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10/06/2008

Krugman: vitória de Obama mostrará que os EUA já mudaram

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Seguidores fervorosos de Barack Obama gostam de dizer que colocá-lo na Casa Branca transformaria os EUA. Com todo o respeito pelo candidato, isso é ver a coisa ao contrário. Obama é um orador impressionante que fez uma campanha brilhante -mas se ele ganhar em novembro será porque nosso país já se transformou.

A nomeação de Obama não teria sido possível 20 anos atrás. Hoje é possível somente porque a divisão racial, que orientou a política americana para a direita por mais de quatro décadas, perdeu grande parte de sua força.

E a "desracialização" da política americana tem implicações que vão muito além da possibilidade de estarmos prestes a eleger um presidente afro-americano. Sem a divisão racial, a mensagem conservadora -que durante muito tempo dominou o cenário político- perde a maior parte de sua eficácia.

Veja, por exemplo, aquele velho número dos conservadores: denunciar o Governo Grande. Na semana passada o porta-voz econômico de John McCain afirmou que Obama é o verdadeiro herdeiro fiscal do presidente Bush, porque ele "se dedica à recente tradição de Bush de gastar dinheiro em tudo".

Mas a verdade é que os impulsos de grandes gastos do governo Bush se limitaram principalmente às empresas de defesa. De qualquer modo, a campanha de McCain está se iludindo se acha que essa questão vai repercutir junto ao público.

Pois os americanos nunca desgostaram do Governo Grande em geral. Na verdade, eles amam a seguridade social e a assistência médica e aprovam firmemente a ajuda para comprar medicamentos, o que significa que os três grandes programas que dominam os gastos domésticos têm um apoio público maciço.

Se Ronald Reagan e outros políticos conseguiram durante algum tempo convencer os eleitores de que os gastos do governo são ruins, foi sugerindo que os burocratas estavam tirando o dinheiro suado dos trabalhadores e dando para você sabe quem: o jovem robusto que usa cupons alimentares para comprar filé mignon, a rainha da previdência dirigindo seu Cadillac. Retire o elemento racial e os americanos gostam dos gastos do governo.

Mas por que a divisão racial se tornou tão menos importante na política americana?

Parte do crédito certamente vai para Bill Clinton, que pôs fim à assistência social como a conhecíamos. Não estou dizendo que o fim da ajuda às famílias com crianças dependentes foi uma boa coisa; criou muitas dificuldades. Mas os "mendigos da previdência" tiveram um papel no discurso político enormemente desproporcional aos gastos reais da AFDC, e a reforma da previdência social tirou essa questão da mesa.

Outro grande fator foi o declínio da violência urbana.

Como documenta o historiador Rick Perlstein em seu excelente novo livro, "Nixonland", a virada firme à direita dos EUA começou realmente em 1966, quando os democratas sofreram um grave revés no Congresso -e Ronald Reagan foi eleito governador da Califórnia.

A causa dessa virada à direita, como mostra Perlstein, foi o medo branco da desordem urbana -e o temor associado de que leis de habitação justas permitiriam que negros perigosos se mudassem para bairros brancos. "Lei e ordem" tornou-se o grito de convocação dos políticos de direita, principalmente Richard Nixon, que usou esse medo para chegar à Casa Branca.

Mas durante os anos Clinton, por motivos que ninguém realmente compreende, a onda de violência urbana recuou, e com ela a capacidade de os políticos explorarem o medo dos americanos.

É verdade que o 11 de Setembro deu ao fator medo um novo impulso: Karl Rove, acusando os liberais de ser moles com o terrorismo, parecia exatamente Spiro Agnew acusando os liberais de ser moles com o crime. Mas a credibilidade dos republicanos como defensores dos EUA escorreu pelas areias do Iraque.

Deixe-me acrescentar mais uma hipótese: embora todo mundo faça piadas sobre correção política, eu afirmaria que décadas de pressão sobre as figuras públicas e a mídia ajudaram a expulsar do discurso nacional o racismo aberto e fortemente insinuado. Por exemplo, acho que hoje um político não conseguiria se safar se publicasse o infame anúncio de Willie Horton em 1988.

Infelizmente, a campanha contra a misoginia não teve sucesso comparável.

Aliás, foi durante o auge da geração "baby boom" que o racismo aberto se tornou inaceitável. Obama, que desdenha do "psicodrama" dessa geração, poderia dar um pouco mais de crédito às pessoas que provocaram essa mudança, lutaram pelos direitos civis e protestaram contra a guerra do Vietnã.

De qualquer forma, nada disso garante uma vitória de Obama em novembro. A divisão racial perdeu grande parte de sua força, mas não toda: você pode ter certeza de que escutaremos muito mais sobre o reverendo Jeremiah Wright e tudo o mais. Além disso, apesar do discurso coerente e gracioso de concessão de Hillary Clinton, alguns de seus seguidores ainda poderão se recusar a apoiar o candidato democrata.

Mas se Obama vencer será um símbolo da grande mudança que ocorreu na América. A polarização racial costumava ser uma força predominante em nossa política -mas hoje somos um país diferente, e melhor. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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