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14/06/2008

Demanda global incentiva a maior expansão da produção de champanhe na França em 100 anos

The New York Times
Doreen Carjaval
Em Magneux, na França
Jean-Michel Petit, membro da terceira geração de uma família de produtores de beterraba nesta vila, deseja trocar a sua atual cultura pelo champanhe.

"Eu plantaria a maior quantidade possível de videiras", afirma Petit, que fica radiante devido à perspectiva de cuidar de videiras tenras plantadas no solo calcário da sua propriedade no nordeste da França.

Petit e os cerca de 200 habitantes de Magneux fazem parte de um grupo ansioso que tenta ingressar no universo de elite dos produtores de champanhe, uma indústria de US$ 7 bilhões.

Owen Franken/The New York Times 
Clientes tomam champanhe no Bar de l'Hotel de Ville, em Fismes, próximo a Reims, França

Uma antiga regra de quase oito décadas que delineia a zona oficial do champanhe está prestes a ser mudada para incluir novos territórios, o que poderá possibilitar que fazendeiros como Petit vendam uvas para a produção de champanhe com o rótulo francês de aprovação, o "Appellation d'Origine Controlee", ou AOC.

Tradicionalmente, o champanhe pode ser produzido somente em uma parte da região de Champagne. Mas com o aumento da demanda global por este vinho borbulhante, que pressiona a oferta limitada, as autoridades francesas estão criando aquela que poderá ser a maior onda de expansão das vinícolas de Champagne em quase um século. A expansão tem o potencial para aumentar a produção anual em 100 milhões de garrafas, totalizando 430 milhões de garrafas anuais.

As maiores casas produtoras de champanhe aprovam o plano de expansão, que estará na fase de recursos até a próxima sexta-feira. Sem mais videiras, elas temem que os consumidores possam revoltar-se contra os preços cada vez mais altos do champanhe, que nos Estados Unidos já chegam a mais de US$ 35 a garrafa para os produtos não exclusivos da Moet & Chandon e US$ 40 para os da Veuve Clicquot.

As vendas nos Estados Unidos têm caído devido à crise econômica e a debilidade do dólar, o que torna as exportações francesas em euros mais caras. No ano passado as remessas de champanhe para os Estados Unidos caíram mais de 6%, chegando a 21,7 milhões de garrafas, após um período de crescimento contínuo a partir de 2001. Neste ano as vendas continuam caindo.

"O euro sobe e o dólar cai, e logo teremos um verdadeiro problema estrutural caso o custo da uva continue aumentando todo ano", explica Ghislain de Montgolfier, presidente da fabricante de champanhe Bollinger
- às vésperas de deixar o cargo - e líder da União de Casas de Champanhe, um grupo de comércio desta indústria.

No universo de elite dos produtores de champanhe, está em andamento um discreto debate sobre a possibilidade de uma mudança de estratégia em relação aos Estados Unidos, incluindo a possibilidade de redução dos volumes exportados ou de se passar a exportar para outros países que têm moedas mais fortes.

A Boizel Chanoine Champagne, por exemplo, fechou a sua subsidiária em Nova York. "Atualmente os Estados Unidos não são a nossa prioridade", afirma Celine Voide, da Boizel. "Preferimos nos concentrar na Europa e na Ásia".

Os consumidores dos Estados Unidos estão enfrentando um problema duplo, segundo Juan Banaag, gerente de pesquisas internacionais do Impact Databank, que acompanha as tendências dessa indústria. Ele diz que o problema reside no dólar fraco e nos aumentos de preços repassados pelos produtores de champanhe, que arcaram com custos mais elevados referentes à safra de uvas de 2007 devido à grande demanda e à oferta limitada.

Mas na bucólica região de Champagne, onde as fileiras bem traçadas de videiras e os campos de trigo que ondulam ao vento marcam a divisão entre os fazendeiros que têm permissão para produzir champanhe e os que não têm esta autorização, há pouca preocupação com a queda de demanda nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha.

Novos mercados estão se expandindo. Classes médias prósperas emergiram na China, na Índia e na Rússia, países nos quais as vendas aumentaram em um milhão de garrafas em 2007, o que representa um crescimento de mais de 43% em relação ao ano anterior.

Alguns pequenos produtores de champanhes mais sofisticados estão tendo tanto sucesso que deixaram de aceitar encomendas para a última safra.

Cyril Janisson, que integra a quinta geração de uma família de produtores de champanhe, aumentou a produção na vinícola familiar, a Janisson Baradon & Fills, para 95 mil garrafas no ano passado, um aumento de 17%, mas vendeu tudo rapidamente devido à grande procura. "A demanda é maior do que a nossa capacidade de produção", afirma Janisson, na penumbra fresca da vinícola da família em Epernay, um dos centros da região produtora de champanhe.

