UOL Notícias Internacional
 

13/06/2008

Milícias violentas ganham controle sobre as favelas do Rio

The New York Times
Alexei Barrionuevo

No Rio de Janeiro
Quando um grupo de jornalistas brasileiros decidiu trabalhar disfarçadamente aqui, em maio, para relatar a vida em uma das centenas de favelas que surgiram por todo o Rio, eles acharam que tinham escolhido cuidadosamente.

A favela que escolheram, a Batan, estava sob controle de uma milícia que expulsou os traficantes em setembro passado. Os jornalistas presumiram que a favela sob o controle de uma milícia armada, que incluía policiais fora de serviço, seria mais segura do que uma controlada pelos traficantes.

Eles estavam errados. E o que sofreram se tornou um escândalo público que voltou a atenção para o crescente risco representado por essas milícias, que tomaram o lugar dos traficantes de drogas como os senhores supremos que comandam muitas das favelas do Rio e seus empreendimentos ilícitos, freqüentemente com ligações com policiais e políticos corruptos.

Na noite de 14 de maio, seis homens encapuzados entraram na casa alugada onde estavam morando uma repórter de 28 anos do jornal "O Dia", um fotógrafo e um motorista. Eles capturaram os três, juntamente com um vizinho, e os torturaram por mais de seis horas.

Eles os fizeram jogar roleta russa, quase os sufocaram com sacos plásticos, os submeteram a choques elétricos e lhes deram socos e chutes. Eles ameaçaram atacar sexualmente a repórter e matar todos os três prisioneiros, segundo os relatos que a repórter e o motorista de 31 anos prestaram para a unidade contra o crime organizado da polícia do Rio.

O Brasil está passando por um boom econômico que está retirando milhões da pobreza. Mas aqui no Rio, o incidente, que veio à luz por meio de uma série de artigos de "O Dia", se tornou um sinal proeminente dos problemas nesta cidade, que é atormentada pela violência e por uma força policial notoriamente corrupta.

Apesar do crescimento econômico do Brasil, as favelas do Rio proliferaram, e agora podem chegar a mais de 800. As milícias se multiplicaram com elas, à medida que as batalhas com os traficantes de drogas tiveram um custo pesado sobre as forças policiais legítimas.

O moral e salários baixos levaram policiais, bombeiros e agentes penitenciários a trabalharem à noite como membros de milícias, dizem policiais e criminologistas que as estudaram.

As milícias preencheram um vácuo de autoridade ao prometerem segurança aos moradores em troca de pagamentos e a chance de assumir uma série de negócios ilegais -incluindo o controle do abastecimento de água e gás natural, máquinas caça-níqueis, conexões piratas de TV a cabo e o comércio de drogas.

Para muitas comunidades, as milícias são o menor de dois males. Elas ganham a simpatia dos moradores porque combatem os traficantes de drogas "bárbaros" do Rio, disse Cláudio Ferraz, o chefe da unidade de repressão ao crime organizado da policia estadual do Rio, conhecida como Draco. Mas as milícias estão substituindo uma forma de criminalidade por outra, ele disse. "Elas são um ataque ao princípio da democracia, elas são um câncer, um tumor", ele disse.

As cerca de 60 a 100 milícias têm conexões poderosas e estão freqüentemente ligadas não apenas com a polícia da cidade, mas também com políticos, que lhes oferecem proteção em troca de garantirem votos ou dinheiro dos moradores.

Jerônimo Guimarães Filho, um vereador, foi preso em dezembro sob suspeita de formação de uma milícia. Seu chefe de gabinete, Kennedy de Alencar, disse que a acusação era mentirosa.

Álvaro Lins, um deputado estadual e ex-chefe de polícia do Rio, também é acusado de ajudar a formar gangues armadas, o que ele nega "veementemente" em seu site.

A polícia no Rio hesita em disciplinar os seus próprios, devido a uma história de retaliação violenta. Mas o esforço da Draco é a mais visível de uma "repressão tímida" por parte da polícia contra as milícias, disse Rodrigo Pimentel, um ex-capitão da polícia e co-autor de "Tropa de Elite", um livro sobre a unidade de elite da polícia do Rio, que virou filme.

No ano passado, a Draco prendeu 140 pessoas, a maioria policiais civis e militares. Das forças policiais em mais de 100 delegacias do Rio, apenas a Draco, a unidade de combate ao crime organizado da polícia estadual, está investigando as milícias, disse Pimentel.

Na semana passada, a polícia prendeu Davi Liberato de Araújo, 31 anos, suspeito de ser o Nº 2 na hierarquia da milícia local, ligada à tortura dos jornalistas.

Liberato de Araújo era um condenado por roubo de carro que cumpria pena de mais de seis anos em regime semi-aberto; ele dormia na prisão à noite e era miliciano de dia. Ele não pôde ser contatado para comentários e a polícia disse que ele não tem advogado.

