UOL Notícias Internacional
 

12/06/2008

Protestos contra a carne dos EUA revelam o orgulho ferido dos sul-coreanos

The New York Times
Choe Sang-Hun
Quando dezenas de milhares de sul-coreanos tomaram conta do centro de Seul na última terça-feira, no maior protesto contra o governo nos últimos 20 anos, a polícia montou barricadas com contêineres de navios.
Os policiais besuntaram os contêineres de óleo e os encheram de sacos de areia a fim de impedir que os manifestantes pudessem escalá-los ou virá-los para marchar em direção ao palácio do presidente Lee Myung-bak, que estava a apenas alguns quarteirões da confusão.

Ao se depararem com a muralha, as pessoas colaram nela inúmeros panfletos idênticos, cuja mensagem sintetizava dramaticamente a imagem de Lee e a sua alienação em relação à grande parte da população: "Esta é uma nova fronteira para o nosso país. A partir daqui começam os Estados Unidos da Coréia do Sul".

Ao fundo, uma voz feminina que saía de uma bateria de auto-falantes estimulava a multidão a gritar: "Lee Myung-bak é Lee Wan-yong!"

Lee Jae-Won/Reuters - 11.jun.2006 
Manifestantes encontram barreira de contêineres próximo à embaixada dos EUA em Seul

Lee Wan-yong é um nome infame conhecido por toda criança sul-coreana.
Ministro da corte real na virada do século passado, ele é o traidor nacional número um por ter ajudado o Japão imperial a anexar a Coréia como sua colônia.

Os protestos revelam a mudança da sorte política de Lee. Quando ele foi eleito, em dezembro do ano passado, os sul-coreanos o saudaram como um líder há muito esperado, capaz de salvar a aliança do país com os Estados Unidos; uma aliança que ficou prejudicada durante o governo do seu antecessor de esquerda, Roh Moo-hyun.

Porém, apenas seis meses depois, Lee vê-se difamado pelos coreanos que dizem que ele é aquilo que Roh, em uma declaração famosa, afirmou que jamais se tornaria: "Um líder ajoelhado diante dos norte-americanos".

"Embora seja um mestre da liderança pragmática, Lee subestimou o orgulho nacionalista coreano", afirma Choi Jin, diretor do Instituto de Liderança Presidencial, em Seul. "O que atrapalhou a presidência de Roh foi o excesso, e o que atrapalha a presidência de Lee é a falta de nacionalismo".

As palavras de ordem revelaram que a manifestação não dizia respeito apenas à impopular decisão do presidente de suspender a proibição das importações de carne norte-americana. Ficou claro que também estava em jogo o orgulho coreano. Este é um pequeno país com uma localização estratégica e que detesta sentir-se manipulado pelas grandes potências à sua volta. Os imperadores chineses exigiam da Coréia o pagamento de tributos, os ocupantes japoneses proibiram os coreanos de falarem a própria língua; rivalidades entre norte-americanos, chineses e russos durante a Guerra Fria dividiram a Coréia em duas partes. Embora em sua maioria aprovem a aliança com os Estados Unidos, os sul-coreanos não podem sequer ouvir sugestões de que precisam obedecer ordens dos Estados Unidos.

A origem da queda de popularidade de Lee encontra-se no seu primeiro momento glorioso como presidente.

Em 19 de abril último, ele tornou-se o primeiro líder sul-coreano a ser convidado para visitar o retiro presidencial norte-americano em Camp David, no Estado de Maryland. Dias antes da visita, os seus assessores anunciaram a reunião com o presidente Bush como sendo um acontecimento importantíssimo - algo que não foi concedido a líderes como Roh, que era freqüentemente acusado de ser muito nacionalista e anti-americanista.

Sul-coreanos que lutaram ao lado dos norte-americanos durante a Guerra da Coréia, no início da década de 1950, saíram exultantes às ruas. Os ex-combatentes confiavam em Lee como sendo um líder capaz de salvar o país daqueles que eles chamaram de "elementos esquerdistas, anti-americanistas e pró-Coréia do Norte", como Roh. Na véspera da reunião, Seul decidiu suspender a proibição das importações de carne bovina norte-americana, que estava em vigor havia cinco anos, tendo sido imposta em 2003 depois que um caso do mal da vaca louca foi confirmado nos Estados Unidos. Ao viajar levando um presente político para Bush, Lee revelou como estava ansioso por reconstruir laços fortes com Washington.

O que ele aparentemente não anteviu foi o tamanho da reação em casa, entre os sul-coreanos jovens que observaram a atitude do presidente com frieza.

