UOL Notícias Internacional
 

11/06/2008

Bússola cultural: o valor das pequenas coisas no mundo egípcio

The New York Times
De Michael Slackman

No Cairo, Egito
Emad Refaat saiu de sua oficina com propósito, suas mãos cobertas de graxa apontando rua abaixo antes mesmo que pudesse ver a rua. "Venha cá", ele disse, com sua voz cheia de segurança. "Vá até o semáforo, vire a primeira a direita, aquela é a rua Salah El Din."

Tem certeza?

"Tenho certeza absoluta."

Mas ele estava errado, totalmente errado. "Eu queria ajudar. Eu na verdade ia dizer para que perguntasse ao florista na esquina, ele conhece todas as ruas", disse Refaat, 28 anos, que ficou ligeiramente embaraçado quando lhe foi perguntado porque deu uma direção errada com tamanha convicção.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Taxista passa diante das pirâmides de Giza, próximo ao Cairo

Circular pelo Egito pode ser um desafio de entendimento, e não apenas da língua, mas da cultura, valores e normas. Uma pilha de lixo pode parecer uma sujeira para um estrangeiro, mas é um commodity para os pobres que reciclam e reutilizam quase tudo. No Egito, é rotina receber direções erradas.

Isto não ocorre porque as pessoas são perversas, mas porque se você pedir ajuda, elas se sentem obrigadas a tentar ajudar -mesmo se acabarem enviando você na direção errada.

Há uma lição nesta confusão que tem mais valor do que apenas alertar turistas a levaram um mapa, concordam sociólogos, cientistas políticos e intelectuais.

As relações dos Estados Unidos com o Egito estão estremecidas. Do homem na rua ao presidente, com razão ou não, os egípcios se sentem desrespeitados por Washington.

Não é apenas a invasão ao Iraque, ou o sentimento perene de favorecimento a Israel, ou as críticas leves que vêm de Washington sobre a falta de democracia no Egito. É o que as pessoas daqui vêem como um fracasso demonstrado em entender como elas pensam, o que prezam -mesmo quando estes valores significam enviar alguém na direção errada.

A sociedade egípcia valoriza a hospitalidade e a honra pessoal acima de precisão e objetividade; há um tipo de camuflagem emocional que os egípcios vestem para suportar seus dias. Os motoristas agem como se não houvesse ninguém na rua, mas quase sempre sorriem e acenam após uma quase colisão.

"Aqui, mesmo se alguém enviar você na direção errada, ele ainda sente que fez o que deveria fazer", disse Hamdi Taha, chefe de uma caridade, a Karam Al Islam, e um professor de comunicação da Universidade Al Azhar. "Ele não pensa que enganou você. Ele ajudou. Certo e errado é algo relativo."

São as pequenas coisas que podem ser mais difíceis de entender. Mas são as pequenas coisas, especialmente em um momento em que as pessoas estão furiosas com as coisas grandes, que podem atiçar a ira das pessoas, disse Taha.

Mesmo entre pessoas que você poderia esperar estarem do lado americano.

Como Ghada Shahbendar. Ela é uma defensora de direitos sincera que se manifesta abertamente, que fala inglês, que tem tentado estimular o governo egípcio a ser mais democrático, mais aberto e menos repressivo. Mas mesmo Shahbendar ficou ofendida com os comentários do presidente Bush, no mês passado, no Fórum Econômico Mundial em Sharm El Sheik.

Bush subiu ao palco com pouca credibilidade entre os árabes, isto é certo. Mas suas críticas indiretas aos políticos egípcios provocaram um coro nacional de protesto. As pessoas ficaram ofendidas porque Bush, com toda sua bagagem, veio ao Egito criticar o Egito, disseram Taha e Shahbendar.

"Nós somos pessoas emotivas", disse Ghada Shahbendar. "Uma crítica ao regime que nos representa, independente de concordarmos ou não, provoca emoções negativas."

É uma linha complicada na qual as autoridades devem caminhar quando tentam equilibrar os valores de países estrangeiros com os valores domésticos. Quando o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, escreveu uma carta para Bush, a linguagem foi de um tipo de prosa floreada comum na comunicação iraniana -mas muito diferente da comunicação muito direta do inglês americano. Ela foi amplamente ridicularizada como inexperiente.

No Egito, o recém substituído embaixador americano, Francis Ricciardone, era bastante apreciado pelos egípcios na rua e no poder porque falava como eles -com elogio efusivo por seus anfitriões. Mas isto o colocou em apuros em casa.

Em fevereiro de 2007, o embaixador foi entrevistado pela televisão egípcia e exibiu seu comportamento característico de hóspede na casa. "O Egito atual é muito diferente do Egito dos anos 80, tanto econômica quanto politicamente", ele disse em um momento em que estava claro que o governo estava recuando nas reformas políticas. "Há mais liberdade e há mais discussões intensas, agressivas."

Ele então foi atacado nos Estados Unidos por soar como um apologista do governo. Seu mandato terminou abruptamente na marca de três anos. Ele deixou o Egito no mês passado.

"A maioria dos egípcios gosta dele porque nós acreditávamos que ele gostava de nós", disse Shahbendar.

Os egípcios querem democracia. Bush falava sobre democracia. Mas não estava claro que ambos os lados estavam falando sobre a mesma coisa. Magdy Mohammed, um estudante de engenharia de 22 anos, estava recentemente em um café na Praça Tahrir quando refletiu sobre a democracia.

"Se democracia puder nos trazer alimento que podemos comprar, e um governo que realmente se importe com seu povo, então isso é o que queremos", ele disse.

O que ele e outros dizem que mais querem é justiça, regra da lei, não ser mais vítimas de um sistema que associa oportunidade com conexões e a capacidade de pagar suborno. Ele não falava sobre eleições livres. "Isto é o que vocês fazem na América, mas seus líderes não são melhores que os nossos", ele disse.

São numerosas as vezes em que as autoridades americanas são pegas de surpresa pelas pequenas coisas no Oriente Médio. Quando os Estados Unidos organizaram uma força policial no Iraque, os responsáveis compraram uniformes com bonés. Mas os iraquianos ficaram enfurecidos e embaraçados porque usam boinas, não bonés.

Quando Karen Hughes, a então subsecretária de Estado para assuntos públicos, disse às mulheres em Jidda, Arábia Saudita, em 2005, que elas deviam poder dirigir carros e "participar plenamente" da sociedade, ela foi recebida com hostilidade por sua platéia escolhida a dedo.

São estes tipos de suposições, a de que os cidadãos de países estrangeiros querem ser libertados pelos Estados Unidos e viverem como americanos, que podem realmente irritar as pessoas. Os egípcios podem dar direções erradas -mas apenas quando alguém lhes pede direções.

Mona El Naggar contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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