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11/06/2008

Cirurgia possibilita a muçulmanas recuperar a virgindade e a vida

The New York Times
Elaine Sciolino e Souad Mekhennet*
Em Paris
A cirurgia na clínica particular próxima aos Champs Elysées envolveu um corte semicircular, dez pontos que se dissolveram e o pagamento de US$ 2.900, um preço com desconto. Mas para a paciente, uma estudante francesa descendente de marroquinos, de 23 anos, moradora de Montpellier, a operação de 30 minutos representou a chave para uma vida
nova: a ilusão da virgindade.

Assim como um número cada vez maior de mulheres muçulmanas na Europa, ela passou por uma himenoplastia, uma restauração do hímen, a fina membrana vaginal que normalmente rompe-se durante o primeiro ato sexual.

"Na minha cultura, não ser virgem é ser impura", disse a estudante, deitada em um leito hospitalar enquanto aguardava a cirurgia na última quinta-feira. "Neste momento, a virgindade é para mim mais importante do que a vida".

À medida que cresce a população muçulmana da Europa, muitas mulheres muçulmanas jovens vêem-se imprensadas entre as liberdades proporcionadas pela sociedade européia e as tradições profundamente enraizadas das gerações dos seus pais e avós.


Ed Alcock/The New York Times 
Dr. Marc Abecassis e uma enfermeira fazem a cirurgia de himenoplastia em uma paciente

Os ginecologistas relatam que nos últimos anos mais muçulmanas têm pedido certidões com o objetivo de fornecer uma prova de virgindade a outras pessoas. Isso, por sua vez, criou uma demanda pela cirurgia de reconstituição do hímen feita por cirurgiões plásticos. Eles dizem que, quando a operação é bem feita, não é possível detectá-la, e ela produzirá o denunciador sangramento vaginal na noite do casamento. O serviço é amplamente anunciado na Internet. Pacotes médicos turísticos estão disponíveis para países como Tunísia, onde a operação é mais barata.

"As muçulmanas criadas em sociedades mais abertas na Europa têm grande probabilidade de manter relações sexuais antes do casamento", afirma o cirurgião plástico Hicham Mouallem, que mora em Londres e realiza a operação. "Assim, se uma dessas mulheres procura um muçulmano para se casar e não deseja ter problemas, ela tentará recuperar a virgindade".

Estatísticas confiáveis não estão disponíveis, já que a cirurgia é feita na sua grande maioria em clínicas particulares, e na maior parte dos casos não é coberta pelo seguro de saúde governamental.

Mas fala-se tanto sobre a recuperação do hímen que isto já virou assunto de uma comédia que estréia na Itália nesta semana. "Women's Hearts"
("Corações de Mulheres"), conforme o filme foi traduzido para o inglês, conta a história de uma mulher marroquina que mora na Itália e que faz uma viagem por terra até Casablanca para submeter-se à operação.

Uma personagem faz piada com o assunto, afirmando que deseja "zerar o odômetro".

"Nós percebemos que aquilo que acreditávamos que fosse uma prática esporádica é na verdade bastante comum", afirma Davide Sordella, o diretor do filme. "Essas mulheres podem viver na Itália, adotar a nossa mentalidade e usar calças jeans. Mas, nos momentos críticos, elas nem sempre têm a força para seguir o que é preconizado pela cultura muçulmana".

A questão é particularmente polêmica na França, onde há um debate intenso e renovado sobre um preconceito que deveria ter sido sepultado junto com a revolução sexual do país, 40 anos atrás: a importância da virgindade da mulher.

O furor seguiu-se à revelação, duas semanas atrás, de que um tribunal em Lille, no norte da França, anulou um casamento de muçulmanos feito em
2006 porque o noivo descobriu que a noiva, ao contrário do que alegara, não era mais virgem.

O drama doméstico atraiu atenções em todo o país. O noivo, um engenheiro não identificado de trinta e poucos anos, saiu do leito conjugal e anunciou aos convidados do casamento, que ainda festejavam, que a sua noiva tinha mentido sobre o seu passado. Naquela mesma noite ela foi deixada na porta da casa dos seus pais.

No dia seguinte, ele procurou um advogado, buscando a anulação do casamento. A noiva, uma estudante de enfermagem de vinte e poucos anos, confessou ao tribunal que não era mais virgem, e concordou com a anulação. No processo não se mencionou a religião. Em vez disso, citou-se uma quebra de contrato, e chegou-se à conclusão de que o engenheiro casou-se depois que ela "apresentou-se a ele como sendo uma moça solteira e casta". Na França secular e republicana, o caso toca em várias questões bastante delicadas: a intromissão da religião na vida cotidiana; as justificativas aceitas para a dissolução de um casamento e a igualdade dos sexos.

Nesta semana o parlamento recebeu telefonemas pedindo a renúncia de Rachida Dati, a ministra da Justiça da França, depois que ela inicialmente acatou a decisão. Dati, que é muçulmana, recuou e ordenou uma apelação.