"Aquilo que ele fez diferiu pouco da atitude de um antigo rei coreano oferecendo tributos a um imperador chinês", critica Kim Sook-yi, 35, funcionária da construção civil que aderiu ao protesto na última terça-feira com os dois filhos. "Desta vez nós prestamos tributo a Washington? Isso é humilhante e muito ruim para a educação das crianças coreanas".

As manifestações tiveram início em 2 de maio, quando centenas de adolescentes fizeram uma vigília a luz de velas em Seul, e cresceu rapidamente. Nesta semana elas tornaram-se tão intensas que o gabinete inteiro ofereceu a sua renúncia.

Bloggers estrangeiros que assistem à confusão questionam: Por que milhares de sul-coreanos aderiram aos protestos referente ao mal da vaca louca, mas não perguntaram por que os próprios norte-americanos não estão protestando contra a carne produzida nos Estados Unidos? Será que os sul-coreanos protestariam com a mesma intensidade caso a carne viesse da Austrália ou da Nova Zelândia? E quanto aos coreanos-americanos que comem a carne norte-americana?

Porém, para muitos sul-coreanos a questão da carne norte-americana não diz respeito inteiramente a uma preocupação relativa à saúde e de caráter científico. E tampouco é uma questão totalmente econômica - o preço da carne norte-americana é a metade daquele cobrado pela carne produzida no país. Para eles, os protestos são também o mais recente teste simbólico para determinar se o seu líder é capaz de resistir à pressão das super-potências, mesmo que haja bons motivos para a pressão, como no caso da polêmica da carne. A Coréia do Sul prometeu acabar com a proibição assim que a Organização Mundial de Saúde Animal determinasse que a carne bovina dos Estados Unidos é apropriada para o consumo, algo que aconteceu em setembro do ano passado.

A Coréia do Sul construiu a 13ª maior economia do mundo em grande parte por meio das exportações. Apesar disso, os ressentimentos históricos persistem.

Os sul-coreanos que têm entre 40 e 50 anos de idade recordam-se de uma popular música infantil que lhes foi passada pelos seus pais e avós:
"Não sejam ludibriados pelos soviéticos. Não confiem nos norte-americanos. Ou os japoneses irão se tornar novamente poderosos". Os sul-coreanos ainda mostram-se irritados com o fato de os Estados Unidos e a União Soviética terem dividido a Coréia após libertá-la do regime colonial japonês ao final da Segunda Guerra Mundial.

A forma como os líderes sul-coreanos navegam pelas águas conturbadas deste atual sentimento nacionalista pode fortalecer ou acabar com as suas carreiras políticas.

Quando duas adolescentes sul-coreanas foram mortas por um veículo blindado militar norte-americano seis anos atrás, o problema foi visto a princípio como apenas um trágico acidente de trânsito. Mas muitos jovens coreanos que cresceram sentindo-se humilhados pela presença militar norte-americana organizaram protestos.

Roh, que era relativamente novo no cenário político, aproveitou esta onda para conquistar a vitória eleitoral.

Mas logo os sul-coreanos cansaram-se dos pronunciamentos ideológicos de Roh, que muitas vezes prejudicaram a aliança com os Estados Unidos. Eles deram uma vitória por ampla margem a Lee, que prometeu trazer pragmatismo para a presidência.

"Lee foi tomado pelo excesso de confiança", afirma Kang Won-taek, professor de ciência política da Universidade Soongsil. "Ele calculou que, como as pessoas rejeitaram Roh, teria que assumir um comportamento diametralmente oposto ao do ex-presidente".

Muitos especialistas em Seul identificam uma linha sutil que separa o nacionalismo e o antiamericanismo entre os coreanos. Eles afirmam que a recente série de demonstrações se constituem mais em uma expressão do primeiro do que do segundo fenômeno. Mas às vezes esta divisão torna-se muito tênue.

Alexander Vershbow, o embaixador dos Estados Unidos na Coréia do Sul, sentiu o gosto do sentimento antiamericanista em ebulição quando, na semana passada, enfatizou que a carne norte-americana é segura.

"Esperamos que os coreanos comecem a compreender melhor a ciência e a entender mais os fatos relativos à carne norte-americana", afirmou Vershbow.

No dia seguinte, políticos e manifestantes classificaram o comentário de "um insulto a todos os cidadãos coreanos".

Jeon Sang-il, um sociólogo da Universidade Sogang, diz que o presidente sul-coreano e o embaixador norte-americano parecem ter dado um tiro no próprio pé.

"Hoje em dia os coreanos dizem que só há dois antiamericanistas na Coréia do Sul", diz Jeon. "Um é Lee Myung-bak e o outro é Vershbow. Isso porque os dois geraram sentimentos antiamericanistas com aquilo que fizeram e falaram".

Vershbow lamentou a reação às suas palavras, afirmando que não foi bem compreendido. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host