UOL Notícias Internacional
 

15/06/2008

Comentarista esportivo revelou o lado humano do ditador

The New York Times
Emilie Deutsch*
No verão de 1991, o canal ABC Sports encheu um navio cargueiro de 130 metros de comprimento com 15 unidades móveis, 40 câmeras, 32 quilômetros de cabos, 50 ilhas de edição, cinco antenas parabólicas e comida suficiente para 350 pessoas durante três semanas, e enviou tudo isso a Havana para cobrir o evento esportivo mais importante que aconteceu em Cuba - os Jogos Pan-americanos.

Por causa do embargo de comércio, a ABC havia recebido uma permissão especial do governo dos EUA para negociar com os cubanos sob a condição de que absolutamente nada - nenhum videotape, monitor, nem mesmo um cronômetro - fosse deixado para trás.

O que ficou daquele evento esportivo especial foi uma entrevista conduzida pelo comentarista esportivo da ABC Jim McKay com Fidel Castro, presidente de Cuba na época.

Quando a equipe de TV chegou para a entrevista no antigo palácio presidencial às cinco da tarde, os cubanos insistiram em inspecionar todas as malas e desmontar tudo o que foram capazes de abrir, para certificarem-se de que não havia explosivos ou armas escondidos no meio do equipamento. Uma falange de seguranças cubanos levou o equipamento para a área da entrevista peça por peça, atrasando toda a montagem.

Os auxiliares de Castro deram uma olhada na sala às oito e meia da noite para ver se tudo estava pronto, e quando ficou claro que não estava, o presidente foi escoltado de volta para seu gabinete até que a montagem estivesse completa.

Às dez da noite, Castro entrou na sala a passos largos, com sua presença carismática em uniforme verde e a barba que se estendia por 12 centímetros abaixo do queixo, sua marca registrada. Ele se inclinou para apertar a mão de McKay, e apesar de ser a figura mais imponente, cerca de 30 centímetros mais alto, ficou claro que ele se sentia honrado por estar na presença de um conhecido apresentador esportivo americano, a quem acompanhou durante anos na antológica série "Wide World of Sports".

Os dois sentaram-se frente a frente, com o intérprete de Castro fora do ângulo da câmera. Era uma cena forte - dois homens por volta dos seus 60 anos, um deles, um jornalista esportivo de terno e gravata, e o outro, um ditador comunista de uniforme, criados em culturas diferentes, mas ambos educados por jesuítas e capazes de encontrar alguma afinidade no campo dos esportes.

McKay entrevistou Castro por quatro horas, numa conversa ampla que contemplou a queda da União Soviética, a visão de Castro sobre os oito presidentes americanos que passaram pelo poder durante seu governo em Cuba até 1991 e sobre as vantagens de usar tacos de madeira em vez de alumínio. De uma forma descontraída e eloqüente, McKay guiou a discussão com maestria, usando questões simples e diretas para transformar o duro Castro em uma pessoa comum.

"Gostaria de saber mais sobre você como homem, e tenho certeza de que o povo americano também gostaria", disse Mckay. "Como descreveria a si mesmo como pessoa?"

Em outro momento, quando McKay perguntou sobre as influências na vida de Castro, e este respondeu falando sobre Jesus Cristo e teóricos políticos como Jose Marti e Karl Marx, McKay interviu: "Mas essas são figuras políticas e religiosas famosas. Há alguém que você conheceu pessoalmente que tenha causado uma grande influência em sua vida?" (A resposta foi Che Guevara.)

Castro havia sido um excelente atleta, e chegou a ser nomeado o atleta do ano quando estava no colegial, em sua juventude. Havia rumores de que ele tinha recebido uma proposta de US$ 5 mil para jogar beisebol profissional nos Estados Unidos. Quando McKay apontou que George H. W. Bush, presidente americano na época, também havia sido um grande esportista, Castro respondeu: "Preferia que ele tivesse sido um atleta profissional importante, porque como presidente não tem sido muito amigável conosco!"

McKay perguntou a Castro o que ele sentiu quando John F. Kennedy, presidente com quem havia disputado a Baía dos Porcos e a Crise dos Mísseis, foi assassinado.

"O que eu senti quando recebi a notícia foi aquilo que alguém que tem um adversário, que respeita esse adversário e, de repente, tem esse adversário assassinado", disse Castro. "Um lutador de boxe num ringue, por exemplo, com o adversário assassinado a tiros no meio da luta. Acredito que Kennedy tenha sido o mais brilhante de todos. O mais brilhante. Acho que ele era um homem brilhante com um grande carisma."

Quando a entrevista terminou, às 2 da manhã, e a equipe de Castro fez passar pela sala um carrinho com sanduíches e garrafas de bebidas americanas e rum cubano, o ditador e o apresentador esportivo inclinaram-se sobre uma bola de beisebol e Castro mostrou a McKay como era a pegada para dar o seu famoso lançamento curvo. Em torno deles, a equipe desligava as luzes e as pessoas circulavam, bebendo rum e comendo sanduíches cubanos. Mas McKay e Castro continuavam conversando sobre os jesuítas, tacos de madeira, grandes atletas e os Jogos Pan-americanos que logo aconteceriam.

Depois Castro despediu-se do grupo com apertos de mão e desapareceu.

A última pergunta de McKay para Castro foi: "Você é capaz de ver, no tempo em que nós dois vivermos, alguma maneira de os EUA e Cuba assumirem uma relação normal?" Castro respondeu: "Tudo vai depender, meu amigo, de quantos anos nós vivermos."

Na terça-feira, Jim McKay foi enterrado em um cemitério privado em sua fazenda em Maryland. O grande contador de histórias capaz de humanizar seus entrevistados, não viveu para ver o relaxamento das tensões das relações Cuba-EUA, mas deixou um legado permanente ao transformar as figuras mais célebres e famosas, atletas ou ditadores, em pessoas familiares a todos nós.

*Emilie Deutsch dirigiu e produziu a entrevista de Jim Mckay com Fidel Castro em 1991. Atualmente ela é vice-presidente de programação original no CBS College Sports. Eloise De Vylder

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