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14/06/2008

Europa se preocupa com choque do petróleo ao estilo anos 70

The New York Times
Mark Landler

Em Frankfurt, Alemanha
Na Europa, onde o arrocho no mercado de crédito causou menos confusão do que nos Estados Unidos, os temores estão concentrados em outro bicho-papão econômico: um choque do petróleo ao estilo dos anos 70.

Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, e Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, alertaram para os riscos de um novo choque do petróleo na Europa.

A alta dos preços dos combustíveis provocou greves de pescadores e caminhoneiros da Espanha até a Escócia. Bloqueios paralisaram estradas fora de Madri e Barcelona. E com a entrega de autopeças interrompida por todo o continente, a Volkswagen fechou uma fábrica em Portugal na sexta-feira.

O temor de que uma alta nos preços do petróleo possa dar início a uma espiral inflacionária foi reforçado na sexta-feira, quando a União Européia divulgou números mostrando que os custos do trabalho por hora saltaram acentuadamente no primeiro trimestre, e estão crescendo no ritmo mais rápido desde o início de 2003.

Um efeito cascata semelhante ocorreu após o primeiro choque do petróleo em 1973, que deixou a Europa com um legado de inflação e estagnação que levou uma década, e uma dolorosa recessão no início dos anos 80, para ser superado.

"A lembrança histórica do primeiro choque do petróleo é muito mais forte entre os europeus do que entre os americanos", disse Daniel Yergin, o presidente da Cambridge Energy Research Associates. "Para os americanos, a lembrança é de filas nos postos. Para os europeus, foi o fim de seu milagre econômico do pós-guerra."

Ele e outros especialistas alertaram contra exagerar a comparação entre 2008 e 1973. A Europa, eles dizem, está melhor equipada para absorver estes tipos de choques do que há 35 anos -com uma moeda comum forte, um banco central independente e economias abertas, mais flexíveis.

Ainda assim, com o crescimento desacelerando ao mesmo tempo em que os salários e preços aumentam, há semelhanças perturbadoras.

"Há inquietação entre os trabalhadores, que atualmente, como nos anos 70, sentem que foram enganados", disse Holger Schmieding, economista chefe para Europa do Bank of America, em Londres. "Eles têm que gastar mais em combustível, de forma que ficam com menos dinheiro para gastar em outras coisas, e, portanto, querem ser compensados".

O aumento acentuado nos custos do trabalho, disseram os economistas, praticamente garante que o Banco Central Europeu aumentará as taxas de juros no próximo mês, como sinalizou que faria na semana passada. Um aumento dos juros, eles disseram, seria um forte alerta aos sindicatos para não usarem a inflação para obter aumentos significativos dos empregadores.

Durante uma coletiva de imprensa em Frankfurt, Trichet ofereceu uma breve lição de história para ressaltar que o banco não repetiria os erros de seus antecessores, ao reagirem de forma lenta demais à inflação.

"Na Europa", ele disse, "é possível datar do primeiro choque do petróleo o início de um crescimento muito menor e de um desemprego em massa. Um grande número de economistas também está dizendo isso, e eu confio que os governos que têm lembrança desses choques estão muito cientes dos riscos".

Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, pediu por uma resposta global coordenada ao aumento dos preços do petróleo, e quer que seja a "prioridade máxima" no encontro dos líderes do Grupo dos 8 países industrializados, que será realizado no Japão no próximo mês. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, propôs a redução dos impostos sobre a gasolina.

Mas os líderes políticos têm relativamente poucas opções para coibir o preço do petróleo, o motivo para grande parte do foco na Europa estar nos bancos centrais -e em particular no Banco Central Europeu.

Após surpreender os mercados na semana passada, ao sinalizar que poderia aumentar as taxas em julho, o banco passou esta semana tranqüilizando os investidores -por meio de comentários de Trichet e de outros membros do conselho de governo- de que não planeja embarcar em uma nova rodada de aumentos dos juros.

"Eles balançaram o barco em um momento muito frágil", disse Thomas Mayer, economista chefe para Europa do Deutsche Bank. "É como se estivéssemos na cozinha com um vazamento de gás, e alguém acendesse um fósforo".

Além da questão de como o banco faz as comunicações, Mayer disse que teme que um aumento dos juros possa agravar a desaceleração econômica na Europa. Ele disse que também duvida que a política monetária possa conter os aumentos salariais, particularmente em países como a Espanha, cujos salários são indexados à inflação.

Mayer está entre os céticos em relação às analogias com o primeiro choque do petróleo. O Deutsche Bank elaborou uma lista de fatores que estavam presentes na Europa nos anos 70 -políticas fiscais frouxas, sindicatos poderosos, bancos centrais politicamente fracos, políticas comerciais protecionistas e assim por diante- e descobriu que em quase todas as áreas, a Europa está mais aberta e flexível hoje do que nos anos 70.

Isto torna a estagflação -a combinação de inflação e estagnação que tomou conta da Europa após o primeiro choque- menos provável desta vez, tanto aqui quanto em outras economias avançadas, disse Mayer.

Com menos sindicatos fortes, a inflação salarial ainda não é um problema por toda a Europa. Apesar dos custos do trabalho na Espanha terem subido 5,7% no primeiro trimestre de 2008, eles desaceleraram na França e na Alemanha. Recentes acordos salariais para funcionários do setor público na Alemanha podem vir a elevar seus números.

A resposta do Banco Central Europeu aos preços do petróleo, disse Mayer, o lembrou menos dos anos 70 e mais da hiperinflação alemã dos anos 20, que ajudou a criar o Bundesbank, o banco central alemão para combate à inflação e que influenciou enormemente o banco europeu.

"O Banco Central Europeu teve uma reação semelhante ao do Bundesbank", ele disse, acrescentando que nos anos 70, o Bundesbank "agiu acertadamente". George El Khouri Andolfato

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