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14/06/2008

Obra barroca perdida é novamente um espetáculo na Itália

The New York Times
Elisabetta Povoledo

Em Roma
Toda tarde às 17h30 em ponto, o momento "tah-dah" acontece na Chiesa del Gesú, a igreja matriz da Ordem Jesuíta.

Enquanto música coral enche a igreja, um show de luzes meticulosamente coreografado tem início no transepto esquerdo da Capela de Santo Inácio de Loyola. Durante o crescendo espantoso, um retábulo pintado desce lentamente, expondo um nicho profundo no qual uma estátua prateada majestosa descreve Santo Inácio, o fundador da Ordem Jesuíta, se lançando ao céu.

É um espetáculo quintessencialmente barroco, um que caiu em desagrado há cerca de um século. Naquela época, os responsáveis pela igreja aposentaram o retábulo de tela, que descreve Cristo presenteando Santo Inácio com um estandarte real, e o aparato mecânico que o descia e levantava, para que a estátua de prata pudesse permanecer em exibição.

Zeno Colantoni via The New York Times 
Painel de Andrea Pozzo retorna à Capela de Santo Ignácio de Loyola, na Chiesa del Gesú

"Este era o gosto da época", disse o padre Daniele Libanori, vice-reitor da igreja, sobre a decisão do início do século 20. Ele não é um fã da escultura exagerada, que foi criada por volta de 1698 por Pierre Le Gros, o Novo. (A que está em exibição atualmente é na verdade uma cópia de estuque do século 19, pintada de prateado. A original de prata foi derretida em 1798, durante uma ocupação pelas forças de Napoleão.) "A estátua é um pouco exagerada, mas causa uma grande impressão", ele disse.

Libanori prefere o retábulo, que ele descobriu há cinco anos, após chegar a igreja e começar a explorar seus cantos escondidos. Ele encontrou telas enormes, pintadas por volta de 1695 por Andrea Pozzo, um irmão leigo jesuíta, sob o altar, ainda inserida na moldura que foi construída para que pudesse ser erguida por polias. Ela estava praticamente arruinada pelo mofo, ele disse.

Além da emoção de encontrar uma obra perdida de Pozzo, conhecido como um dos maiores especialistas em trompe l'oeil do período barroco, Libanori ficou empolgado com a perspectiva de restaurar o transepto ao modo como foi concebido no século 17. Com o retábulo recolocado no lugar, a capela se tornou um itinerário espiritual assim como "a mais alta expressão da união de todas as artes", ele disse em uma recente entrevista em seu escritório.

"Há um crescendo de expectativa, saber o que está por trás do retábulo", ele disse sobre o show de som e luz.

O espetáculo diário na Gesú é uma lição sobre a cultura religiosa do período barroco, quando a Igreja Católica Romana encorajava os artistas a atiçarem a emoção do espectador e a Ordem Jesuíta gostava de usar o teatro como ferramenta pedagógica.

"O Barroco foi o século das maravilhas", disse Marcello Fagiolo, um professor da La Sapienza - Universidade de Roma e um grande especialista nestas exibições teatrais. Não era incomum, ele notou, as igrejas incorporarem cenários teatrais elaborados e usar máquinas e iluminação "às vezes para impressionar, às vezes para causar terror em relação à punição de Deus".

A idéia era "envolver todos os sentidos, manipulá-los de forma exagerada e ampliar as sensações por meio da emoção", disse Fagiolo.

A Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja conseguiu patrocinadores para financiar a restauração do maquinário barroco, entre eles a Enel, a maior empresa do setor elétrico da Itália, que pagou pela iluminação.

Francesco Buranelli, o secretário da comissão, disse que a capela restaurada, que foi entregue em abril, agora "oferece um momento de contemplação espiritual assim como uma emoção poderosa". Ele acrescentou: "Momentos como esse são bons para o coração e para a alma".

A iconografia da capela se concentra na ascensão de Santo Inácio, de sua missão terrena para infundir a crença em Jesus Cristo até sua glória final no céu.

O show diário de som e luz poderia ser considerado o equivalente barroco a uma versão do diretor. As palavras narradas -textos da Bíblia e de autoria de Santo Inácio, lidos em italiano- visam ajudar o visitante a "se envolver em uma contemplação mais profunda", disse Libanori, de acordo com a missão dos jesuítas.

A música é de Domenico Zipoli, um jesuíta do século 18 que acabou na América do Sul realizando trabalho missionário.

Ajuda o fato de Pozzo, um mestre da ilusão e autor de um renomado tratado sobre perspectiva, ter projetado toda a capela. Suas teorias são mais evidentes na abóbada de tirar o fôlego da Igreja de Santo Inácio, outra igreja jesuíta em Roma.

Na Gesú, o aparato barroco antes dependia de força muscular para que a pintura fosse erguida ou baixada, mas agora isso é realizado com o apertar de um botão. "É o mesmo mecanismo que abre uma porta de garagem, mas ligado às polias e um peso", disse Libanori.

O espetáculo não acaba de fato com a revelação da estátua. O show prossegue, iluminando no final toda a nave da igreja, onde Santo Inácio é recebido em uma visão ilusionista do céu, onde figuras saem de nuvens de estuque pintadas por G.B. Gaulli, conhecido como Baciccia, e então no domo da igreja, onde se une a Deus.

"As pessoas tendem a partir após a estátua ser revelada e tento impedi-las -eu digo, 'Fiquem, fiquem, o melhor está por vir'", disse Edenia Sinigaglia, uma voluntária da igreja. "Elas sempre me agradecem depois."

Libanori disse que foram planejadas versões em inglês e espanhol do show, apesar do entendimento do texto em italiano poder ser irrelevante para a experiência.

"Eu gostei", disse Alan Boyle, um turista britânico que assistiu à apresentação em um dia desta semana e que não fala italiano. "Para mim, ainda continuou sendo um teatro maravilhoso, mas eu não sou uma pessoa religiosa". George El Khouri Andolfato

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