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17/06/2008

Krugman: Bush deixa pílula de veneno fiscal para o sucessor

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Uma pílula de veneno, no jargão corporativo, é um esquema financeiro formulado para proteger a administração corrente de uma empresa, aleijando-a, caso seja assumida por outra.

Quando li a análise das propostas fiscais dos candidatos à presidência feita pelo Centro de Política Fiscal, que é apartidário, entendi que os cortes de impostos estabelecidos pelo governo Bush são, em efeito, uma pílula de veneno fiscal contra as futuras administrações.

É verdade que os alívios fiscais não impediriam uma mudança na administração -a Constituição garante isso. Contudo, tornaram difícil para o próximo presidente mudar o direcionamento do país.

Um exemplo da pílula de veneno em ação é o triste caso de John McCain. O que ainda resta de sua imagem de político com pensamento independente vinha da sua oposição inicial aos cortes de impostos propostos por Bush, que ele julgou excessivos e muito voltados aos ricos.

Desde então, os superávits dos anos Clinton deram lugar a déficits persistentes, e a desigualdade de renda aumentou tremendamente, justificando sua oposição.

Entretanto, em vez de ressaltar isso, McCain agora promete tornar esses cortes de impostos permanentes -e propõe ainda mais cortes, ainda mais voltados para os ricos. E como a perda na receita será compensada? McCain não ofereceu uma resposta realista.

É possível explicar o comportamento de McCain, mas não desculpar, por sua necessidade de reforçar as relações com a base republicana, que o considera um moderado enrustido. Entretanto, ele não é o único aparentemente preso ao legado fiscal de Bush.

O plano fiscal de Barack Obama é mais responsável do que o de McCain: em relação à atual política, o Centro de Política Fiscal estima que o projeto de Obama arrecadaria US$ 700 bilhões (em torno de R$ 1,4 trilhão) na próxima década, comparados com US$ 600 bilhões (aproximadamente R$ 1,2 trilhão) que seriam perdidos com McCain.

O plano de Obama também é muito mais progressivo, reduzindo fortemente o salário líquido dos 1% mais ricos enquanto aumenta dos 80% mais pobres.

No entanto, apesar de US$ 700 bilhões parecer muito dinheiro, provavelmente não será suficiente para pagar pelo plano de saúde universal, que supostamente seria a prioridade nesta eleição.

Por que Obama não propõe levantar mais dinheiro? Culpe a pílula de veneno de Bush.

Primeiro de tudo: Obama -e, para ser justo, seus principais rivais na nomeação democrata- não está disposto a derrubar os cortes de impostos de Bush como um todo. Ele apenas propõe sua suspensão para os que ganham mais de US$ 250.000 (em torno de R$ 500.000) por ano.

Segundo: Obama propõe a devolução de uma parte substancial do arrecadado nesta suspensão parcial de cortes de impostos na forma de novos alívios fiscais.

Esses alívios fiscais beneficiariam principalmente as famílias de renda baixa e média, apesar de não ser verdade na proposta de Obama de eliminar o imposto de renda de idosos com renda abaixo de US$ 50.000 (cerca de R$ 100.000): como a maior parte desses idosos já não paga impostos, não adiantaria nada para os que têm mais necessidade. Além disso, a proposta faz a pessoa questionar a criação de um precedente de isenção de impostos para um grupo demográfico específico.

No entanto, a grande questão é: esses cortes de impostos, por mais que sejam atraentes, são uma alta prioridade? A proposta mais cara, sob o título "Fazer o Trabalho Pagar", daria à maior parte dos trabalhadores US$ 500 (em torno de R$ 1.000) em créditos fiscais, a um custo de mais de US$ 700 bilhões em um período de dez anos. Não seria mais importante que os trabalhadores tivessem garantida a sua saúde?

O problema, acredito, é que até os democratas adotaram a premissa subjacente dos anos Bush: que a melhor coisa que você pode fazer para as famílias americanas, ou pelo menos a única coisa que pode conquistar votos, é dar-lhes um desconto no imposto.

E, mais uma coisa: na sexta-feira (13/6), Obama declarou que "estenderia a promessa" da Previdência Social impondo uma taxa sobre os salários das pessoas que ganham mais de US$ 250.000 por ano. O Centro de Política Fiscal estima que isso levantaria outros US$ 629 bilhões (aproximadamente R$ 1,25 trilhão) na próxima década.

No entanto, se a renda obtida com este aumento de imposto realmente fosse reservada para a Previdência Social, não estaria disponível para as atuais iniciativas. Novamente, a pessoa se pergunta sobre as prioridades. Independentemente do que dizem os defensores da privatização, a Previdência não está em crise: o Escritório de Orçamento do Congresso diz que o fundo estará bem até 2046 e vários analistas acham que até mesmo essa estimativa é exageradamente pessimista. Então, dar mais ao fundo seria o melhor uso que um progressista pode encontrar para uma receita adicional escassa?

De qualquer forma, de volta ao meu tema principal: olhando as propostas fiscais dos dois candidatos presidenciais, é notável e desanimador ver como a pílula venenosa fiscal do presidente Bush restringiu eficazmente os termos do debate.

Os progressistas, em particular, têm que ter esperança que Obama terá maior disposição de desafiar o legado de Bush quando estiver no cargo do que tem tido na campanha. Deborah Weinberg

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