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12/06/2008

Hillary Clinton perdeu a chance de tratar a questão sexual

The New York Times
Nicholas D. Kristof
Colunista do The New York Times
Uma das oportunidades perdidas na temporada das eleições primárias foi o fato de Hillary Clinton jamais ter feito um discurso sobre a questão sexual comparável ao que Barack Obama proferiu a respeito da questão racial.

É algo compreensível. Ela não quis ser reduzida à condição de "a candidata mulher". Mas tal discurso teria gerado uma discussão útil a respeito das mulheres em cargos de liderança. Portanto, Obama, a tarefa agora cabe a você. Por que você não faz esse discurso? Prestativamente, estou sugerindo alguns pontos importantes a serem abordados:

O racismo é mais profundo, mas o sexismo é mais disseminado nos Estados Unidos de hoje. Nas pesquisas, uma quantidade maior de norte-americanos afirma que estaria disposta a votar em um candidato negro do que em uma mulher, e os comentários negativos de natureza sexista são ouvidos com mais freqüência do que os de cunho racial.

Presume-se que, em parte por causa do sexismo (e também devido à auto-seletividade), as mulheres atualmente ainda estão sub-representadas na arena política. As mulheres constituem apenas 23% dos legisladores em 50 Estados, uma proporção que cresceu muito pouco na última década. Além disso, o universo de comentaristas políticos é preponderantemente masculino, o que é um dos motivos pelos quais os eleitores de Hillary Clinton sentiram que foram injustamente derrotados.

Nem sempre temos consciência dos nossos preconceitos. Alguns dos eleitores de Hillary Clinton afirmam que ela foi derrotada pela misoginia, embora aqueles que votaram contra ela neguem tal argumento:
"O motivo pelo qual não votei em Hillary Clinton não foi o fato de ela ser mulher. O que ocorre é que ela é uma oportunista de linha dinástica que votou a favor da Guerra do Iraque e..." A questão é que existem pesquisas abundantes em psicologia que demonstram que muitas vezes somos moldados por estereótipos dos quais não temos consciência. Muitas pesquisas consistiram em apresentar aos participantes o mesmo curriculum vitae, de forma alternada, com um nome masculino e um feminino.

Geralmente, o homem é tido como mais talhado para cargos executivos - mesmo entre pessoas bem intencionadas que são contrárias à discriminação sexual, e até mesmo entre as mulheres.

No fim das contas, nada disso prova ou invalida a tese de que o preconceito sexual desempenhou um papel na eleição. Mas se Hillary Clinton foi prejudicada por essa questão, o problema dela não se deveu tanto a misóginos, e sim a homens e mulheres comuns que acreditam em oportunidades iguais - mas que também estão condicionados a achar que presidentes falam com voz grossa.

A primeira mulher presidente poderá ser uma conservadora. O primeiro presidente católico, John F. Kennedy, não era "muito católico". Da mesma forma, o primeiro presidente negro provavelmente não será "muito negro", seja devido à cor da sua pele ou por causa da sua história pessoal no que se refere à luta pelos direitos civis. E a primeira presidente mulher provavelmente não será "muito mulher", no sentido de ter emergido do movimento de defesa dos direitos das mulheres.

Margaret Thatcher e Angela Merkel, ambas conservadoras sem nenhum vínculo com o movimento feminino, são indicações do tipo de mulher que poderá conquistar a Casa Branca. Ou pensem na já falecida senadora Margaret Chase Smith, a primeira mulher indicada para a presidência em uma grande convenção política partidária. Ela era republicana.

As mulheres fazem uma diferença na política, mas não é uma diferença muito grande. Quando as mulheres obtiveram pela primeira vez o direito ao voto em 1920, acreditava-se que elas representariam uma grande ajuda para os democratas, que se mostraram mais simpáticos ao sufrágio feminino. Em vez disso, os republicanos venceram as três eleições seguintes. Atualmente, a melhor indicação do comportamento legislativo de um senador é o seu partido político e o seu Estado, e não o fato de ser homem ou mulher.

Mesmo assim, foram preponderantemente as mulheres no Congresso que defenderam questões como o planejamento familiar e o direito ao aborto, e elas também parecem ser um pouco mais sensíveis à discriminação sexual. De forma menos perspicaz, as mulheres foram protagonistas cruciais para que fosse implantada a Lei Seca.

A política pode fazer uma diferença para as mulheres. Se Obama quiser mostrar que a questão da igualdade sexual está na sua agenda, ele poderia abordar um problema que não despertou o interesse de nenhum
presidente: a mortalidade materna, a questão órfã da saúde pública global. É uma vergonha o fato de uma mulher morrer a cada minuto no mundo devido ao parto.

Em alguns países africanos as mulheres correm um risco de mais de 10% de morrer durante o parto. Se os homens estivessem morrendo segundo este mesmo índice por tornarem-se pais, o G-8 estaria fazendo reuniões de emergência. UOL

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