Os jornalistas também identificaram o homem suspeito de liderar a milícia local, Odnei Fernando da Silva, 34 anos, um ex-agente penitenciário que também trabalhou em um hospital psiquiátrico antes de ser aceito na força policial.

Da Silva, que era conhecido por circular pela favela usando máscara preta de ninja, ainda enfrenta acusações de violência contra um preso e por tentativa de homicídio. Ele escapou antes que a polícia pudesse prendê-lo por ligação com a tortura e permanece foragido.

Os jornalistas não foram citados nominalmente por qualquer publicação e não deram entrevistas. Alexandre Freeland, um editor de "O Dia", pediu ao "The New York Times" para também não publicar seus nomes. Os jornalistas, ele disse, estão escondidos fora do Estado do Rio de Janeiro para sua segurança. "Os milicianos ameaçaram matá-los", disse Freeland. "A divulgação de seus nomes poderia deixá-los mais expostos".

Durante a tortura dos jornalistas, os milicianos foram cuidadosos em usar técnicas que não deixam marcas visíveis, como sacos plásticos para asfixiar as vítimas, disse Ferraz.

Mas as cicatrizes psicológicas profundas eram óbvias para os investigadores. O fotógrafo "estava completamente destruído", disse o chefe. "Não dava para conversar com ele. Ele olhava para seus filhos, os abraçava e chorava".

Os jornalistas alugaram uma pequena casa em Batan no início de maio. Eles planejavam morar lá por um mês e escrever um artigo sobre a economia ilegal nas favelas, disse Freeland.

Eles não se identificaram como jornalistas. Mas de alguma forma o disfarce deles foi descoberto. Em 14 de maio, às 21h, um grupo de seis milicianos bateu à porta da casa alugada. Da Silva, o líder local, disse à repórter que ela estava presa por "falsa identidade". Os milicianos rapidamente exigiram todas as gravações e fotos.

Ao não encontrarem nada na casa, eles se tornaram violentos. Eles chutaram a repórter e jogaram roleta russa com ela, apertando o gatilho de um revólver duas vezes, segundo o depoimento dela à polícia.

Os milicianos então circularam com os jornalistas em um carro enquanto ameaçavam fazê-los consumir muita cocaína antes de jogá-los na favela Fumacê, para serem mortos pelos traficantes de drogas, a repórter disse à polícia.

Após chegarem a outro local não revelado, mais milicianos chegaram. Eles torturaram o grupo por pelo menos mais duas horas. Eles deixaram a repórter nua e perguntaram se ela já tinha feito sexo com cinco homens. Ela lembrou de estar com um saco plástico sobre sua cabeça durante grande parte da tortura e que ela desmaiou várias vezes, segundo fontes e o depoimento para a polícia.

Vários milicianos disseram aos jornalistas que a pessoa que decidiria o destino deles seria um homem conhecido como o coronel. Apesar de impossibilitada de ver devido ao saco plástico, a repórter disse à polícia que entre seus torturadores ela reconheceu a voz de um assistente de um deputado estadual que conheceu em um restaurante em Batan.

O deputado estadual, Jairo Souza Santos, é conhecido como Coronel Jairo, e já foi citado várias vezes na imprensa brasileira pela possibilidade de ter laços com as milícias. Gabriel Oliven, um porta-voz de Santos, negou na quarta-feira que Santos tenha qualquer tipo de envolvimento com as milícias, dizendo que o deputado nunca esteve em Batan.

Oliven disse que Santos, um ex-policial militar, é "totalmente contra as ações das milícias" e os considera como "bandidos uniformizados".

Os milicianos forçaram os jornalistas a revelarem seus endereços de e-mail e senhas. Eles posteriormente conduziram os prisioneiros para uma casa onde o fotógrafo tinha guardado seu equipamento e o fizeram destruir todas as fotos dos membros da milícia. Finalmente, às 4h30 da manhã, Da Silva ordenou que os milicianos soltassem os quatro prisioneiros.

Durante uma visita na semana passada, tudo estava calmo em Batan, mas viaturas da polícia circulavam pela favela em intervalos de poucos minutos. Os moradores disseram que não acreditam que a presença policial pesada durará muito tempo.

Apesar de alguns moradores lamentarem o que aconteceu aos jornalistas, a maioria dos entrevistados disse se sentir mais segura sob a milícia. Mas poucos estavam dispostos a dar seus nomes quando discutiam o grupo armado, dizendo temer retaliação.

Ricardo Perreira e dois amigos, todos moradores de Batan, disseram que a presença policial parece ter incapacitado a milícia por ora. Mas eles temem que assim que a polícia parta, uma nova gangue de traficantes chegue e tome a favela, e o ciclo de violência recomece.

"Ninguém aqui aceita mais as facções de drogas", disse Perreira, 30 anos. "Isso será o inferno. Agora nós estamos nas mãos de Deus". George El Khouri Andolfato

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