Garrafas cuidadosamente enfileiradas, reservadas para os principais clientes, estão marcadas com os nomes de importadores do Reino Unido, da Noruega e do Japão, onde os consumidores apreciam uma reserva especial do champanhe Vendeville Brut, que traz um rótulo com um coração cor-de-rosa e letras japonesas.

O champanhe da família Janisson é envelhecido à moda antiga em barris de carvalho, mas Janisson - um blogueiro infatigável - mantém relações com os seus principais clientes do mundo através do teclado do seu computador.

A atual região produtora de champanhe engloba um território de mais de
35 mil hectares adjacentes a 319 vilas. Em março, um grupo de especialistas escolhidos pelo governo francês aprovou mais de 40 outras comunidades que serão acrescentadas ao território do champanhe, zonas que agora estão sujeitas a recursos finais na justiça.

Preparando-se para as mudanças, algumas das maiores casas de champanhe, que compram a maior parte das suas uvas de produtores independentes, estão procurando discretamente terras novas, segundo membros da indústria que não quiseram se identificar na reportagem porque os especialistas do governo não concluíram o período de recursos judiciais. Pelo mesmo motivo, as companhias não querem discutir as possíveis aquisições de terras.

"Nós optamos deliberadamente por não nos pronunciarmos neste estágio", afirma Jean Berchon, porta-voz da Moet & Chandon, a principal vinícola na região de Champagne e a maior compradora das uvas colhidas pelos 15 mil produtores independentes da região.

O mesmo não se pode dizer a respeito das vilas da região, especialmente aquelas que não foram incluídas pelas autoridades francesas, como Magneux. As articulações silenciosas para o ingresso no clube ainda estão em andamento, ainda que o período de recursos se encerre em menos de uma semana.

Magneux, um aglomerado modesto de casas de pedra que foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial, foi tomada pela perplexidade quando vilas vizinhas foram aprovadas, mas ela não.

A maioria dos moradores viaja para Reims ou Epernay para encontrar trabalho, segundo o prefeito de Magneux, Sylvain Dukic. Ele próprio desloca-se constantemente para a Universidade de Reims, onde é pesquisador.

"Somos uma vila de trabalhadores, e gostaríamos de participar da riqueza que o champanhe traz a outras cidades", diz Dukic, observando que a sua comunidade está entrando com um recurso contra a decisão preliminar de deixá-la de fora da nova zona produtora de champanhe.

Magneux é uma dentre cerca de oito comunidades que se juntaram para contratar quatro estudantes encarregados de preparar um relatório sobre a história, o clima, a geografia e o solo da área, juntamente com registros que demonstram que as videiras da variedade usada para a produção de champanhe, a pinot noir, eram na verdade cultivadas aqui antes da designação ter sido imposta em 1927.

Jean-Pierre Pinon, prefeito de Fismes, ajudou a organizar Magneux e as outras comunidades para fazerem a propaganda das suas características favoráveis ao cultivo das videiras do champanhe. Mas ele reluta em comemorar a inclusão da sua cidade no novo território até que o painel do governo anuncie as suas conclusões finais.

"Não há nenhuma euforia e nenhum champanhe aqui porque as pessoas são supersticiosas. Elas só comemoram quando há uma decisão definitiva", explica Pinon, enquanto caminha entre vendedores durante o festival anual de flores da sua cidade. "Procurei trabalhar da forma mais discreta possível para alcançar esse objetivo".

Isso não é fácil, tendo em vista os possíveis efeitos econômicos da decisão. Pinon calcula que o valor de um hectare de terra no novo território que integrará a região do champanhe poderá saltar dos atuais 6.000 de euros para quase 1 milhão de euros, caso o mercado do champanhe continue forte.

Mas alguns moradores não estão aguardando a decisão final do governo para comemorar a boa sorte da cidade.

"O impacto será enorme", afirma Jose Charlier, dono do café de l'Etoile, que fica perto da prefeitura da cidade, um prédio gótico. "Você viu as casas na área de produção de champanhe? São magníficas. Os moradores reformaram as casas, tudo isso graças ao champanhe".

Com a música do festival de flores de Fismes abafando as suas palavras, Charlier procura abrigo no seu movimentado café. Minutos mais tarde ele retorna com uma garrafa gelada de champanhe e luettes para um grupo de fregueses.

Charlier dá um grande sorriso quando a rolha dá um estalido agradável e salta para longe. UOL

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