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11/06/2008

Ganhos econômicos da Índia são anulados pela inflação

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli
Desde que um discreto defensor do liberalismo econômico chamado Manmohan Singh tornou-se primeiro-ministro quatro anos atrás, a economia da Índia cresce vertiginosamente a um índice médio de quase 9% ao ano e a renda per capita atingiu um valor que é quase o dobro daquele de uma década atrás.

Mas, recentemente, em uma sucessão rápida, ocorreram aumentos drásticos dos alimentos e dos combustíveis, sentidos no mundo inteiro, mas que foram especialmente dolorosos para a Índia, onde mais de um quarto da população vive com menos de um dólar por dia. Os choques globais colocaram à prova a capacidade do governo de manter os subsídios aos pobres, enquanto vê-se encurralado entre a necessidade de satisfazer os investidores internacionais, mantendo as contas em ordem, e a de atender às demandas de um eleitorado bastante pressionado.

Na semana passada, apesar da aproximação das eleições do ano que vem, o governo sucumbiu aos imperativos econômicos e reduziu os seus subsídios aos combustíveis, gerando protestos dispersos e conferindo uma vantagem política aos seus oponentes.

"A mistura letal de aumentos de preços ameaça minar nos próximos seis meses toda aquela boa vontade que o governo vinha conquistando", afirma Mahesh Rangarajan, um analista político independente.

Com a inflação atualmente no seu nível mais alto em mais de três anos, os críticos do congresso liderado pelo partido governista mal podem conter a alegria. Os partidos de esquerda, teoricamente aliados de Singh, conclamaram a população a realizar protestos nacionais. Lançando mão da sua retórica hiperbólica, o direitista Partido Janata Bharatiya
(BJP) chamou o aumento dos combustíveis de um "ato de terrorismo econômico".

"Eis aqui um governo que administrou tão mal a economia que não só os pobres, mas também a classe média, estão vendo o seu poder de compra cair devido à disparada dos preços", disse a membros do seu partido, neste mês, o líder oposicionista Lal Krishna Advani.

Na verdade, a renda aumentou mais nos últimos quatro anos do que durante os governos anteriores, liderados pelo BJP. O ministro das Finanças, Palianappan Chidambaram, denunciou a crítica oposicionista, rotulando-a de "um exercício de auto-ilusionismo".

Um ministro, que não quis que o seu nome fosse citado ao criticar o próprio governo, minimizou o impacto político dos aumentos dos preços dos alimentos e combustíveis, mas apenas porque a popularidade do governo já caiu tanto.

O governo usou as suas grandes reservas obtidas com impostos para beneficiar eleitores da grande base da pirâmide social com um ambicioso programa de serviços públicos no interior do país, aumentando os investimentos em saúde e educação e, mais recentemente, cancelando dívidas de agricultores.

Mas, apesar desses esforços e das grandes conquistas econômicas, disse o ministro, a maioria dos indianos não sentiu os benefícios dos programas de assistência do governo. "Eles ainda estão lutando com a pobreza", afirmou o ministro.

"Se as coisas tivessem transcorrido tão satisfatoriamente no que diz respeito à maioria do eleitorado, isto poderia ter sido apenas um grande choque", disse o ministro, referindo-se ao aumento dos combustíveis. "Mas, como tal aumento ocorre em meio à sensação de que não fizemos muito pelos eleitores, ele pode ser a gota d'água".

Além disso, o governo enfrenta novas pressões para conter a inflação, mas qualquer medida neste sentido - por exemplo, uma elevação das taxas de juros - poderia desacelerar o crescimento que muitos indianos ainda não perceberam.

Desde o anúncio do governo federal na semana passada, vários governos estaduais mobilizaram-se rapidamente para reduzir o impacto dos aumentos por meio da redução dos impostos estaduais sobre os combustíveis. Singh orientou vários ministérios a apertar o cinto, cancelando, por exemplo, viagens estrangeiras.

Há quem argumente que o custo político não teria sido tão drástico caso o governo tivesse aproveitado a oportunidade para reformar a pesada estrutura de preços de combustíveis com desconto quando chegou ao poder pela primeira vez.

"Ninguém faz reformas quando a situação é boa, quando o preço do petróleo não chegou próximo aos US$ 150 o barril, quando a inflação não é um problema e quando a história do crescimento econômico é positiva", diz Bibek Debroy, economista do Centro de Pesquisas de Políticas Governamentais, uma instituição não partidária de Nova Déli. "Agora o governo está atolado nesta situação perversa".

Os analistas argumentam ainda que, neste estágio, não aumentar os preços seria algo tão imprudente sob o ponto de vista fiscal que poderia ter conseqüências econômicas potencialmente funestas, incluindo a fuga de capital. "Isto é um combate a um incêndio", adverte Subir Gokarn, economista do Standard & Poor's na Ásia. "Não se trata de uma simples reforma. Se não houver alguma ação, a situação fiscal vai se deteriorar".

Ouvir vários indianos comuns a respeito de suas situações econômicas nos últimos quatro anos significa escutar histórias de frustração e ambivalência.

Em Nova Déli, Virender Kumar, 29, condutor de um riquixá (pequeno veículo indiano para duas pessoas), fala sobre a melhoria da sua vida nos cinco anos decorridos desde que se mudou para cá, vindo do Estado rural de Punjab. Ele comprou o seu primeiro telefone celular no ano passado e atualizou várias vezes os modelos de aparelho. Ele mudou-se com a mulher e a mãe de um apartamento de um quarto para outro de dois.
Kumar fez um seguro de aposentadoria, e o aumento da sua renda permitiu que a família pudesse comprar carne até duas vezes por semana.

Mas foi aí que veio o golpe. "O preço do arroz está acabando com a gente", queixou-se ele nesta semana.

Em Mumbai, Amit Talreja, 62, vendedor de automóveis, reclama de ter sido atingido duplamente. Os preços mais elevados dos combustíveis aumentaram os custos do seu transporte e reduziram a sua renda, já que os potenciais clientes tornaram-se cautelosos na hora de comprar carros.
Ele diz que geralmente vendia de 30 a 50 carros mensalmente.

Mas, na semana passada, desde que o preço da gasolina aumentou, Talreja não viu um só comprador entrar na agência. Em vez disso surgiram dez pessoas querendo vender produtos.

"O aumento dos combustíveis é uma má decisão, e isso criará muitos problemas para o cidadão comum", afirmou Talreja. Ele está pensando em votar pela primeira vez no BJP.

Hasan Ansari, 42, dono de um restaurante, discorda. Segundo ele o governo está simplesmente passando adiante o problema da alta mundial dos preços do petróleo. "Por que eu deveria estar com raiva do governo?", questiona ele. "Será que eles deveriam doar dinheiro do próprio bolso?"

A seguir ele pegou uma caneta e perguntou se seria de se esperar que o governo continuasse subsidiando as canetas caso o preço destas disparasse no mercado mundial.

"O aumento pronunciado nos preços dos alimentos e combustíveis está sendo agravado por um paradoxo peculiar enfrentado pelo governo de Singh", argumenta T.N. Ninan, editor do jornal "The Business Standard", de Nova Déli. "Ansioso por demolir o slogan 'Índia Brilhante' do seu predecessor, o atual governo é incapaz de gabar-se da prosperidade do país". Em um editorial no último sábado, ele descreveu o governo Singh como "determinado a focar-se no fracasso, ao invés de no sucesso".

*Anand Giridharadas, em Mumbai, contribuiu para esta matéria. UOL

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