UOL Notícias Internacional
 

14/06/2008

Krugman: o mal da idéia louca

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
"Mary had a little lamb / And when she saw it sicken / She shipped it off to Packingtown / And now it's labeled chicken" (Mary tinha um cabritinho / E quando ela o viu adoecer / Ela o mandou para Packingtown / E agora está rotulado como frango)

Esta pequena cantiga famosamente resumia a mensagem de "A Selva", o livro de Upton Sinclair de 1906 que expunha as condições da indústria de processamento de carne dos Estados Unidos. A denúncia de Sinclair ajudou Theodore Roosevelt a aprovar a Lei de Drogas e Alimentos Puros e a Lei de Inspeção de Carne -e por grande parte do século que se seguiu, os americanos confiaram nos fiscais do governo para manter seus alimentos seguros.

Mas ultimamente parece sempre haver pelo menos uma crise de segurança dos alimentos nas manchetes -espinafre contaminado, pasta de amendoim tóxica e, no momento, o ataque dos tomates assassinos. O declínio da credibilidade da regulação dos alimentos nos Estados Unidos até mesmo provocou uma crise de política externa: ocorreram manifestações em massa na Coréia do Sul, em protesto pela decisão do primeiro-ministro pró-americano de permitir a importação de carne bovina americana, proibida após a detecção do mal da vaca louca em 2003.

Como os Estados Unidos se viram de volta à "Selva"?

Começou com a ideologia. Os conservadores radicais americanos há muito idealizavam a Era de Ouro, considerando tudo o que se seguiu -não apenas o New Deal, mas até mesmo a Era Progressista- como um grande desvio do verdadeiro caminho do capitalismo.

Assim, quando Grover Norquist, o defensor antiimpostos, foi perguntado sobre sua meta suprema, ele respondeu que queria uma restauração da forma como os Estados Unidos eram "antes de Teddy Roosevelt, quando os socialistas tomaram o poder. Antes do imposto de renda, o imposto da morte, regulação, tudo isso".

O falecido Milton Friedman concordava, pedindo pela abolição da Food and Drug Administration (FDA, a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos). Ela era desnecessária, ele argumentava: as empresas privadas evitariam colocar em risco a saúde pública para proteger suas reputações e evitar ações coletivas danosas. (Friedman, diferente de quase todos os outros conservadores que consigo lembrar, via os advogados como os guardiões do capitalismo de livre mercado.)

Esses oponentes radicais da regulação antes ficavam politicamente à margem, mas com a ascensão do movimento do conservadorismo moderno, eles chegaram aos corredores do poder. Eles nunca tiveram votos suficientes para abolir a FDA ou eliminar à inspeção à carne, mas podiam e buscaram tornar ineficazes as agências encarregadas de assegurar a segurança dos alimentos.

Eles fizeram isto em parte simplesmente negando a estas agências recursos suficientes para realizarem seu trabalho. Por exemplo, o trabalho da FDA se tornou bem mais complexo ao longo do tempo, graças à combinação dos avanços científicos com a globalização. Mas a agência conta com um quadro de funcionários substancialmente menor do que tinha em 1994, o ano em que os republicanos assumiram o controle do Congresso.

Talvez ainda mais importante, foi a nomeação sistemática de raposas para proteger os galinheiros.

Assim, quando o mal da vaca louca foi detectado nos Estados Unidos em 2003, o Departamento de Agricultura era comandado por Ann M. Veneman, uma ex-lobista da indústria de alimentos. E a resposta do departamento à crise -que foi uma consistente minimização da ameaça e rejeição aos pedidos de exames mais amplos- parecia guiada pela agenda da indústria.

Uma decisão impressionante ocorreu em 2004, quando um produtor do Kansas pediu permissão para examinar suas próprias vacas, para que pudesse retomar suas exportações para o Japão. Você poderia esperar que o governo Bush aplaudiria este exemplo de auto-regulamentação. Mas a permissão foi negada, porque outros produtores de carne bovina temiam uma exigência por parte dos consumidores de que fizessem o mesmo.

Na hora H, ao que parece, os imperativos do capitalismo em prol dos amigos vencem a suposta fé no livre mercado.

No final, o departamento aumentou os exames, e a esta altura a maioria dos países que inicialmente proibiram a carne bovina americana permitiu seu retorno aos seus mercados. Mas os sul-coreanos ainda não confiam em nós. E apesar de parte desta desconfiança poder ser irracional -a questão da carne bovina se misturou com questões de orgulho nacional coreano, que foi ofendido pela diplomacia americana desajeitada- é difícil culpá-los.

A ironia é que a deferência do Departamento de Agricultura à indústria de carne bovina acabou saindo pela culatra: como compradores estrangeiros potenciais não confiavam em nossas medidas de segurança, os produtores de carne bovina passaram anos excluídos dos mercados estrangeiros mais importantes.

Mas a mesma coisa pode ser dita de outros casos em que o governo ficou no caminho de uma regulação eficaz. Mais notadamente, a recusa do governo de aprovar qualquer restrição aos empréstimos predatórios ajudou a preparar o terreno para a crise do subprime, que custou ao setor financeiro muito mais do que este lucrou com empréstimos acima do preço.

A moral desta história é que o fracasso em regular de forma eficaz não é ruim apenas para os consumidores, é ruim para os negócios.

E no caso dos alimentos, o que precisamos fazer agora -pelo bem de nossa saúde e de nossos mercados de exportação- é voltar ao modo como era após Teddy Roosevelt, quando os socialistas assumiram o poder. É hora de voltar a assegurar que o alimento dos americanos é seguro. George El Khouri Andolfato

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