smiths perderam quase todo seu trigo para um frio tardio somado a chuva demais.

Neste ano, o clima está perfeito: fresco e úmido. "Vê quão rechonchudos estão estes grãos?", disse Smith, parado no meio de um de seus campos dourados. "Isto alimentará muitas pessoas."

A previsão é de que a safra mundial de trigo aumentará mais de 8% neste ano, graças a um clima melhor e mais área cultivada. Mas mesmo esta previsão positiva não é certa. A expectativa era de que a Austrália sairia de uma seca de dois anos, mas esta previsão agora parece um tanto duvidosa.

Com a exceção do sudoeste da Austrália e um pequeno canto do sudeste australiano, pouca chuva tem caído nos últimos meses. Muitos produtores de trigo não conseguiram nem mesmo plantar, disse Bob Iffla, presidente da Associação dos Produtores de Trigo do país.

Em conseqüência, a colheita provavelmente ficará abaixo da média: 5 a 15 milhões de toneladas de trigo disponível para exportação, em comparação a 17 ou 18 milhões de toneladas em um ano médio. "Apenas depende das chuvas; ainda não é tarde demais", disse Iffla.

No cinturão de milho americano, a questão tem sido parar a chuva. Após chuvas pesadas e enchentes no último fim de semana, o preço do milho nos mercados de commodities aumentou na segunda-feira (09/06) para um recorde de US$ 6,57 o bushel.

"Nós não podemos estalar os dedos e aumentar a produtividade", disse Emerson D. Nafziger, um professor de agronomia da Universidade de Illinois. "Nós ainda dependemos do clima."

Um ditado universal entre os agricultores é o de que preços altos nunca duram, porque encorajam uma maior produção, que atende a demanda e derruba os preços. A atual crise está testando a teoria. Com a alta dos custos de fertilizantes e diesel, as despesas da agricultura estão tão altas que, em alguns lugares, o ímpeto de plantar mais está enfrentando a tentação de não plantar nada.

Prajoub Suksapsri, em Ayutthaya, Tailândia, está entre os agricultores que estão dando tudo o que podem neste ano. Pela primeira vez em duas décadas de agricultura, Prajoub está se preparando para realizar um segundo plantio de arroz em suas terras, que geralmente não possui irrigação.

Ele e seus vizinhos arriscaram suas economias para montar um sistema para bombear água em seus campos. Se os preços do arroz permanecerem altos, Prajoub poderá conseguir seu maior lucro em anos com sua fazenda de menos de 1 hectare. Mas se os preços caírem, ele poderá sofrer perdas pesadas.

"Às vezes eu acordo no meio da noite, preocupado a respeito", ele disse, observando seu novo gerador Honda funcionando, alimentando as bombas. O proprietário dos campos que ele arrenda está cobrando o triplo do habitual apenas pelo direito de plantar a safra extra. "Ele está sugando meu sangue", disse Prajoub.

A fazenda de Helen Gabriel na Ilha Luzon, na região centro-sul das Filipinas, também tem quase 1 hectare e carece de irrigação. Diante da alta dos preços do diesel, fertilizante, sementes de arroz e pesticida, ela tomou uma decisão diferente de Prajoub.

"Nós não plantaremos nada neste ano", disse Gabriel enquanto aguardava em uma fila de três horas pelo direito de comprar dois quilos de arroz subsidiado pelo governo.

Os estoques mundiais de arroz provavelmente encolherão ligeiramente neste ano, excluindo as reservas de segurança chinesas que não estão disponíveis para comércio mundial, após já encolherem um sexto nos últimos oito anos, disse Concepcion Calpe, uma especialista da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em Roma.

Esta estimativa não leva em consideração os problemas em Arkansas. No ano passado, a safra de arroz em Arkansas produziu um recorde de 160 bushels por acre. Neste ano, dizem os especialistas de lá, 150 bushels será um feito.

"Não há dúvida a respeito; nós não teremos o arroz para exportar", disse Carl Frein, da Farmers Marketing Service, em Brinkley, Arkansas. "Países pobres como o Haiti, eu não sei o que vão fazer."

Apesar de toda a apreensão neste ano, a estação de cultivo ainda é jovem, com bastante tempo para a situação melhorar -ou para um fracasso das safras.

"Eu já vi começos medíocres melhorarem, e começos medíocres piorarem ainda mais", disse Nelson, o analista de grãos.

Kron, o agricultor de Indiana, desistiu do milho na semana passada após conseguir plantar -e em alguns casos replantar- apenas metade de seus 1.200 acres (cerca 485 hectares).

No ano passado, seu milho rendeu 150 bushels por acre. Neste ano, devido ao início tardio, ele ficará contente se conseguir 130 bushels. Ele alertou a empresa para a qual fornece, a Azteca Milling, que produz farinha para tortilhas e chips, que não poderá fornecer o habitual.

As perspectivas de Kron estão se deteriorando. Ele esperava plantar soja em parte de suas terras não usadas pelo milho, mas centenas destas terras estão ao lado do cheio Rio Wabash. Na segunda-feira, os campos começaram a alagar.

"Eu não sei se este é o pior ano que já tivemos, mas está subindo na lista rapidamente", disse o agricultor. "Eu acredito que está meio que testando a todos."

*Reportagem de David Streitfeld, em Indiana e Kansas, e de Keith Bradsher, na Tailândia e Filipinas. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host