Alguns advogados, médicos e feministas advertem que a aceitação por parte do tribunal do papel central da virgindade no casamento poderia encorajar mais mulheres francesas de origem muçulmana árabe e africana submeter-se à cirurgia de recuperação do hímen. Mas discute-se muito se a cirurgia é um ato de liberação ou de repressão.

"O julgamento foi uma traição cometida contra as mulheres francesas muçulmanas", afirma a escritora feminista Elisabeth Badinter. "Ele envia a essas mulheres uma mensagem de desespero, ao afirmar que a virgindade é importante aos olhos da lei. Mais mulheres irão dizer para si próprias: 'Meu Deus, não correrei esse risco. Vou recriar a minha virgindade'".

A sina da noiva rejeitada persuadiu a estudante de Montpellier a submeter-se à operação.

Ela insistiu que nunca manteve relações sexuais, e disse que só descobriu que o seu hímen estava rompido quando tentou obter um certificado de virgindade para apresentá-lo ao namorado e à família.

Talvez a sua alegação seja verdadeira: ela teria sangrado após um acidente quando andava a cavalo aos dez anos de idade.

Segundo a estudante, o trauma ao descobrir que não era capaz de provar a sua virgindade foi tão intenso que ela discretamente tomou dinheiro emprestado para pagar pela cirurgia.

"De repente a virgindade tornou-se importante na França", diz ela.
"Percebi que poderia ser vista como aquela mulher sobre a qual todos falam na televisão".

Os cirurgiões que realizaram a operação afirmam que estão conferindo poder às suas pacientes, ao proporcionar a elas um futuro viável e impedir que sejam vítimas de abusos -ou até mesmo de assassinatos- pelos seus pais ou irmãos.

"Quem sou eu para julgar?", pergunta Marc Abecassis, o cirurgião plástico que restaurou o hímen da estudante de Montpellier. "Tenho colegas nos Estados Unidos cujas pacientes fazem isso como presente do Dia dos Namorados para os maridos. O que faço é diferente. Não é algo para diversão. As minhas pacientes não têm escolha caso desejem encontrar serenidade -e maridos".

Especialista naquilo que chama de "cirurgia íntima", incluindo uma operação para aumento do tamanho do pênis, Abecassis diz que realiza duas operações de restauração de hímen a cada semana.

A Escola Francesa de Ginecologia e Obstetrícia opõe-se à cirurgia por motivos morais, culturais e de saúde.

"Tivemos uma revolução na França para conquistar igualdade; tivemos uma revolução sexual em 1968, quando as mulheres lutaram pela contracepção e pelo aborto", argumenta o médico Jacques Lansac, o presidente da associação. "Conferir tanta importância ao hímen é uma regressão, uma submissão à intolerância do passado".

Mas as histórias das mulheres que passaram pela cirurgia expõem a complexidade e as emoções intensas que estão por trás de tais decisões.

Uma muçulmana de 32 anos, nascida na Macedônia, diz ter optado pela operação para evitar ser punida pelo pai, quando o seu relacionamento de oito anos com o namorado terminou.

"Fiquei com medo de que o meu pai me levasse a um médico para descobrir se eu ainda sou virgem", conta a mulher, que é dona de uma pequena empresa e que mora sozinha em Frankfurt, na Alemanha. "Ele me disse: 'Eu perdoarei tudo, mas não se você tiver lançado sujeira contra a minha honra'. Não tive medo de que ele me matasse, mas sem dúvida alguma ele teria me espancado".

Em outros casos, a mulher e o seu parceiro decidem juntos que ela deve submeter-se à operação. Uma mulher de 26 anos de ascendência marroquina diz ter perdido a virgindade quatro anos atrás, quando apaixonou-se pelo homem com quem agora pretende casar-se. Mas ela e o marido decidiram dividir os US$ 3.400 cobrados pela cirurgia de restauração de hímen, que é feita em Paris.

"Para o meu noivo o fato de eu não ser virgem não tem importância -mas isto representaria um grande problema para a família dele", diz ela.
"Eles sabem que você pode derramar sangue nos lençóis na noite de núpcias, de forma que eu necessito de uma prova melhor".

Enquanto isso, as vidas do jovem casal francês cujo casamento foi anulado encontram-se paralisadas. O Ministério da Justiça solicitou ao promotor de Lille uma apelação, argumentando que a decisão do tribunal "provocou um debate social acalorado" que "atinge todos os cidadãos do nosso país, e especialmente as mulheres".

No Centro Islâmico de Roubaix, o subúrbio de Lille onde foi celebrado o casamento, há simpatia pela mulher.

"O homem é o maior de todos os burros", afirma Abdelkibir Errami, o vice-presidente do centro. "Mesmo que uma mulher não seja mais virgem, ele não tem o direito de expor a honra dela. Não é isso o que o islamismo ensina. Ele ensina o perdão".

*Katrin Bennhold, em Paris, e Elisabetta Povoledo, em Roma, contribuíram para esta matéria UOL

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