UOL Notícias Internacional
 

12/06/2008

Vídeo chama atenção para crescente violência contra minorias na Rússia

The New York Times
Michael Schwirtz

Em Moscou
Shamil U. Odamanov costumava telefonar para seus pais quase que diariamente de Moscou, onde trabalhava como operário após se mudar de sua aldeia, na região do norte do Cáucaso da Rússia, em busca de um melhor emprego. Então, há pouco mais de um ano, os telefonemas pararam.

Agora, para horror da família, eles acham que sabem o motivo. Eles identificaram Odamanov, 24 anos, como o homem decapitado em um vídeo de um duplo assassinato, aparentemente cometido por membros de um grupo neonazista russo no ano passado.

"Não é que seja apenas parecido, é ele, ponto", disse Umakhan Odamanov, o pai de Shamil, por telefone de sua casa no Daguestão, uma república russa no norte do Cáucaso. Os Odamanovs, que vivem no Daguestão há gerações, são kumyks, um minúsculo grupo étnico nativo da região. Os investigadores disseram que Shamil Odamanov é provavelmente uma das duas vítimas no vídeo, homens de pele morena que aparecem ajoelhados sob uma bandeira nazista antes de serem mortos.

The New York Times 
Video exibido na Internet mostra o assassinato de duas pessoas na Rússia por neonazistas

Apesar de inicialmente considerado falso, o vídeo, que apareceu originalmente em sites ultranacionalistas russos em agosto, se espalhou rapidamente pela Internet e foi exibido em versões editadas em televisão nacional. Ele colocou o problema da violência contra minorias étnicas em primeiro plano de discussão nacional, mesmo que apenas brevemente.

A polícia está investigando várias pessoas, algumas de grupos nacionalistas, em ligação com as mortes, mas nenhum suspeito foi oficialmente identificado, disse Vladimir I. Markin, o porta-voz do Comitê Investigativo do Gabinete do Procurador-Geral, em uma entrevista.

Em fevereiro, um tribunal declarou Viktor Milkov, um estudante de Adygei, no sul da Rússia, culpado de ajudar a divulgar o vídeo e o sentenciou a um ano de prisão. Ele alega que uma pessoa desconhecida enviou o vídeo por e-mail para ele.

A polícia não encontrou os corpos das vítimas, disse Markin, nem identificou onde os assassinatos ocorreram.

Ataques contra minorias étnicas na Rússia têm crescido constantemente ao longo dos últimos anos, à medida que mais migrantes do exterior ou de enclaves étnicos mais pobres da Rússia se mudam para grandes centros urbanos à procura de trabalho.

Odamanov estava entre eles. Ele deixou sua aldeia natal de Sultanyangiyurt, no Daguestão, há cerca de dois anos e se mudou para Moscou para procurar um emprego e "possivelmente uma esposa", disse seu pai.

Em seus telefonemas regulares para casa, ele freqüentemente se queixava de problemas com skinheads, que às vezes rondam por áreas residenciais de baixa renda, nos arredores de Moscou, molestando pessoas de pele morena.

No final de março de 2007, Shamil Odamanov telefonou "para me desejar um feliz aniversário", disse seu pai. "Foi a última vez que tive notícias dele".

Ele só foi ver seu filho novamente no vídeo. Ele estava amarrado, ajoelhado ao lado de outro homem e vestindo uma camisa e casaco Adidas preto que Artur, seu irmão, lhe deu, disse Umakhan.

Tendo música heavy metal como trilha sonora, o vídeo começa com o título "Operação do Partido Nacional-Socialista da Rússia para Prender e Executar Dois Colonos do Daguestão e Tadjiquistão". Há algumas cenas iniciais do interior, que investigadores agora acreditam ser em algum lugar na região de Kaluzhkaya, a cerca de 190 quilômetros a sudoeste de Moscou.

"Nós fomos presos pelos nacional-socialistas", os dois homens atados murmuram pelas suas mordaças.

Na cena seguinte, um dos captores, em uniforme de camuflagem e usando luvas pretas pesadas, grita "Glória à Rússia!" e então mergulha o que parece ser uma grande faca no pescoço do homem que se acredita ser Odamanov. Ele é decapitado em segundos.

Então o segundo homem, não identificado pela polícia, leva um tiro na cabeça e cai de frente em uma cova rasa. Na cena final, dois homens vestindo camuflagem e máscaras pretas, fazem a saudação nazista.

Cerca de 600 ataques racistas violentos, incluindo 80 assassinatos, foram informados na Rússia em 2007, segundo o centro Sova, uma organização que monitora crimes de ódio na Rússia. O número de ataques neste ano chegou a 232 até 1º de junho, 57 deles assassinatos.

Grupos de direitos humanos freqüentemente acusam as autoridades de ignorarem o problema da violência racial na Rússia, apesar de, pelo menos em Moscou, uma recente aumento nos assassinatos de pessoas de pele morena ter levado a uma resposta perceptível entre as agências de manutenção da lei.

"Os promotores de Moscou definitivamente começaram a tratar mais ativamente deste problema, desde o ano passado", disse Aleksandr Verkhovsky, diretor do centro Sova.

O Ministério do Interior anunciou na semana passada que a polícia prendeu mais de 50 pessoas neste ano que estariam envolvidas em ataques xenofóbicos em Moscou e São Petersburgo, as cidades com os maiores níveis de violência racista.

Ainda assim, o número de ataques em todo o país continua a crescer constantemente em cerca de 15% a 20% a cada ano, como tem ocorrido nos últimos cinco anos, disse Verkhovsky. Além disso, ele disse, o percentual de homicídios está crescendo à medida que os adolescentes envolvidos nos grupos nacionalistas violentos se tornam adultos.

"Eles simplesmente levam estes assuntos muito a sério", ele disse. George El Khouri Andolfato

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